Sono mais curto e profundo ajudou os humanos a conquistar o planeta, diz livro
Dormir cerca de oito horas por noite é uma das recomendações mais conhecidas da medicina moderna. No entanto, uma nova análise da evolução humana sugere que nossos padrões de sono sempre foram diferentes dos observados em outros primatas.
A ideia é explorada no livro "The Sleepless Ape: The Story of Sleep in Human Evolution", lançado em maio deste ano pelo antropólogo David Samson, professor associado da Universidade de Toronto. Após mais de uma década estudando o sono de primatas e populações tradicionais, o pesquisador concluiu que os seres humanos são uma exceção no reino animal: dormem menos que qualquer outro primata, mas aproveitam esse tempo de forma mais eficiente.
O primata que desafia as previsões
Segundo Samson, modelos científicos baseados em dados de diferentes espécies indicam que os humanos deveriam dormir cerca de 10 horas e meia por noite. A realidade, porém, é bastante diferente.
“O modelo estava prevendo que deveríamos dormir muito mais. Isso significa que os humanos são uma exceção evolutiva”, afirmou o pesquisador em entrevista à CNN.
O autor explica que a média observada em diferentes culturas gira em torno de sete horas de sono por noite. Ainda assim, os humanos apresentam uma característica singular: passam proporcionalmente mais tempo na fase REM do que qualquer outro primata. Essa etapa do sono está associada aos sonhos, à criatividade, ao aprendizado e à consolidação de memórias.
A mudança que transformou a história da espécie
Uma das principais hipóteses apresentadas no livro é que a evolução do sono humano começou quando ancestrais deixaram de dormir em árvores e passaram a descansar no solo.
À primeira vista, a mudança parece arriscada. Dormir no chão aumentaria a exposição a predadores e ameaças ambientais. Porém, segundo Samson, o desenvolvimento de abrigos, o domínio do fogo e a vida em grupos criaram condições que compensaram esse risco. “Nós criamos um espaço completamente novo e inovador para dormir”, explicou o pesquisador à CNN.
De acordo com o antropólogo, grupos humanos ancestrais provavelmente tinham indivíduos com diferentes padrões biológicos. Enquanto alguns dormiam, outros permaneciam acordados e atentos a possíveis perigos.
Essa vigilância coletiva teria criado um ambiente mais seguro, permitindo que os humanos alcançassem estágios mais profundos de descanso sem comprometer a sobrevivência do grupo.
Menos horas, mais eficiência
O livro sugere que a redução do tempo total de sono não representou uma desvantagem evolutiva. Pelo contrário. Ao dormir menos, mas com maior qualidade, os humanos ganharam horas extras para desenvolver ferramentas, fortalecer laços sociais, migrar para novos territórios e transmitir conhecimento entre gerações.
Samson destaca que o sono REM teve papel importante nesse processo. “Está associado à criatividade e à inovação, todas características que foram fundamentais para que nos tornássemos uma espécie bem-sucedida”, afirmou.
Segundo ele, alcançar níveis elevados desse tipo de sono só foi possível porque os grupos humanos construíram ambientes coletivos de proteção, reduzindo os riscos de permanecer em um estado de vulnerabilidade durante a noite.
O que os caçadores-coletores podem ensinar hoje?
As observações de Samson também desafiam algumas crenças modernas sobre o sono ideal. O pesquisador relata que comunidades tradicionais estudadas por sua equipe raramente dormem em ambientes completamente silenciosos ou isolados. Pelo contrário, elas convivem com sons, movimentos e interações sociais constantes. Ainda assim, demonstram uma forte sensação de segurança ao retornar ao acampamento para descansar.
“Muitos acreditam que precisam de isolamento total para dormir perfeitamente. Mas quase todos os ambientes tradicionais que estudei são altamente dinâmicos”, afirmou.
Para o autor, a sensação de proteção coletiva pode ser tão importante para o descanso quanto fatores físicos, como temperatura ou iluminação.
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