Para além do código: cientista brasileiro defende a 'desrobotização' como o futuro dos negócios
No início do século XX, Charles Chaplin eternizou em Tempos Modernos a imagem do operário engolido pelas engrenagens da fábrica, repetindo exaustivamente o gesto mecânico de apertar parafusos.
Quase um século depois, o avanço tecnológico operou uma transformação irônica: transferimos essa mesma lógica repetitiva e robotizada para escritórios, planilhas e fluxos de atendimento corporativos.
Essa perspectiva histórica e provocativa é o ponto de partida do cientista da computação e professor Celso Camilo, um dos grandes nomes confirmados para o AI Summit 2026 — evento realizado pela EXAME e pela Saint Paul Escola de Negócios no dia 2 de junho, em São Paulo.
Com doutorado em Inteligência Artificial e passagens como pesquisador visitante em instituições de elite global como Carnegie Mellon (EUA) e a Mohamed bin Zayed University of Artificial Intelligence (MBZUAI, nos Emirados Árabes) — a primeira universidade do mundo 100% dedicada à IA —, Camilo defende uma tese contraintuitiva: o avanço dos algoritmos não vai nos desumanizar; vai fazer exatamente o oposto.
O retorno à humanidade: máquinas na escala, humanos no escasso
O tema central da apresentação de Camilo no AI Summit será a "desrobotização do humano". Segundo o especialista, as organizações finalmente chegaram a um ponto de inflexão tecnológica onde as máquinas conseguem assumir o trabalho puramente operacional e padronizado.
"A revolução industrial robotizou as pessoas. Colocamos o humano para tampar o buraco da incompetência da máquina", explica Camilo. "Agora, vamos retomar esse espaço porque a máquina vai conseguir fazer boa parte desse trabalho. O humano vai ficar com a parte do escasso, e a máquina fará a parte da escala. É o high tech junto com o high touch."
No jargão do mercado, essa dinâmica redefine a produtividade. Enquanto algoritmos gerenciam volumes massivos de dados, cruzam variáveis em segundos e automatizam rotinas burocráticas (escala), as lideranças humanas são liberadas para focar no que a tecnologia não consegue replicar: a empatia, o pensamento crítico, a negociação complexa, a intuição mercadológica e a criatividade (escasso).
Dos sistemas multiagentes ao maior centro de IA da América Latina
Embora o mercado corporativo viva o frenesi da Inteligência Artificial Generativa desde o final de 2022, o trabalho de Celso Camilo com a tecnologia vem de muito antes.
O pesquisador lembra que sua dissertação de mestrado, defendida em 2003, já era focada em sistemas multiagentes — arquiteturas onde múltiplos programas de IA interagem e colaboram entre si para resolver problemas complexos, um conceito que só agora se tornou tendência comercial no ecossistema de negócios.
Essa bagagem acadêmica convergiu para o mercado em 2019, quando Camilo ajudou a fundar o SEIA (Centro de Excelência em IA) da Universidade Federal de Goiás (UFG). O centro não apenas estruturou a primeira graduação em Inteligência Artificial do Brasil, mas transformou-se no maior polo de desenvolvimento da área na América Latina.
Hoje, o SEIA conta com uma força de trabalho de mais de 1.200 especialistas focados exclusivamente em criar soluções práticas para os desafios de grandes organizações. Como ponte viva entre a academia e o mercado, Camilo lidera projetos e dialoga diariamente com mais de 60 empresas nacionais e internacionais para aplicar a IA na ponta final do negócio.
O ecossistema do AI Summit: troca entre teoria e prática
Para além de compartilhar sua metodologia sobre o uso de agentes e a evolução da IA na sociedade, o pesquisador destaca que sua expectativa para o evento está na rica composição de público e palestrantes que a EXAME e a Saint Paul reuniram.
"O cast é bastante diversificado, o que acho rico e importante. Apesar de ser pesquisador e professor, tenho contato com dezenas de organizações com projetos reais. No evento, pretendo aprender muito com esse grupo de empresários e executivos que estão aplicando a IA no dia a dia, enfrentando as dificuldades de implementação e descobrindo metodologias de sucesso."
O AI Summit 2026 se posiciona justamente nesse espaço: onde os principais líderes do país se encontram para entender como transformar o potencial técnico da IA em decisões estratégicas de negócio, sem perder de vista o pilar que sustenta qualquer corporação duradoura — as pessoas.
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