Guerra no Irã completa 21 dias, eleva custos e acende alerta no agro global
Após três semanas de escalada na guerra no Irã, os efeitos já começam a se espalhar pelas cadeias globais de commodities — e o agronegócio está entre os mais pressionados. A combinação de energia mais cara, fretes em alta e riscos no fornecimento de fertilizantes acende um alerta para custos e inflação de alimentos.
O choque no agro vem principalmente da disparada dos custos energéticos, que afetam toda a cadeia produtiva. Desde o início da escalada do conflito, o petróleo subiu 60%, enquanto o gás natural avançou 22,3%. Em alguns derivados, a alta se aproxima de 60%, mostram dados da Hedgepoint Global Markets, consultoria de commodities.
O movimento encarece diretamente a produção agrícola, que depende de combustíveis, fertilizantes e transporte. Ao mesmo tempo, o custo logístico também dispara.
O frete marítimo de grãos subiu cerca de 50% entre março de 2025 e 2026, enquanto o transporte de petróleo avançou mais de 70% no período.
Com rotas tradicionais afetadas no Mar Vermelho e no Estreito de Ormuz, navios são obrigados a contornar a África, aumentando tempo de viagem, consumo de combustível e custos de seguro.
O resultado é uma pressão direta sobre o custo de produção e exportação de alimentos no mundo.
Fertilizantes no agro
Para além da questão energética, os fertilizantes também entram no radar de preocupação.
No caso do Brasil, que importa cerca de 85% dos insumos utilizados na agricultura, os efeitos tendem a se intensificar a partir de abril, período em que os produtores iniciam as compras para a safra 2026/27.
Em 2025, o uso total desses insumos chegou a 49 milhões de toneladas, alta de 7,7% em relação a 2024. Desse volume, 43 milhões de toneladas foram importadas, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda).
Os preços da ureia, principal fertilizante utilizado no cultivo de milho, já subiram mais de 35% desde o início do conflito, refletindo o peso do Irã como um dos principais fornecedores globais.
Entre os principais fornecedores de fertilizantes para o Brasil estão China, Rússia, Nigéria e países do Oriente Médio — região diretamente impactada pelo conflito.
A Rússia, inclusive, suspendeu as exportações de nitrato de amônio, insumo do qual o Brasil depende em cerca de 95% das importações. O país é o principal fornecedor de fertilizantes para o mercado brasileiro. Há rumores de que a China deve restringir suas exportações de fertilizantes também.
Segundo o Itaú BBA, o impacto imediato pode ser parcialmente mitigado pela sazonalidade, já que o Brasil não está no pico de compras de nitrogenados neste momento, o que permite uma postura mais cautelosa na formação de estoques.
Ainda assim, dados da Argus Media mostram que produtores de ureia do Oriente Médio retiraram ofertas do mercado diante da escalada das tensões, enquanto avaliam estoques e condições logísticas, especialmente no Estreito de Ormuz.
A região responde por cerca de 35% do comércio marítimo global de ureia, com aproximadamente 20 milhões de toneladas por ano.
O Irã tem participação relevante nesse mercado, concentrando cerca de 11% das exportações globais de ureia e 5% das de amônia, segundo dados da Argus Media e da StoneX.
Exportação do agro
O conflito também levanta dúvidas sobre a demanda e a logística para produtos brasileiros, já que o Oriente Médio é um destino relevante para o agro nacional.
Entre os principais fluxos, estão 9 milhões de toneladas de milho exportadas para o Irã, 7,7 milhões de toneladas para o Egito, além de 479 mil toneladas de frango para os Emirados Árabes e 397 mil toneladas para a Arábia Saudita.
Com o fechamento de rotas e o aumento do risco geopolítico, esses fluxos podem ser afetados ou redirecionados, encarecendo as operações.
Diante desse cenário, e em função da escalada da guerra no Oriente Médio, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) pediu ao governo federal ajuda para mitigar as perdas financeiras decorrentes dos impactos logísticos e nos fluxos de comércio de alimentos.
A entidade, que representa os setores exportadores de carne de frango, carne suína, ovos e material genético avícola do Brasil, enviou uma solicitação ao Ministério da Fazenda pedindo mecanismos de apoio ao capital de giro das empresas exportadoras.
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