Nem todo uísque brasileiro é ruim. Nem barato

Por Mauricio Porto 20 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Nem todo uísque brasileiro é ruim. Nem barato

No mês passado, a Destilaria Lamas, de Minas Gerais, lançou um uísque inspirado na relação entre a Escócia e o Brasil. É uma edição limitada, criada em colaboração com a St. Andrew’s Society, um grupo de expatriados escoceses em nosso país. O rótulo é estampado com um tartan – aquele xadrez, tradicional dos kilts escoceses – que também foi criado recentemente e representa o Brasil. O preço: mais de R$ 600.

Para um leigo, que desconhece o estágio de evolução do uísque brasileiro, é impensável pagar qualquer coisa próxima disso em um rótulo nacional. Ainda mais porque, por muito tempo, uísque brasileiro foi sinônimo de preço baixo, qualidade sensorial mais baixa ainda, dor de cabeça, náuseas e escolhas erradas. Mas, hoje, isso não poderia estar mais distante da realidade.

Nos últimos quinze anos, o uísque brasileiro evoluiu de uma forma inacreditável. Esse desenvolvimento foi capitaneado especialmente por duas destilarias. A gigante Union, de Bento Gonçalves, e a Lamas Destilaria, que fica em Matozinhos, Minas Gerais. E elas têm perfis bem diferentes.

A Union é uma destilaria bem antiga. Ela nasceu com outro nome, em 1948, e assumiu a atual alcunha em 1979. Antes, possuía uma unidade fabril distinta, que ficava em Veranópolis. Atualmente, é a maior destilaria da América do Sul. Sua capacidade produtiva beira os três milhões de litros – o que a equipara a uma destilaria escocesa como a Talisker ou Bunnahabhain.

O grande foco da Union é produzir uísque a granel e vender para outros produtores. O Japão, por exemplo, é um grande cliente da destilaria. Porém, parte de sua produção é engarrafada como single malt. E são rótulos excelentes. Alguns deles, com produção bastante complexa, passagem por diferentes barricas e utilização de cevada com diferentes níveis de defumação com turfa. Algo que exige um domínio extraordinário da técnica para ter sucesso.

Já a Lamas é uma destilaria bem menor. Faz em torno de 120 mil litros de uísque. A maioria é engarrafada como single malt, sob marca própria. Uma parte menor, vendida para empreendedores que desejam ter uma marca de uísque, mas não podem produzir. Os famosos “white labels”. O foco da Lamas sempre foi claro: procurar criar um craft uísque brasileiro.

Para isso, a Lamas lança mão de algumas técnicas bem pouco ortodoxas. Como, por exemplo, defumar sua cevada com madeira de reflorestamento, em vez de turfa. E utilizar madeiras nativas em sua maturação. O tal do Spirit of Brazil, mencionado na introdução desta coluna, por exemplo, foi finalizado em barris de Pau-Brasil.

Em ambos os casos – de Lamas e Union – produzir um uísque não é fácil. Tampouco barato. A maior parte da matéria-prima é importada. Barris bons são caros e, graças à nossa famosa burocracia, difíceis de se obter. O foco aqui não é mais preço baixo, mas sim qualidade e identidade.

E pagar mais de seiscentos reais em um uísque nacional ainda pode parecer estranho para muita gente. Mas talvez a estranheza diga menos sobre o uísque e mais sobre a imagem atrasada que ainda temos dele. E, ainda que haja um longo caminho, talvez a maior distância a ser percorrida não seja a de produção. Mas, sim, a de criação de uma tradição e do orgulho do que é produzido por aqui.

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