Esse analista acredita em dólar abaixo de R$ 5 mesmo com eleições — mas sem guerra

Por Clara Assunção 10 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Esse analista acredita em dólar abaixo de R$ 5 mesmo com eleições — mas sem guerra

A combinação entre um ambiente externo menos hostil e um cenário político doméstico mais previsível pode levar o dólar a encerrar o ano abaixo dos R$ 5. Essa é a avaliação de Alexandre Viotto, chefe de banking da EQI Investimentos, que vê "ventos favoráveis" para a valorização do real nos próximos meses.

O responsável pelas áreas de câmbio e crédito da casa ainda avalia  o conflito entre os Estados Unidos, Israel e Irã com preocupação, mesmo após o cessar-fogo acordado a última terça-feira após 40 dias de guerra entre os países. "Essa situação não está resolvida, o risco de o conflito seguir forte é relevante, mas eu acho que tem mais coisas para acontecer", afirma.

Segundo Viotto, um dos fatos que podem vir a acontecer é que o próprio presidente dos EUA, Donald Trump, "comece a adotar posturas inesperadas para tentar diminuir o prejuízio nas eleições de meio de mandato".

Na semana passada, uma pesquisa do site RealClear mostrou que a aprovação dos americanos à guerra no Irã é de 39% contra 54,4% que não estão convencidos da necessidade do conflito. O resultado é praticamente um espelho da aprovação de Trump, aceito por 41,7% dos eleitores, contra 55,1% dos que o desaprovam.

Com o cessar-fogo, porém, Viotto também pondera que o momento mais crítico da guerra pode já ter passado. "A parte pior desse conflito provavelmente já ficou para trás", afirma. Ainda que episódios pontuais continuem ocorrendo, como ataques localizados ou tensões indiretas, a leitura é de que o pico de aversão a risco ficou no mês passado. E essa mudança de percepção global é central para o câmbio.

Em março, no auge das tensões no Oriente Médio, o dólar subiu 0,87% frente ao real, refletindo a busca por segurança. No acumulado de 2026 até ontem a divisa recuava cerca de 8%.

Segundo Viotto, o real tem se beneficiado de fatores estruturais, entre eles, o petróleo. "O conflito reposicionou a commodity em um novo patamar, entre US$ 80 e US$ 90 por barril, o que favorece diretamente o Brasil. Nesse nível de preço, o real surfa muito bem", diz.

Isso porque o país é exportador líquido de petróleo, o que aumenta a entrada de dólares na economia. "Dado que essa commodity sobe de valor, entra mais divisa no Brasil e nossa moeda valoriza", acrescenta Viotto.

O efeito, no entanto, depende da ordem dos fatores. Em momentos de crise aguda, o movimento é inverso, com investidores priorizando segurança antes de retorno. "Primeiro ele está preocupado com o risco. Depois, com a rentabilidade. Então ele vai buscar um ativo mais seguro, como o dólar", afirma.

Com a redução das tensões, esse fluxo tende a se reverter em direção a mercados emergentes.

Nem as eleições podem atrapalhar o dólar abaixo de R$ 5

Do lado doméstico, o cenário político, com as eleições presidenciais em outubro deste ano, também entra na equação. Para o analista, o mercado não reage necessariamente ao espectro ideológico dos candidatos, mas sim ao tom do discurso. "Eles têm receio de quando o discurso fica muito extremado. Se for mais ao centro, é positivo", disse.

Na leitura da EQI, a eleição deve girar em torno de dois principais candidatos, o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), sem uma terceira via. Embora Lula e Flávio sejam vistos como nomes da esquerda e direita, respectivamente, o especialista avalia que ambos têm adotado uma postura mais moderada até aqui, o que reduz incertezas.

"Sendo bom para o mercado, porque é mais previsível, temos força local para o real seguir se valorizando".

Esse pano de fundo sustenta a projeção de câmbio mais baixo, inclusive ao longo do período eleitoral. "Por isso que o nosso call é para dólar abaixo de cinco", diz Viotto.

O operador pondera, no entanto, que o comportamento da moeda tende a oscilar conforme as pesquisas avançam. "Se um candidato dispara, o dólar reage rápido. Depois o mercado começa a olhar equipe econômica, Banco Central, fiscal".

Mas há riscos no radar

Apesar do viés construtivo, o cenário não é isento de riscos. O próprio analista ressalta que a situação no Oriente Médio está longe de resolvida. “Se o cessar-fogo não permanecer, aí não tem teto para o dólar”, afirma. A instabilidade no Estreito de Ormuz e a possibilidade de novas escaladas militares ainda são pontos de atenção.

Esse ambiente de incerteza ficou evidente também no fluxo cambial. Embora o Brasil tenha registrado entrada líquida de US$ 4,1 bilhões no primeiro trimestre, março teve saída de US$ 6,3 bilhões, a segunda pior da série histórica, iniciada em 1982, para o mês. O movimento foi puxado pela conta financeira, refletindo a retirada de capital estrangeiro em meio à aversão a risco.

"É capital especulativo, de curto prazo. Quando aumenta o risco lá fora, ele sai rápido", diz Viotto. Ainda assim, fatores como reservas internacionais elevadas e o diferencial de juros, que sustenta o carry trade, — operação que visa lucrar com a diferença de taxas de juros entre dois países —, ajudaram a amortecer a volatilidade do real.

No campo das recomendações, a orientação da EQI não é apostar em timing de curto prazo para o câmbio. A compra de dólar, segundo o analista, deve fazer parte de uma estratégia estrutural de diversificação.

"A gente não busca um patamar. A ideia é comprar de forma constante, independentemente de onde estiver o dólar", afirma. O objetivo, nesse caso, é proteção. "Enquanto o real desvaloriza, o dólar fica mais forte. É uma forma de equilibrar a carteira".

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