Fundos ensaiam retomada na B3 e movimentam quase R$ 1 trilhão em ações
Os investidores institucionais movimentaram R$ 997,4 bilhões em ações na B3 ao longo de 2025, em um movimento que marca uma retomada ainda cautelosa da presença desse perfil na bolsa brasileira.
Os dados, divulgados nesta terça-feira, 3, são da plataforma Datawise+, solução da B3 em parceria com a Neoway, e mostram que o volume negociado no segmento de ações cresceu 25% na comparação entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025.
Quando se considera todo o mercado à vista — que inclui, além de ações, ativos como Certificados de Depósito de Valores Mobiliários (BDRs), fundos de índice (ETFs) e fundos imobiliários (FIIs) — o volume negociado pelos fundos de investimento superou R$ 1,7 trilhão no ano passado, um avanço de 15% no mesmo período.
O crescimento aconteceu em um ano marcado pela forte concorrência da renda fixa. Em 2025, a taxa básica de juros, a Selic, chegou a 15% ao ano, o maior patamar desde 2006, o que manteve grande parte dos recursos alocada em ativos de menor risco.
Ainda assim, a renda variável surpreendeu: o Ibovespa acumulou alta superior a 30% no ano.
Mas mesmo com esse desempenho expressivo da bolsa, a participação do investidor institucional local ficou aquém da atuação dos estrangeiros. Em 2025, os investidores não residentes movimentaram R$ 2,8 trilhões em ações na B3, alta de 15% em relação ao ano anterior, e responderam por 62% de todo o volume negociado no segmento, segundo dados do Datawise+.
Para Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, a base de comparação ajuda a explicar o avanço observado no volume negociado pelos fundos em 2025.
"O ano de 2024 foi muito ruim para a bolsa e para o mercado de forma geral. Em 2025, o Brasil surfou um vento de cauda da volatilidade externa, que acabou contribuindo para um fluxo de capitais para cá, e a melhora da perspectiva macro também trouxe uma maior animação dos investidores nacionais de bolsa", afirmou.
Ainda assim, segundo o economista, a indústria de fundos entrou nesse movimento em desvantagem.
"A indústria de multimercado sofreu desde 2024, com uma perda de ativos sob gestão (AUM) de aproximadamente R$ 400 bilhões. Ainda deve demorar um pouco para o mercado se recuperar", disse Tavares.
Indústria de fundos ensaia retomada?
Para ele, a retomada mais consistente da participação do investidor institucional depende de fatores como "o ciclo de corte de juros e a mudança do ciclo eleitoral".
"Entendemos que se confirmando os cenários de alternância do ciclo político, com um candidato mais próximo da agenda de reformas e o ciclo de corte de juros conseguindo entregar uma redução expressiva da curva de juros reais, o investidor institucional tende a crescer", afirmou.
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, destaca que os números da indústria de fundos de 2025 "sinalizam uma retomada gradual do apetite do investidor institucional local pela renda variável, depois de um período marcado por forte concorrência da renda fixa".
"Esse crescimento de 25% reflete maior previsibilidade macroeconômica ao longo de 2025, a adaptação das carteiras ao novo patamar de juros e a necessidade estrutural de buscar ativos que superem a inflação e cumpram metas atuariais no médio e longo prazo”, afirma.
Os dados mostram que dezembro foi o mês de maior volume negociado pelos investidores institucionais, com R$ 100,7 bilhões, seguido por maio (R$ 89,8 bilhões) e novembro (R$ 88,6 bilhões).
Para os especialistas, essa avanço no último mês do ano passado pode ser interpretado como um sinal preliminar de que o investidor institucional começa a se preparar para um cenário de juros gradualmente mais baixo de 2026.
Lima, pondera, porém, que o dado também sugere um movimento mais tático e sazonal do que uma mudança estrutural imediata, embora também concorde com a possibilidade de aumento de apetite do investidor institucional. "O fim do ano costuma concentrar rebalanceamentos de carteira, realização de lucros e ajustes de risco", disse.
Já Felipe Sant'Anna, especialista em investimentos do grupo Axia Investing, observa que há espaço para aumento da alocação dos investidores institucionais na bolsa, mas apenas enquanto o cenário fiscal e eleitoral permanecer previsível no curto prazo. Segundo ele, histórico brasileiro mostra que choques políticos inesperados podem provocar movimentos bilionários em poucos minutos nos mercados.
"Temos um cenário frágil e o institucional local sabe bem. O Brasil é um pais do hoje e do amanhã, não temos certeza de nada para médio e longo prazo, aliás, longo prazo aqui deve ser considerado um ano, mais do que isso já temos muita incerteza", afirmou.
Fundos dão preferência à liquidez, previsibilidade e geração de caixa
No ranking das ações mais negociadas pelos investidores institucionais em 2025, aparecem empresas de grande capitalização e alta liquidez, as '"blue chips" do Ibovespa. A mineradora Vale lidera com R$ 86 bilhões, seguida por Petrobras, com R$ 67,9 bilhões; Itaú (R$ 45 bilhões), Banco do Brasil (R$ 37,8 bilhões) e Bradesco (R$ 31,7 bilhões).
Também figuram B3, Prio, Localiza, Axia Energia e Equatorial Energia.
Segundo Lima, a composição do ranking reforça o perfil defensivo da alocação. "O investidor institucional não está apostando em narrativas especulativas, mas em empresas líderes, com histórico de resultados, liquidez e capacidade de atravessar diferentes cenários macroeconômicos", afirmou.
A preferência por commodities, grandes bancos e empresas de infraestrutura indica uma estratégia voltada à preservação de capital e à geração de caixa previsível, acrescenta Lima.
Enquanto isso, o forte desempenho do Ibovespa em 2025 foi puxado principalmente pelo investidor estrangeiro, favorecido pelo enfraquecimento do dólar, pelo questionamento do excepcionalismo americano e pelo início do ciclo de corte de juros nos Estados Unidos que favoreceu as operações de carry trade, a saída de recursos de países de juros baixos para mercados de juros mais baixos.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: