Reflexões de um perrengue: lições de Aruba para os negócios
Em julho, embarquei com a família para aproveitar as férias escolares. O destino da vez foi Aruba, no Caribe. Como surfista desde os 12 anos, sempre verifico se o local tem boas ondas. Para minha surpresa, Aruba oferece sim algumas ondulações, mas julho é marcado por ventos fortes, pouco favoráveis ao surf.
Por outro lado, descobri que o local é excelente para o kitesurf. Embora seja surfista avançado, minha experiência com o kite era limitada: sabia o básico para ficar de pé e velejar em linha reta.
Chegando lá, meu filho e meu sobrinho se animaram para fazer aulas. Enquanto eles aprendiam, perguntei à escola se poderia alugar um equipamento. O instrutor alertou que o vento estava offshore, soprando da praia para o mar aberto, e perguntou sobre minha experiência. Respondi, confiante, que sabia velejar. Ainda assim, ele quis me observar antes.
Após um breve teste, recebi o sinal verde. Parti velejando feliz, pegando velocidade em direção ao fundo do mar. Com base no que sabia de ventos leste e oeste, tentei trocar de direção colocando o kite na posição “meio-dia” para neutralizar a força do vento e então passar a ir em direção à praia.
Era minha primeira vez velejando com vento offshore. Para minha surpresa, ao colocar o kite na posição neutra, ele simplesmente pegou um “buraco de vento” e caiu no mar.
Já havia aprendido a relançar o kite, mas, dessa vez, as linhas haviam se enroscado no tecido, tornando o controle impossível. Em segundos, fui puxado e catapultado repetidas vezes, cada vez mais longe da costa. Só depois de vários “voos” lembrei de acionar o sistema de liberação da barra presa ao meu corpo. Teoricamente, isso faria a linha ficar frouxa e o kite parar de subir. Mas não foi o que aconteceu: continuei sendo arrastado, preso apenas a uma linha chamada Eject do Leash, que desconecta totalmente o praticante do kite quando acionada. Depois de mais três catapultadas, a linha não aguentou a pressão e estourou.
Primeiro alívio: parei de ser arremessado. Primeiro pensamento: perdi a prancha e o kite. Quanto será que vou ter que pagar? Eu estava livre, mas à deriva.
Então veio o segundo pensamento: graças a Deus, eu sei nadar bem e tenho preparo físico. Não sei exatamente a distância, mas via a costa beeem pequena.
Com corpo e mente sãos, bora nadar. Entre um descanso e outro, vi um barco indo em direção ao kite abandonado. Ufa, uma coisa a menos para pagar. Continuei nadando até que, por ajuda divina, a prancha apareceu na minha frente. Melhor ainda: consegui usá-la como sinalizador e o barco, já no retorno, me resgatou.
Sã e salvo, percebi que fazer kite com vento offshore é altamente arriscado pelos seguintes motivos:
- Risco de ser levado para o mar aberto;
- Dificuldade extrema de velejar contra o vento e retornar à terra;
- Alto risco no resgate.
Mesmo os mais experientes só praticam sob supervisão. Eu sequer sabia disso.
Quantas vezes achamos que sabemos algo por ter experiências similares e acabamos sendo arrogantes ao não mapear todos os riscos? Às vezes, ousadia demais pode se tornar sentença de morte.
Margem de erro ZERO. No vento offshore, qualquer problema vira emergência: quebra de linha, desinflar da pipa, queda de vento, lesão, desorientação… não há espaço para improviso.
E se nessas horas eu tivesse quebrado uma perna? Como nadaria? Estava de colete salva-vidas? Tinha um rádio para me comunicar? Não preciso nem responder, né?
A soberba é o nosso maior inimigo. Nas empresas, líderes precisam inspirar, gerar confiança e, acima de tudo, assumir responsabilidade. Uma decisão tomada com soberba pode destruir o sonho de todos.
Outro ponto: condições traiçoeiras. O vento pode ser mais forte e constante longe da costa, mas, perto da praia, é turbulento e gera os famosos “buracos de vento”.
Quando contei ao instrutor o que aconteceu, ele disse: “Vento offshore é uma “porcaria”. Você deveria ter deixado o kite às 11h, pois ao meio-dia é comum isso acontecer.” Ficou claro que o simples fato de saber velejar para leste ou oeste não me habilitava para ventos offshore.
Por mais preparo que tenhamos, o quanto realmente analisamos todos os cenários externos? Meu pai sempre dizia: “Não olhe apenas para a árvore, olhe a floresta.” Essa visão me ajudou muitas vezes a sair do caos e enxergar o problema por outra ótica.
Sereno no caos e fé em Deus. Manter a calma enquanto era literalmente jogado ao mar fez com que eu preservasse energia para nadar com tranquilidade. Estar próximo a Deus fez com que meus anjos da guarda me protegessem — mesmo quando falhei ao não me preparar adequadamente.
Esse episódio reforçou pontos valiosos que guardo comigo, aplicáveis tanto no mar quanto nos negócios:
Conhecimento parcial não é competência total — Experiência em condições diferentes não me tornava apto para ventos offshore. No mundo corporativo, assumir um projeto apenas por similaridade pode ser um erro fatal.
Mapeamento de riscos é indispensável — No kite com vento offshore, a margem de erro é zero. Nas empresas, qualquer variável ignorada pode virar crise.
Evite a soberba — Confiança sem análise detalhada leva a decisões imprudentes.
Olhe a floresta, não apenas a árvore — A visão ampla é essencial para agir com clareza em cenários de incerteza.
Mantenha a serenidade no caos — No mar ou no trabalho, a calma é diferencial em momentos de crise.
Esteja preparado para o improvável — Planos de contingência salvam vidas e negócios.
No fim, confirmei algo que sempre ouço: aprendemos pelo amor ou pela dor. Neste dia, mais uma vez, aprendi pela dor — e levei de Aruba não só adrenalina, mas lições para a vida e para os negócios.
E você? Tem aprendido mais pelo amor ou pela dor?
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