Violência contra a mulher é considerada crime mais grave do Brasil pela primeira vez
Quatro mulheres assassinadas por dia e um recorde histórico de feminicídios: esse foi o retrato cruel do Brasil em 2025.
E, como se não bastasse, o país registrou ainda um aumento de 7,5% nos crimes de feminicídio no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano passado, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública.
São números que traduzem uma crise que o Brasil finalmente passou a enxergar como o que ela é: um problema de segurança pública e social.
Pela primeira vez desde que o Datafolha começou a medir o tema, a violência contra a mulher foi apontada como a forma de criminalidade mais grave do Brasil, passando o tráfico de drogas (16%) e os assaltos a mão armada (10%).
O levantamento, realizado em abril com 2.004 brasileiros de todas as regiões, foi encomendado pelo Movimento Mulher 360, associação que reúne mais de 120 empresas comprometidas com a equidade de gênero.
Para 61% dos entrevistados, a violência de gênero é hoje o maior problema de segurança do país. Entre as mulheres, o índice sobe para 73%. Entre jovens de 16 a 24 anos, chega a 77%.
"O crime atravessa relações familiares, afetivas, profissionais e sociais, expondo um cenário que reforça a urgência de políticas públicas mais eficazes e maior participação de empresas e sociedade", destacou à EXAME Margareth Goldenberg, diretora-executiva do Movimento Mulher 360.
O que o Brasil ainda não vê
Se a percepção sobre a gravidade do problema avançou, o entendimento sobre o que constitui violência ainda tem lacunas e é justamente aí que mora o perigo.
Agressões físicas são amplamente reconhecidas: 94% identificam como violência um homem humilhar a companheira em público; 95%, um marido forçar relação sexual com a esposa. Mas quando o abuso é psicológico, financeiro ou coercitivo, a percepção muda radicalmente.
Para 45% dos brasileiros, um homem impedir a mulher de sair de casa para uma comemoração "não é violência" ou "depende da relação".
O controle das amizades segue o mesmo padrão: 41% não enxergam o comportamento como abusivo. O marido que controla o salário da esposa também não é visto como agressor por 42% dos entrevistados.
"Existe um vazio de reconhecimento justamente nas etapas anteriores à violência física, que são fundamentais para interromper o ciclo antes que ele se agrave", diz Goldenberg.
"Quando esses sinais não são reconhecidos socialmente como violência, homens e mulheres tendem a normalizar comportamentos abusivos por mais tempo. Isso reduz tanto a prevenção quanto a busca precoce por ajuda", complementa a executiva.
Vale um detalhe sobre a metodologia: essa foi a primeira pergunta feita aos entrevistados, antes que soubessem que participavam de uma pesquisa específica sobre o tema.
Três em cada quatro mulheres já sofreram violência, cada uma em média três vezes
A pesquisa incluiu um módulo de autopreenchimento respondido por 875 mulheres. Os dados são contundentes: três em cada quatro (74%) relataram ter vivido alguma situação de violência de gênero. Cada vítima passou por, em média, três episódios diferentes.
O tipo mais comum foi insultos e xingamentos (59%), seguido por ameaça de agressão física (45%) e perseguição ou intimidação (43%).
Uma em cada quatro mulheres afirmou já ter sido espancada ou ter sofrido tentativa de enforcamento. Outras 22% disseram ter sido ameaçadas com armas ou facas.
A culpabilização da vítima segue presente: 61% dos entrevistados concordam que muitos casos de violência contra a mulher são consequência de "opções erradas" feitas pelas próprias mulheres na escolha do parceiro.
Esse cenário ajuda a explicar por que 37% das mulheres que sofreram a agressão de maior impacto no último ano não tomaram nenhuma atitude.
Apenas 19% das mulheres afirmam confiar muito na polícia para protegê-las, ante 31% dos homens. E enquanto 55% dos homens consideram as leis de proteção eficientes, a mesma proporção de mulheres desconfia da sua efetividade.
"O silêncio ainda é uma das principais consequências da violência", afirma Goldenberg.
Para a diretora, muitas mulheres só conseguem reconhecer os abusos quando eles já escalaram para ameaças físicas ou risco concreto à integridade.
"Informação e conscientização são fundamentais para reconhecer os sinais antes que tudo se agrave"
O papel das empresas e da sociedade
Para o Movimento Mulher 360, o enfrentamento à violência não pode ficar restrito ao poder público.
"As empresas têm um papel fundamental porque esse crime não é um problema privado: ele impacta a sociedade, a economia e também o ambiente de trabalho. Muitas vezes, é no ambiente corporativo que aparecem os primeiros sinais e onde essa mulher consegue encontrar acolhimento e apoio", diz Goldenberg.
A autonomia financeira aparece como uma saída para a mulher se libertar de uma situação crônica e nesse ponto as empresas têm protagonismo, com potencial de atuar na educação de gênero, apoio e informações aos colaboradores.
1/12 (Dilma Campos)
2/12 Grazielle Parenti, vice-presidente de Sustentabilidade e Assuntos Corporativos da Syngenta Brasil e Head de Alianças da Cadeia de Valor global do Syngenta Group (Grazielle Parenti - Syngenta GroupFoto: Leandro FonsecaData: 23/10/2024)
3/12 Giovana Pacini, Country Manager da Merz Aesthetics Latam (2 - GIOVANA PACINI)
4/12 Viviane Elias Moreira, conselheira fiscal no Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Viviane Elias Moreira)
5/12 Thais dos Santos, diretora de Comunicação, DE&I e Sustentabilidade na L'Oréal Grande Público (_MG_7832_site)
6/12 Daniela Cachich, presidente de Future Beverages da Ambev (Daniela_cachich)
7/12 Isabella Wanderley, gerente geral e vice-presidente corporativa da farmacêutica Novo Nordisk Brasil (Isabella Wanderley)
8/12 Adriana Ferreira Silva, jornalista, escritora e cofundadora da Grená (Adriana Ferreira Silva)
9/12 Naamisis Campos, CHRO da RD Station (Naamisis Campos)
10/12 Heloísa Simão, conselheira corporativa (Heloísa Simão, conselheira corporativa)
11/12 Suellen Rodrigues, Diretora Científica na MSD LATAM (Suellen Rodrigues)
12/12 Annali Duarte, head de Serviços Globais de Pagamentos (GPS) no Bank of America (Annali Duarte)
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