MRV sente inflação da Guerra e pode aumentar preços no MCMV

Por Mitchel Diniz 12 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
MRV sente inflação da Guerra e pode aumentar preços no MCMV

A guerra entre os Estados Unidos e o Irã chegou ao balanço da MRV. A maior construtora residencial da América Latina encerrou o primeiro trimestre de 2026 com margem bruta de 31%, igual ao trimestre anterior, interrompendo uma trajetória de expansão que durava desde o início de 2022, quando a empresa saía de margens na casa dos 19%.

A culpa, admite a própria companhia, é do ambiente inflacionário gerado pelo conflito, que encareceu derivados de petróleo e elevou o custo de transporte de materiais.

"O custo subiu, mas a receita não andou junto. Não foi um material que eu empreguei, não foi uma parede a mais que eu construí, não foi um apartamento a mais que eu pintei — foi uma projeção de inflação que subiu", disse Ricardo Paixão, diretor executivo de Finanças e Relações com Investidores da companhia, em entrevista à EXAME.

"Por isso a gente viu uma margem bruta que andou de lado dentro desse trimestre."

O mecanismo contábil do congelamento

O efeito no balanço é uma consequência direta do método de reconhecimento de receita adotado pela MRV desde 2018, o chamado POC (Percentual de Conclusão). Por essa metodologia, a receita de uma obra é reconhecida à medida que a construção avança, e o custo estimado para concluir cada empreendimento é registrado desde o início.

Quando a inflação sobe, a empresa precisa revisar esse custo projetado. A revisão entra imediatamente no resultado, mesmo que nenhum tijolo adicional tenha sido assentado.

No contexto da guerra, a MRV optou por uma postura conservadora e aumentou em dois pontos percentuais a inflação prevista nos orçamentos das obras ainda a construir. "É uma forma de nos proteger da inflação que vem pela frente", explicou Paixão.

O movimento travou a margem no trimestre, mas a empresa argumenta que o ajuste é pontual. A partir do segundo trimestre de 2026, com a revisão orçamentária já incorporada, a margem bruta deve retomar a trajetória de expansão. Vendas mais recentes, feitas com margens brutas de novas vendas (MBNV) na casa de 35%, devem ganhar peso no resultado consolidado.

PVC, tinta e diesel: os insumos no centro da pressão

O CFO detalhou quais materiais estão sendo mais afetados pelo conflito. O vetor principal é o petróleo, cujo preço em alta se propaga por toda a cadeia de construção civil. "Os derivados de petróleo como o PVC, usado nas tubulações, e os derivados usados para fazer tinta. E tudo aquilo que é transportado por caminhão, por causa do impacto no óleo diesel", listou Paixão.

A matriz logística brasileira depende majoritariamente do modal rodoviário. Quase todo insumo de construção civil embute, em alguma medida, o custo do diesel. "Se a gente considerar que tudo que é transportado de caminhão vai ter impacto, a inflação incide em tudo", disse o executivo.

A empresa adotou duas estratégias operacionais para amortecer o choque: manutenção de múltiplos fornecedores para cada categoria de material — "para não depender de um só e conseguir ter algum tipo de barganha" — e uso do estoque elevado de unidades prontas como colchão inflacionário.

Esse estoque é herança de uma decisão estratégica de 2025, quando a MRV produziu 5 mil unidades a mais do que vendeu. As unidades foram construídas antes da escalada de custos provocada pela guerra e serão vendidas agora com os preços atualizados. "Essas unidades foram produzidas ainda num custo anterior a essa conversa de inflação em função da guerra", observou o CFO.

Minha Casa Minha Vida abre espaço para repassar inflação ao comprador

Diante da pressão de custos, a MRV mira no Programa Minha Casa Minha Vida como válvula de escape. Em abril, o governo federal ampliou os tetos de renda e os valores de financiamento do programa, aumentando o poder de compra das famílias beneficiárias. Para a construtora, essa margem adicional representa uma janela para repassar a inflação ao preço final dos imóveis sem comprometer o volume de vendas.

"Como a guerra aconteceu, obviamente uma preocupação é não deixar a margem se desfazer. Então tem uma preocupação, sim, de subir um pouco mais o preço do que teria num cenário sem inflação de construção", afirmou Paixão.

O executivo ressaltou, no entanto, que a estratégia não é uniforme: em projetos com maior demanda, o foco será acelerar as vendas; em outros, a prioridade será o reajuste de preço; em alguns casos, a empresa vai reduzir o crédito direto que concede ao comprador antes do repasse bancário.

"O que o aumento do poder de compra do cliente abre é uma caixa de ferramentas, vamos chamar assim, para a gente usar a ideal em cada um dos projetos", resumiu o CFO.

Lucro salta 640%, mas repasses frustram no trimestre

Apesar do congelamento de margem, o balanço do primeiro trimestre de 2026 trouxe avanços consistentes em relação ao mesmo período do ano anterior. A Receita Operacional Líquida da MRV Incorporação chegou a R$ 2,562 bilhões, alta anual de 17,6%. O EBITDA dobrou, passando de R$ 241 milhões para R$ 476 milhões. O lucro líquido ajustado atribuível aos acionistas saltou de R$ 18 milhões para R$ 133 milhões — um avanço de 640%.

O ponto de atenção ficou por conta dos repasses, o processo pelo qual o cliente finaliza o financiamento bancário e a venda é efetivamente contabilizada. No trimestre, foram repassadas 8.229 unidades, queda de 16,6% em relação ao 4T25. A companhia atribui o recuo à sazonalidade do período.

"O primeiro mês cheio do ano foi março e o volume de vendas foi muito maior do que janeiro e fevereiro. Como eu fiz muitas vendas em março, não consegui repassar ainda dentro do mesmo período — não deu foi tempo mesmo, é uma questão de calendário", explicou Paixão.

O backlog formado por essas vendas não repassadas produziu um início de segundo trimestre mais robusto. Em abril, os repasses mensais saltaram para 3.529 unidades, alta de 28,7% sobre a média mensal do primeiro trimestre. A produção de unidades também acelerou, chegando a 3.563 por mês — 9,7% acima da média do trimestre anterior.

Geração de caixa consolidada chega a R$ 392 milhões

No consolidado do grupo MRV&CO, a geração de caixa somou R$ 392 milhões no trimestre. O principal driver foi a Resia, subsidiária americana do grupo, que gerou US$ 69 milhões (cerca de R$ 360 milhões) com a venda do empreendimento Tributary, na Geórgia, e de dois terrenos — Marine Creek e Tucker. A operação brasileira de incorporação contribuiu com R$ 117 milhões.

A Resia segue em processo acelerado de desinvestimento: dos cerca de US$ 800 milhões em ativos do portfólio, US$ 241 milhões já foram vendidos. Os quatro projetos remanescentes — Rayzor Ranch (93% locado), Memorial (75%), Ten Oaks (71%) e Golden Glades (65%) — devem ser vendidos ainda em 2026, segundo o cronograma da empresa.

A dívida líquida da operação Brasil ficou em R$ 2,492 bilhões, com relação Dívida Líquida/EBITDA anualizado de 1,30x — queda expressiva frente às 2,45x registradas no 1T24, sinal de que o processo de desalavancagem segue em curso.

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