No Japão, fãs rezam em santuário para conseguir ingressos de shows
Conseguir ingresso para um show no Japão pode exigir mais do que internet rápida e sorteio online. Para muitos fãs, envolve também uma visita a um santuário xintoísta de mais de mil anos no centro de Tóquio.
No distrito financeiro de Nihonbashi, o pequeno santuário de Fukutoku passou a atrair uma nova geração de visitantes: admiradores de bandas de K-pop, idols japoneses e outros artistas que tentam aumentar as chances de conseguir entradas para apresentações concorridas.
O motivo está no próprio sistema japonês de venda de ingressos. Grandes shows costumam distribuir entradas por meio de loterias digitais. Os fãs se inscrevem e apenas parte deles ganha o direito de comprar os bilhetes.
Sem garantia de sucesso, muitos recorrem ao santuário antes de qualquer outra coisa.
De loterias feudais a shows de K-pop
Fundado no século 9, o Fukutoku é dedicado à divindade Inari, associada à prosperidade e à abundância. Segundo a BBC, a relação do local com “sorte” se consolidou ainda no período feudal, quando o xogum (título militar concedido aos líderes do exército) Tokugawa Ieyasu autorizou o templo a organizar loterias.
Com o tempo, o santuário passou a ser procurado por pessoas em busca de ganhos financeiros, bilhetes premiados e proteção para negócios.
Décadas depois, a lógica migrou para o mundo do entretenimento.
A explosão da cultura de idols japoneses nos anos 1990 e, posteriormente, do K-pop, transformou ingressos de shows em itens disputados em escala nacional.
Hoje, fãs lotam o local para pedir ajuda espiritual antes de sorteios de apresentações de artistas como BTS, ZeroBaseOne e grupos de J-pop.
Plaquinhas, reverências e pedidos
Os visitantes seguem um ritual tradicional do xintoísmo antes das orações.
Primeiro, lavam mãos e boca em uma fonte de purificação. Depois, fazem reverências diante do altar, batem palmas para chamar os kami — entidades espirituais da religião — e fazem seus pedidos em silêncio.
Ainda segundo a BBC, muitos compram pequenas placas de madeira chamadas ema, onde escrevem mensagens detalhando o show desejado e até datas específicas de turnês.
As placas ficam penduradas em estruturas ao lado do santuário, formando um mural improvisado de pedidos ligados à música pop.
Fenômeno cresceu após a pandemia
Guias locais afirmam que o movimento aumentou após o fim das restrições da covid-19, quando turnês internacionais voltaram ao Japão.
Em alguns períodos, o fluxo de visitantes chegou a bloquear ruas próximas ao santuário.
A prática reflete também a força da cultura de fãs no Japão, marcada por alto engajamento e consumo ligado aos chamados oshi — termo usado para definir o artista favorito de cada pessoa.
Além de comprar produtos e participar de campanhas, parte dos fãs passou a incorporar o templo à rotina ligada aos shows.
Xintoísmo permite pedidos pessoais
Especialistas afirmaram à BBC que o xintoísmo não possui regras rígidas sobre o tipo de pedido feito aos deuses.
Segundo estudiosos da religião, o foco está menos no objeto desejado e mais no ritual, na intenção e na conexão espiritual criada durante a prática.
Por isso, pedidos ligados à música, entretenimento ou experiências pessoais são considerados legítimos dentro da tradição religiosa japonesa.
No Fukutoku, essa combinação entre espiritualidade antiga e cultura pop transformou um pequeno templo escondido em um dos pontos mais incomuns do circuito de fãs em Tóquio.
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