Tratado nuclear expira nesta quinta e incerteza pode levar a aumento de bombas
O Tratado de Redução de Armas Nucleares entre Estados Unidos e Rússia, conhecido como New Start expira nesta quinta-feira, 5. O acordo estabelece limites ao número de lançadores de mísseis operacionalmente prontos e fixa um teto de 1.550 ogivas nucleares prontas para combate para cada país. Atualmente, no entanto, os arsenais norte-americano e russo somam aproximadamente 3.700 e 4.300 ogivas, respectivamente, fazendo com que o fim do tratado, um importante limitador, crie um cenário de incertezas.
O New Start é um acordo bilateral, feito por Estados Unidos e Rússia, e integra uma série de tratados ratificados desde o final da Guerra Fria. As primeiras versões dos acordos Start remontam a 1991, período marcado pelo colapso da União Soviética e pelo esforço das duas superpotências para reduzir a escalada nuclear acumulada ao longo de décadas de rivalidade. Na época, Washington e Moscou eram amplamente reconhecidos como os principais atores do sistema internacional, imersos em um ambiente de desconfiança mútua herdado do pós-Segunda Guerra Mundial.
Naquele contexto, de um lado, os Estados Unidos promoviam um modelo baseado no capitalismo e no livre mercado; de outro, a União Soviética defendia o comunismo como alternativa. Embora outros países — como França, Reino Unido e China — também tenham desenvolvido arsenais nucleares durante a Guerra Fria, sua capacidade era significativamente inferior à das duas superpotências, o que reforçava a centralidade do eixo EUA–URSS nos esforços de controle armamentista.
Independentemente do ritmo ou das intenções declaradas, a retomada de uma corrida armamentista nuclear parece, senão iminente, ao menos provável, avalia a The Economist. Dada a complexidade do atual cenário geopolítico, a expansão de um arsenal nuclear tende a desencadear reações em cadeia entre outras potências atômicas. Um avanço chinês, por exemplo, poderia levar a Índia — que mantém histórico de tensões com Pequim — a reforçar suas próprias capacidades nucleares, o que, por sua vez, estimularia uma resposta semelhante do Paquistão, que também tem armas nucleares e tensões com a Índia.
Soma-se a isso a crescente percepção de imprevisibilidade de Trump, cada vez mais visto como disposto a abandonar compromissos tradicionais com aliados. Esse comportamento, segundo analistas, pode incentivar países sob ameaça direta a buscarem maior autonomia, inclusive por meio do desenvolvimento ou da ampliação de arsenais nucleares — como ocorre no caso da Coreia do Sul, que convive com o temor constante de um ataque da Coreia do Norte, outra país com capacidade nuclear.
A ascensão da China: uma nova corrida armamentista nuclear?
Estados Unidos e China: estaríamos no começo de uma nova corrida armamentista? (simon2579/Getty Images)
O cenário internacional contemporâneo, entretanto, é mais complexo. A emergência de novas alianças, a modernização e expansão de arsenais já existentes e o desenvolvimento de novas tecnologias nucleares transformaram uma estrutura bipolar em uma intricada tapeçaria multipolar e fragmentada. Nesse contexto, os acordos Start, por envolverem exclusivamente Estados Unidos e Rússia, passam a ser vistos como insuficientes — e, em certa medida, obsoletos — para refletir a atual distribuição de poder nuclear.
Embora Washington e Moscou permaneçam rivais, a ascensão da China como potência nuclear e sua crescente aproximação com a Rússia introduzem um novo vetor de instabilidade. Para os Estados Unidos, esse rearranjo amplia as preocupações de segurança e, segundo apuração da revista britânica The Economist, pode reacender uma corrida armamentista nuclear, marcada pelo desenvolvimento de armas mais sofisticadas, precisas e versáteis, com implicações potencialmente profundas para a estabilidade global.
Esse cenário de incerteza é agravado pela postura do presidente norte-americano, Donald Trump. Ele tratou com desdém a expiração iminente do tratado New Start, afirmando apenas que “se expirar, expirou”.
Embora o presidente russo, Vladimir Putin, tenha sugerido que ambos os países continuassem a praticar voluntariamente os termos do acordo por mais um ano, transformações estruturais no sistema internacional — como a emergência de novos atores alinhados a cada uma das potências — e a própria guerra da Ucrânia contribuem para um horizonte pouco promissor no controle de armamentos.
É nesse contexto que se intensifica o temor de uma nova corrida armamentista nuclear. Segundo a Economist, o arsenal nuclear dos Estados Unidos foi concebido primordialmente para dissuadir a Rússia, sem contar com a ascensão a China.
Em contraste, a expansão do arsenal nuclear chinês ocorreu em ritmo acelerado e sem precedentes. Relatórios anuais do Pentágono indicam que, em apenas quatro anos — entre 2020 e 2024 —, o número de ogivas nucleares chinesas saltou de cerca de 200 para cerca de 600”. O Departamento de Defesa dos EUA estima, ainda, que Pequim esteja no caminho para ultrapassar a marca de 1.000 armas nucleares até 2030.
Xi Jinping e suas preocupações militares
Xi Jinping, presidente da China, durante evento em Pequim (Ken Ishii/AFP)
Medidas promovidas pelo presidente chinês, Xi Jinping — como expurgos anticorrupção que resultaram na remoção de oficiais seniores do comando militar — foram inicialmente bem recebidas por adversários externos, mas podem, na prática, resultar em uma força armada mais coesa, eficiente e potencialmente mais disposta a empregar capacidades nucleares ao longo prazo.
Esse medo é amplificado por declarações de veículos estatais chineses, que afirmam que as diretrizes de Xi para 2027 — ano considerado pelo Pentágono como o prazo estipulado para que as forças chinesas estejam aptas a uma eventual operação contra Taiwan, no âmbito do chamado “Objetivo Centenário de Desenvolvimento Militar” — visam “confrontar forças americanas no Pacífico” e “coagir a liderança de Taiwan a negociar sob os termos de Pequim”.
Os principais pilares desse objetivo para 2027 foram publicados no jornal estatal do Exército de Libertação Popular (PLA, na sigla em inglês) PLA Daily e analisados em um estudo conduzido por Andrew Erickson, professor especialista em China e pesquisador do Departamento de Estudos Estratégicos do Colégio de Guerra Naval dos Estados Unidos. Segundo o levantamento, destacam-se três conceitos centrais.
O primeiro é o de “vitória decisiva” (战略决胜), que pressupõe a capacidade do PLA de prevalecer em um conflito a um custo considerado aceitável — cenário frequentemente associado a um confronto envolvendo Taiwan e a participação dos Estados Unidos, entendido como a contingência mais importante no planejamento militar chinês.
O segundo pilar é o “contrapeso estratégico” (战略制衡), que envolve o fortalecimento dos meios de dissuasão, incluindo a dissuasão nuclear, com o objetivo de desencorajar ou limitar o envolvimento militar norte-americano. De acordo com Erickson, o PLA reconhece sua inferioridade militar relativa em relação aos Estados Unidos e entende o contrapeso como um mecanismo pelo qual atores mais fracos podem compensar as vantagens dos mais fortes, associando diretamente a modernização nuclear a esse esforço.
Por fim, o conceito de “dissuasão e controle” (战略慑控) refere-se à capacidade de limitar a escalada horizontal de conflitos e de dissuadir outros Estados de adotarem ações oportunistas em cenários de crise, ampliando o raio de influência da China.
A The Economist aponta ainda que, além de crescer em quantidade, o arsenal nuclear chinês tem se tornado mais diversificado e flexível, incorporando múltiplos tipos de ogivas e plataformas de lançamento. Esse avanço aumenta a capacidade chinesa de “lançamento por aviso” — isto é, a habilidade de detectar um ataque iminente e retaliar antes do impacto dos mísseis inimigos. Estimativas do Departamento de Defesa dos EUA indicam que a China poderia mobilizar uma resposta nuclear em um intervalo de apenas três a quatro minutos.
Diante disso, Pequim parece ter investido de forma consistente nesse tipo de capacidade retaliatória. Ao armazenar mísseis em silos e empregar combustíveis sólidos, menos voláteis, a doutrina chinesa prioriza uma resposta rápida. Avaliações do governo americano sugerem que o país dispõe de cerca de 100 mísseis distribuídos em três extensos campos de silos, cada um com capacidade para abrigar até 320 mísseis.
As motivações por trás da rápida expansão do arsenal nuclear chinês permanecem objeto de debate, sobretudo porque Pequim busca se apresentar internacionalmente como um ator moderado em questões militares. Em um documento recente de política externa, o governo chinês afirma que o país “nunca se envolveu e nunca se envolverá em qualquer corrida armamentista nuclear com qualquer outro país”.
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