15 dias à frente da seca: Hidrovias do Brasil investe em IA para crescer na crise hídrica

Por Letícia Ozório 12 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
15 dias à frente da seca: Hidrovias do Brasil investe em IA para crescer na crise hídrica

Este conteúdo faz parte de uma série de reportagens sobre a descarbonização no transporte pesado. Você pode ler as demais reportagens, sobre a Rumo e a JSL, nos links ao lado.

O país com a maior reserva de água doce do planeta é o mesmo que ameaça as suas hidrovias pela baixa no nível das águas. O Brasil teve 503 municípios com seca severa ou extrema ao longo de 2025, com oito estados com 100% do território sob falta de chuvas em novembro.

Na economia, a situação climática exige que companhias de transporte hidroviário adaptem as suas tecnologias para driblar a crise hídrica. A Hidrovias do Brasil atualizou no último ano o que considera como fatores de risco climático, revisando as ameaças ao negócio ligadas às condições adversas nas temperaturas e disponibilidade de água.

Décio Amaral, CEO da Hidrovias do Brasil, explica que agora são adotadas tecnologias de gestão de risco climático com o objetivo de antecipar os impactos nos corredores logísticos em que opera. “No Paraguai e na região Norte, por exemplo, estiagens baixam os níveis dos rios e geram águas baixas, que impactam a navegação”, explica.

A estratégia da companhia implementa planos de ação para enfrentar os riscos climáticos, incluindo iniciativas preventivas, como previsões e monitoramentos de dados hídricos e meteorológicos, e mitigadoras, que avaliam a possibilidade de navegar durante as águas baixas e a realização de dragagens (um tipo de escavação que retira sedimentos de corpos d’água e mantém a profundidade de canais).

A EXAME conversou com o CEO da Hidrovias do Brasil para entender mais do empenho de uma gigante das águas para lidar com a crise climática crescente — e seguir com um modal cada vez mais sustentável a partir de investimentos em eficiência e inteligência artificial.

Maior eficiência em menos emissões

O transporte hidroviário é, por natureza, um dos modais com menor pegada ambiental. De acordo com a Coalizão dos Transportes, o meio representa cerca de 1,8% das emissões brutas do transporte. Em 2023, esse total de emissões chegava a apenas 2,76 milhões de toneladas para navegação interior e cabotagem, uma queda de quase 8% na comparação com 2021.

Um levantamento do Ministério de Portos e Aeroportos aponta ainda que a eficiência energética nas barcaças chega a ser 78% superior ao transporte rodoviário e mais de 30% acima do ferroviário, levando em conta o consumo de combustível por tonelada transportada.

A receita é simples: mais veículos carregando mais carga e menos consumo de combustível.

Na Hidrovias do Brasil, os comboios utilizados no Norte do país, que carregam 35 barcaças, transportam o equivalente a 1.750 caminhões ou 6 trens de 120 vagões. “Isso se reflete em uma emissão de CO2 77% menor que o modal rodoviário e 36% menor que o ferroviário”, explica Amaral, baseado em uma pesquisa da Future Climate Group encomendado pela transportadora.

O maior desafio hoje ainda é a presença de mercado do transporte aquaviário. O Ministério de Portos e Aeroportos apontou no ano passado que somente 5% das mercadorias transportadas no Brasil são realizadas por hidrovias, com 20,4 mil quilômetros destinados para navegação comercial, que inclui cargas e passageiros. O potencial, no entanto, é de alcançar 42 mil quilômetros navegáveis, mostra da oportunidade de crescimento.

A maior adoção hidroviário na matriz de transportes brasileira é uma das prioridades da companhia, como explica o CEO da Hidrovias do Brasil. “Contribuímos para as discussões da modelagem das concessões hidroviárias previstas nos planejamentos do Ministério e na necessidade das dragagens de manutenção para garantir a navegabilidade durante todo o ano”, afirma.

O setor, no entanto, pode estar caminhando para dar maiores chances às hidrovias. A demanda, de acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento, cresceu 57% entre 2020 e 2024 no Arco Norte, região que abrange portos e estações de transbordos no Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Maranhão. O total transportado chegou a 57,6 milhões de toneladas.

Tecnologias para aumentar a eficiência

O principal investimento da companhia nos últimos anos para aumentar a competitividade entre outros modais é, justamente, em aumentar a eficiência.

A Hidrovias do Brasil trabalha no desenvolvimento do chamado Supercomboio, um conjunto de embarcações que passa de 35 para 50 barcaças. “Isso trará mais uma redução significativa de emissões quando comparado aos demais modais”, explica.

O objetivo é aumentar a capacidade de carga movimentada, substituindo a utilização de outros modais no processo de transporte. “Com isso, o modal hidroviário ganha pontos significativos de eficiência, pois não exige o mesmo nível intenso de investimentos que é visto nas rodovias e ferrovias”, explica Amaral.

Tecnologias como softwares e análises de dados históricos combinados com a inteligência artificial também são adotados pela transportadora.

Umas das tecnologias é capaz de prever com até 15 dias de antecedência como estarão as condições de navegação, criando maior previsibilidade sobre eventos climáticos como a seca.

Os desafios estruturais

Para o CEO da Hidrovias do Brasil, o principal gargalo para o avanço do modal no Brasil ainda é de regulação: o atraso no sistema regulatório impacta a infraestrutura, e impede a operação de ser ainda mais eficiente. “O nosso país deveria adotar o modelo do Mississippi, que investe em dragagem planejada anual e mantém a navegação 365 dias por ano”, explica o executivo.

“A dragagem de manutenção é o ponto mais crítico para a perenidade da navegação. Não se trata de uma obra nova, mas de uma conservação”, explica. Para Décio Amaral, CEO da Hidrovias do Brasil, sem a dragagem contínua, o Brasil pode seguir perdendo a competitividade e a previsibilidade quanto ao trabalho das hidrovias.

Incluir o compartilhamento de riscos como previsto em contratos de concessão hidroviária é, para a transportadora, outro mecanismo que pode garantir maior segurança jurídica e incentivar o setor privado a investir em infraestrutura fluvial.

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