No Japão, fãs rezam em santuário para conseguir ingressos de shows

Por Tamires Vitorio 6 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
No Japão, fãs rezam em santuário para conseguir ingressos de shows

Conseguir ingresso para um show no Japão pode exigir mais do que internet rápida e sorteio online. Para muitos fãs, envolve também uma visita a um santuário xintoísta de mais de mil anos no centro de Tóquio.

No distrito financeiro de Nihonbashi, o pequeno santuário de Fukutoku passou a atrair uma nova geração de visitantes: admiradores de bandas de K-pop, idols japoneses e outros artistas que tentam aumentar as chances de conseguir entradas para apresentações concorridas.

O motivo está no próprio sistema japonês de venda de ingressos. Grandes shows costumam distribuir entradas por meio de loterias digitais. Os fãs se inscrevem e apenas parte deles ganha o direito de comprar os bilhetes.

Sem garantia de sucesso, muitos recorrem ao santuário antes de qualquer outra coisa.

De loterias feudais a shows de K-pop

Fundado no século 9, o Fukutoku é dedicado à divindade Inari, associada à prosperidade e à abundância. Segundo a BBC, a relação do local com “sorte” se consolidou ainda no período feudal, quando o xogum (título militar concedido aos líderes do exército) Tokugawa Ieyasu autorizou o templo a organizar loterias.

Com o tempo, o santuário passou a ser procurado por pessoas em busca de ganhos financeiros, bilhetes premiados e proteção para negócios.

Décadas depois, a lógica migrou para o mundo do entretenimento.

A explosão da cultura de idols japoneses nos anos 1990 e, posteriormente, do K-pop, transformou ingressos de shows em itens disputados em escala nacional.

Hoje, fãs lotam o local para pedir ajuda espiritual antes de sorteios de apresentações de artistas como BTS, ZeroBaseOne e grupos de J-pop.

Plaquinhas, reverências e pedidos

Os visitantes seguem um ritual tradicional do xintoísmo antes das orações.

Primeiro, lavam mãos e boca em uma fonte de purificação. Depois, fazem reverências diante do altar, batem palmas para chamar os kami — entidades espirituais da religião — e fazem seus pedidos em silêncio.

Ainda segundo a BBC, muitos compram pequenas placas de madeira chamadas ema, onde escrevem mensagens detalhando o show desejado e até datas específicas de turnês.

As placas ficam penduradas em estruturas ao lado do santuário, formando um mural improvisado de pedidos ligados à música pop.

Fenômeno cresceu após a pandemia

Guias locais afirmam que o movimento aumentou após o fim das restrições da covid-19, quando turnês internacionais voltaram ao Japão.

Em alguns períodos, o fluxo de visitantes chegou a bloquear ruas próximas ao santuário.

A prática reflete também a força da cultura de fãs no Japão, marcada por alto engajamento e consumo ligado aos chamados oshi — termo usado para definir o artista favorito de cada pessoa.

Além de comprar produtos e participar de campanhas, parte dos fãs passou a incorporar o templo à rotina ligada aos shows.

Xintoísmo permite pedidos pessoais

Especialistas afirmaram à BBC que o xintoísmo não possui regras rígidas sobre o tipo de pedido feito aos deuses.

Segundo estudiosos da religião, o foco está menos no objeto desejado e mais no ritual, na intenção e na conexão espiritual criada durante a prática.

Por isso, pedidos ligados à música, entretenimento ou experiências pessoais são considerados legítimos dentro da tradição religiosa japonesa.

No Fukutoku, essa combinação entre espiritualidade antiga e cultura pop transformou um pequeno templo escondido em um dos pontos mais incomuns do circuito de fãs em Tóquio.

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