O cosmético que usa som do oceano para 'ativar' benefícios das algas
Em um laboratório da Estée Lauder em Long Island, nos Estados Unidos, cientistas tocam sons do oceano para algas marinhas enquanto elas fermentam em grandes tanques. Tudo isso para produzir o "caldo milagroso", o principal ingrediente do Crème de la Mer — um dos mais caros e famosos do mundo, vendido por cerca de US$ 390 o pote de 60 ml. No site oficial da marca no Brasil, ele sai por R$ 3.379,00.
Segundo a empresa, as vibrações sonoras ajudam a potencializar o processo químico das algas. Os químicos atuam quase como DJs, controlando sons que atravessam a mistura por meio de placas de cobre, conforme revelou a companhia ao New York Times.
O resultado é um produto que virou sonho de consumo entre os entusiastas da beleza e queridinho entre celebridades como Jennifer Lopez e Chris Hemsworth — que já pegou o produto emprestado da esposa e afirmou que o cheiro do creme "dá vontade de comer".
De acidente a descoberta
O produto surgiu por volta de 1960, quando o físico aeroespacial Max Huber tentou desenvolver um creme para tratar queimaduras que sofreu. Ele passou mais de uma década testando fórmulas com algas marinhas coletadas no Pacífico.
Após sua morte, em 1995, a Estée Lauder comprou a marca e, logo, as extensas anotações de Huber, que pareciam não conter a fórmula exata. Com isso, foram meses na tentativa de criar o creme — e todos eles sem sucesso.
Até que, durante um feriado, algas esquecidas na bancada passaram por um processo natural de decomposição. Cientistas perceberam que microrganismos, como leveduras e fungos, transformavam as algas em um composto mais próximo da fórmula original. Foi aí que concluíram que era a biofermentação — e não a alga em si — a matéria-prima do creme.
Música e controvérsias
Descobrir o ingrediente-chave já era um avanço, mas ainda existiam lacunas quanto ao processo. A pista veio de objetos deixados por Huber: gravações subaquáticas, microfones e placas de cobre.
A equipe decidiu testar a hipótese de que vibrações sonoras poderiam influenciar a reação química. Ao reproduzir sons do oceano durante a fermentação, observaram que a mistura se comportava de forma mais semelhante à original.
Desde então, o processo virou parte oficial da produção. O som é transmitido por cobre para dentro dos tanques, em uma tentativa de replicar as condições que Huber acreditava serem ideais.
Apesar do sucesso do Crème de la Mer, nem tudo é consenso. O papel exato das vibrações sonoras ainda levanta dúvidas fora da empresa, visto que não há evidências amplamente aceitas de que o som, por si só, tenha impacto relevante em cosméticos.
Por outro lado, a biofermentação é um processo conhecido na ciência e já usado em diferentes áreas, da alimentação à farmacêutica.
Um segredo guardado a sete chaves
O químico Paul Tchinnis era um dos poucos que conheciam a fórmula completa. Ele chegou à empresa aos 25 anos e acabou liderando o laboratório da La Mer por mais de duas décadas. Parte do trabalho incluía ouvir horas de gravações do oceano e garantir que as condições do "caldo milagroso" estavam corretas.
Em 2026, ao deixar o cargo, ele passou o conhecimento a um sucessor. Mesmo após 50 anos, diz, o produto ainda não foi totalmente compreendido. "Que cientista imaginaria que a energia sonora pudesse ajudar um cosmético?", afirmou ao New York Times.
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