Regime de Cuba vai cair? Entenda o possível colapso e as relações com os EUA
O regime comunista de Cuba vem sendo uma peça central da política externa americana há décadas. Relações bilaterais entre a pequena nação insular e os EUA flutuam com presidentes americanos, mas anos de sanções econômicas, operações da CIA (incluindo tentativas de golpe, assassinato e invasões) e ameaças políticas solidificaram Cuba como um rival ideológico dos EUA.
Agora, durante o segundo mandato do presidente americano, Donald Trump, uma nova crise entre as nações se deteriora, talvez aos piores níveis da história. Há meses, um bloqueio diplomático e naval americano ao redor da ilha cortou basicamente toda a entrada de petróleo em Cuba – um material essencial para o funcionamento energético e industrial do país – resultando em uma severa crise energética e enfraquecimento político. A administração do republicano ainda ameaça sanções econômicas em qualquer país que enviar petróleo ao governo cubano. A entrada da commodity atualmente é permitida apenas para fins humanitários.
Trump já deixou claro que, após uma resolução no atual conflito com o Irã, Cuba será o próximo alvo dos EUA.
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Já enfraquecida pela crise, o país ainda por cima não pode contar com seu principal aliado na região, a Venezuela, após a captura do então presidente venezuelano, Nicolás Maduro, também por Donald Trump em janeiro desse ano.
A queda do regime, que está enfraquecido, isolado de seus aliados, enfrenta uma crise energética que se ramifica em pouca comida, combustível e sofre com manifestações de um povo insatisfeito, parece inevitável. Todavia, este é apenas o resultado de décadas de história, sanções econômicas, e tensões diplomáticas.
Entenda a situação atual do país, e relembre os desdobramentos históricos que resultaram nisso:
Como está a situação em Cuba agora?
Um coletor de materiais recicláveis empurra um carrinho em frente ao Teatro América em Havana, em 13 de março de 2026. (Yamil Lage/AFP)
Há cerca de três meses, os EUA impuseram um bloqueio político e naval que impede a entrada de petróleo na ilha, efetivamente privando Cuba de sua principal fonte de energia.
O cenário energético do país já era frágil, por ser alvo de diversas sanções econômicas e diplomáticas dos EUA há décadas, mas piorou notavelmente com o embargo – até hoje, a maior parte da energia elétrica vem de geradores que funcionam a base de petróleo: dados da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) revelam que o país depende de combustíveis fósseis para gerar até 83,3% de sua eletricidade, com uma grande parcela do restante vindo de gás natural, commodity que também é bloqueada pelo embargo.
Como decorrência direta do bloqueio, 10 milhões de pessoas foram subitamente imersas em uma grave crise humanitária, já que a falta de energia se ramifica em uma miríade de problemas adjacentes, como baixa produção de alimentos, falta de transporte, constantes blecautes que afetam o país inteiro e manifestações contra o governo que ocupam as ruas.
Hospitais suspenderam operações, deixando “dezenas de milhares de pacientes” esperando cirurgias que não podem ser conduzidas devido à falta de energia, de acordo com o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel.
Ao mesmo tempo, escolas e demais estabelecimentos tiveram que fechar as portas indefinidamente, reduzindo drasticamente a disponibilidade de bens e serviços disponíveis. Pilhas de lixo se acumulam pelas ruas já que caminhões de lixo não conseguem operar sem combustível.
Uma falta assídua de bens básicos como gás de cozinha, diesel e até mesmo bombas de água, que são operadas por combustíveis fósseis, faz com que alimentos frescos e água potável estejam muitas vezes fora do alcance da população. A falta de combustível também limita drasticamente o turismo a Cuba, parte fundamental da economia do país.
Além disso, a crise disparou preços, resultando em uma inflação fora do controle, desvalorizando drasticamente o peso cubano – na cotação atual, um único dólar equivale a mais de 24 pesos. Tudo isso resultou em vastas manifestações conforme cubanos tomam as ruas, protestando contra as condições duras que o país enfrenta — acontecimentos raros sob o repressivo governo cubano, de apenas um partido.
Na última sexta, 13, o presidente abordou a crise em uma conferência de imprensa transmitida em rede nacional, durante a qual assegurou o povo que as autoridades cubanas estavam buscando soluções para o problema, apesar de ter admitido que seria uma tarefa difícil.
Dentre as soluções que sua administração busca estão incentivo ao investimento em Cuba pela diáspora cubana espalhada pelo mundo, principalmente nos EUA, e em painéis solares que seriam enviados pela China, a fim de mitigar pelo menos um pouco da crise energética.
A crise atingiu tal patamar que atraiu preocupação de organizações de direitos humanos, como a Human Rights Watch (HRW), que vigiam, acompanham e reportam instâncias de crises humanitárias pelo mundo. A organização alerta que a falta de eletricidade está afetando basicamente todos os aspectos da vida quotidiana:
“A situação humanitária em Cuba já era extremamente frágil, mas a crise de energia elétrica está levando muitos serviços essenciais ao limite”, disse Juanita Goebertus, diretora para as Américas da HRW, em um comunicado à CNN. “As pessoas não têm acesso confiável à água potável, os hospitais não conseguem operar com segurança, os produtos básicos estão se tornando cada vez mais difíceis de obter e o lixo está se acumulando nas ruas.”
Como chegamos até aqui?
JFK: presidente americano tomou importantes passos para evitar escalações após a crise dos mísseis em Cuba (Alfred Eisenstaedt/Pix Inc./The LIFE Picture Collection/Getty Images)
A atual crise humanitária em Cuba é o resultado de quase sete décadas de um relacionamento com os EUA assolado por desconfiança, antagonismo e diferenças ideológicas desde 1959, quando o líder político cubano, Fidel Castro, derrubou um governo apoiado pelos EUA e estabeleceu, em seu lugar, um estado socialista aliado com a então União Soviética (URSS).
No auge da Guerra Fria, quando o medo de uma guerra nuclear entre os EUA e a URSS, então as maiores potências do mundo, era real, um estado alinhado ao principal inimigo dos EUA a apenas 145km da costa da Flórida era visto como uma séria ameaça.
A famosa crise dos mísseis de Cuba em 1962, que viu ogivas nucleares soviéticas sendo secretamente instaladas no país, apenas aprofundou a desconfiança entre os países e iniciou um período de seríssimas tensões diplomáticas entre o então presidente americano John F. Kennedy e seu homólogo da URSS, Nikita Khrushchev, que foi considerado por muitos na época como o prelúdio de uma guerra nuclear. Por sorte, ambos os líderes tomaram medidas para evitar escalar as tensões.
Mesmo assim, pelos próximos 50 anos, administrações americanas em sequência, sejam democratas ou republicanas, buscaram isolar a ilha diplomática e economicamente, procurando reestabelecer controle político sobre o país e evitar perder influência política e ideológica na região para um país considerado hostil aos EUA – principalmente China e Rússia – novamente.
Isso fez com que Cuba, que nunca se mostrou disposta a mudar seu governo comunista unipartidário, por muitos anos sob o comando da mesma família Castro, levasse o título do país que operou sob sanções americanas por mais tempo na história, conforme diversos atos foram assinados por uma longa lista de presidentes americanos criando novas tarifas e sanções e renovando as existentes.
Um vislumbre de esperança surgiu na administração do democrata Barack Obama, que liderou os EUA por dois mandatos entre 2009 e 2017. Durante seu tempo no poder, as relações brevemente melhoraram, e chegaram a ver encontros entre o presidente americano e seu então homólogo cubano, Raúl Castro, que resultaram na normalização de relações bilaterais e na restauração de laços diplomáticos completos.
Todavia, o republicano Donald Trump, durante seu primeiro mandato, reverteu muitos dos avanços e chegou a reestabelecer uma política de Ronald Reagan, de 1982, que designava Cuba como um estado que patrocina o terrorismo, devido aos seus laços com inimigos ideológicos dos EUA. Seu retorno ao poder, que segue um breve interlúdio de flexibilização nas relações sob Joe Biden, aprofundou ainda mais as diferenças entre os países, com tarifas novas e ameaças renovadas contra a nação insular.
Entre as dezenas de designações oficiais que Cuba teve na Casa Branca na segunda gestão de Trump, destaca-se a ordem executiva que declarou Cuba “uma ameaça pouco usual e extraordinária” à segurança nacional dos EUA, dando ênfase aos seus fortes laços com atores considerados hostis aos EUA como Rússia e China. Foi essa mesma ordem executiva que autorizou tarifas contra países que enviassem petróleo e/ou gás natural para o governo cubano, e levou à atual crise humanitária.
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