Guerra no Irã: quais são as economias que mais são afetadas?
A guerra no Irã, por ter criado um bloqueio efetivo no estreito de Ormuz, tem o potencial de causar uma crise econômica global, com efeitos em cascata afetando todos os países pelo mundo.
Com cerca de 20% do volume global de petróleo sendo transportado por Ormuz, indústrias fundamentais, do transporte e agricultura ao turismo, sofrem drasticamente com a indisponibilidade na oferta da commodity. Altas consecutivas nos preços geram incertezas, inclusive em nações petroleiras, e impactos diretos na população devido ao aumento dos preços da gasolina.
Além disso, o Irã também ataca refinarias, resultando em ainda menos petróleo refinado, instalações de gás natural, afetando a oferta de outro importante produto, e impede o fluxo de dezenas de navios no estreito, interrompendo rotas de outras importantes mercadorias como matérias primas para fertilizantes e plásticos.
Apesar de a crise ser global, e afetar países e regiões muito distantes da zona de conflito, algumas economias, por causa de seus laços comerciais, são desproporcionalmente afetadas. Entenda as economias e setores mais afetados pela guerra, e por quê o conflito impacta certas indústrias em particular, mesmo que de maneira indireta.
Competição entre Europa e Ásia
Petróleo: preços em constante disparada preocupam nações asiáticas e podem causar problemas adicionais na Europa (Montagem/Canva/Exame)
De todo o petróleo e gás natural movimentados normalmente por Ormuz, cerca de 80% têm a Ásia como destino.
O fechamento do estreito resultou em intensas crises e escassez do produto vital por todo o continente. Por mais que potências regionais como o Japão e a China tenham amplos estoques ou possam se aproveitar de relações diplomáticas com o Irã, para a maior parte do resto do continente a situação é preocupante.
De semanas com apenas quatro dias a cotas máximas semanais de gasolina e adiantamento de importantes feriados religiosos, tudo por falta de recursos, os países mais pobres da região, principalmente no sudeste asiático, enfrentam uma contagem regressiva até que seus estoques de petróleo, essencial para geração de energia e operação industrial, se esgotem.
As Filipinas, Tailândia, Malásia e Brunei, por exemplo, dependem de importações para conseguir até 95% de seu petróleo em alguns casos, segundo a Al-Jazeera. Até mesmo a Indonésia, que produz petróleo, importa mais de um terço de seu óleo bruto.
O desespero já toma conta de alguns países. Segundo apuração do Washington Post, a Tailândia chegou a oferecer barganhas de comida e outros materiais para conseguir passagem segura de suas embarcações pelo estreito de Ormuz.
Trabalhadores que dependem de veículos, como taxistas e motoristas de ônibus, estão presos em casa por dias, devido às cotas semanais de gasolina ou aos rodízios que ditam dias alternativos para motoristas, a fim de economizar combustível.
O turismo, indústria vital para muitos desses países, vê quedas drásticas em seus números conforme o preço de combustível para aeronaves aumenta o preço de passagens.
Mesmo países asiáticos grandes não escapam – a Índia importa cerca de 90% de seu petróleo bruto e quase metade de seu gás liquefeito de petróleo, essencial para diversas aplicações como culinária, combustível e refrigeração, entre outros. A escassez vê o fechamento de diversos estabelecimentos, como hotéis e restaurantes.
“Somos vítimas de uma guerra que não é nossa”, disse o presidente das Filipinas, Ferdinand Marcos Jr, em uma declaração esse mês.
Governos locais se mobilizam para tentar mitigar os efeitos da crise, com subsídios, racionalização, pacotes de emergência e outras medidas de alívio, mas o destino da situação energética pela Ásia depende, em última instância, do estreito de Ormuz. E, enquanto a passagem continuar fechada, a crise da Ásia por si só acelera problemas na Europa.
Por mais que não exporte tanto petróleo e gás do Oriente Médio, preços relacionados ao setor da energia também dispararam na Europa, assim como no resto do mundo. Todavia, devido à crise na Ásia, compradores europeus enfrentarão forte competição de atores asiáticos por suprimentos de outras partes do mundo, aumentando ainda mais os preços, apura o New York Times.
Após o último grande choque do petróleo, seguindo a invasão russa da Ucrânia em 2022, subsídios energéticos na União Europeia atingiram cifras nos 397 bilhões de euros, quase dobrando em relação ao ano anterior. Por sua vez, o Reino Unido gastou 75 bilhões de libras em suporte energético ao longo de dois anos.
Com cifras dessa magnitude, uma crise em Ormuz e competição com a Ásia criam uma perspectiva particularmente desafiadora para a Europa, que, diretamente, depende relativamente bem menos recursos que passam por Ormuz.
Por exemplo, uma nação centrada numa indústria exportadora, a economia alemã é particularmente sensível a flutuações nos preços não só do petróleo, mas de diversas outras matérias-primas que utiliza em sua produção industrial.
O New York Times estima que, se os preços do petróleo continuarem em níveis semelhantes pelo resto do ano, a perspectiva de crescimento econômico pelo país cairá pela metade, para 0,5%.
E a competição com a Ásia por petróleo não é o único problema: já que o preço do gás natural não é tão globalizado quanto o do petróleo, competidores de companhias europeias nos EUA, um grande produtor de gás natural, lidam com preços relativamente mais estáveis desde o início da guerra.
Fertilizantes e segurança alimentar
Preço de fertilizantes prova que, mesmo os EUA, relativamente insulados da crise por suas produções de petróleo e gás natural, não são imunes aos efeitos da guerra (Evaristo Sa/AFP/Getty Images)
Além de petróleo e gás natural, uma grande quantidade de fertilizante também passa pelo estreito de Ormuz – cerca de um terço do estoque global. E o impacto nos fertilizantes pode se provar mais preocupante para os EUA do que as flutuações nos preços do petróleo.
Com cerca de 25% dos fertilizantes e 18% do nitrogênio do país vindo de importações, o setor agrícola americano é especialmente sensível a choques internacionais. Com preços já elevados desde o começo da guerra da Ucrânia em 2022, cifras para fertilizantes quase dobraram desde o fechamento do estreito.
Os preços de referência do nitrogênio em Nova Orleans, cidade no importante estado agrícola da Louisiana, estavam em US$ 350 por tonelada curta no final de dezembro e, no final de fevereiro, pouco antes do conflito, subiram para US$ 470.
No dia 10 de março, os preços do nitrogênio já estavam em torno de US$ 600, segundo uma apuração do The Guardian. Fertilizante, um bem particularmente sensível a choques, sempre foi volátil, e por si só pode representar até 20% dos custos de produção de um fazendeiro americano.
Com a guerra, muitos temem operar de maneira não sustentável a longo prazo – especialmente com a chegada da primavera e de uma nova temporada de semeadura.
As perspectivas são ainda piores para nações mais pobres, que importam, em alguns casos, mais da metade de seu fertilizante do Oriente Médio.
Dentre os nomes de maior risco estão países que já enfrentam altos níveis de insegurança alimentar, como o Sudão, a Tanzânia e o Sri Lanka. O Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas alertou na terça-feira, 17, que quase 45 milhões de pessoas a mais podem cair em situação de insegurança alimentar aguda se o conflito não terminar até o verão e os preços do petróleo e demais commodities, como fertilizantes, permanecerem elevados.
“Isso levaria os níveis de fome global a um recorde histórico, e é uma perspectiva terrível”, disse o vice-diretor executivo do programa, Carl Skau, a repórteres em Genebra.
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