Na luta contra o metano, lixo orgânico vira alvo de startup: 'Criamos indústria do zero', diz CEO

Por Sofia Schuck 11 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Na luta contra o metano, lixo orgânico vira alvo de startup: 'Criamos indústria do zero', diz CEO

Resolver o problema do lixo orgânico pode ser uma das formas mais rápidas de combater as mudanças climáticas e uma startup quer transformar essa ideia em um novo mercado ambiental.

“Estamos criando uma indústria do zero”, diz Ian McKee, fundador da Carrot, em entrevista à EXAME.

A climatech suíça fundada por dois brasileiros aposta em uma solução que conecta toda a cadeia de reciclagem de resíduos orgânicos para gerar créditos ambientais ligados à redução das emissões de metano.

Antes, o empreendedor conta que já atuava em projetos verdes e liderou o desenvolvimento do primeiro estádio com certificação LEED para edifícios sustentáveis, criou uma rede global de bares e restaurantes lixo zero e participou da implementação de programas de certificação ambiental da Copa do Mundo no Brasil em 2014, e dos Jogos Olímpicos, em 2016.

Foi nesse período que veio a virada de chave. Ao lidar com grandes volumes de resíduos orgânicos em eventos e estabelecimentos de alimentação, o brasileiro percebeu que o principal problema da reciclagem não era tecnológico e sim econômico.

Há cerca de três anos, a empresa criou uma plataforma baseada em blockchain que rastreia o processo de compostagem e remunera de forma justa todos os participantes da cadeia.

O foco? grandes geradores de "lixo", como restaurantes, redes de supermercado, indústrias alimentícias, com atuação não exclusiva no Brasil.

Em 2026, o negócio prepara uma expansão da rede e pretende ampliar significativamente sua capacidade de processamento nos próximos meses.

Hoje, são quatro parques de reciclagem responsáveis por mitigar mais de 30 mil toneladas de CO₂ equivalente e outros 20 estão em homologação, com potencial de gerar cerca de 200 mil toneladas de mitigação anual de metano a partir deste ano.

Quando estiverem operacionais, a rede terá capacidade para processar cerca de 35.150 toneladas de resíduos por mês, com potencial de gerar aproximadamente 1.600 empregos diretos e indiretos.

A estimativa é que cada tonelada de orgânico reciclado pode gerar entre 0,4 e 1,7 toneladas de CO₂ equivalente evitadas na atmosfera, dependendo do tipo de resíduo e do aterro de referência.

Para ser bem-sucedida, a tecnologia rastreia cada etapa do processo e valida que o material foi efetivamente processado.

A partir desses dados, a Carrot consegue gerar dois ativos: o primeiro são créditos de carbono, ligados à redução das emissões de metano que ocorreriam se o resíduo fosse enviado para aterros e o outro são os créditos de circularidade, que representam o volume de biomassa efetivamente reciclado.

A expansão ocorre após a startup realizar, no final do ano passado, a primeira venda de créditos ambientais gerados a partir da reciclagem de biomassa.

“Hoje existe uma falha de mercado: é mais barato enterrar lixo em aterros do que reciclar", explica Ian ao reforçar que enquanto hoje o mercado de carbono está focado em florestas e conservação, metade do problema climático está fora disso.

Para o CEO, há um potencial econômico pouco explorado: de U$ 500 bilhões a U$ 1 trilhão dentro de 10 a 15 anos.

“A biomassa é provavelmente a maior oportunidade climática da década", ressalta.

O vilão invisível do clima

A aposta da empresa está diretamente ligada a um dos gases mais perigosos para o planeta: o metano.

Embora menos conhecido que o dióxido de carbono (CO₂), este gás tem impacto climático muito mais intenso no curto prazo e é responsável por cerca de 30% do aquecimento global atual.

Estima-se que o metano seja até 86 vezes mais potente que o CO₂ no curto prazo. Resíduos orgânicos respondem por cerca de [grifar]25% das emissões globais de metano, segundo relatório global.

“Se a gente parar de emitir metano agora, conseguimos reduzir a velocidade do aquecimento global muito rapidamente", garante Ian.

O foco em superpoluentes como o metano também começa a ganhar espaço entre grandes empresas globais. Na semana passada, Google, Amazon e outras bigtechs anunciaram a criação da Superpollutant Action Initiative, uma coalizão voltada a financiar projetos capazes de eliminar esses gases da atmosfera.

Uma das principais fontes desse gás são justamente os aterros sanitários, onde resíduos orgânicos se decompõem sem oxigênio e liberam grandes quantidades de metano na atmosfera.

Hoje, a maior parte do lixo orgânico no mundo ainda segue esse destino: menos de 2% da biomassa do mundo é tratada biologicamente de forma correta.

No Brasil, cerca de 61% dos resíduos sólidos urbanos coletados ainda são enviados para aterros sanitários, o equivalente a mais de 40 milhões de toneladas por ano.

Estudos mostram o impacto dessa escolha. Em um cenário comparativo, duas toneladas de resíduos orgânicos enviadas para aterros sem captura de gás podem gerar cerca de 2,45 toneladas de CO₂ equivalente ao longo de 20 anos. Já a compostagem gera aproximadamente 0,22 toneladas no mesmo período — mais de dez vezes menos emissões.

A falha do mercado

Segundo o CEO, parte do problema é econômica. No modelo atual de gestão de resíduos, muitas vezes é simplesmente mais barato enviar lixo para aterros do que reciclá-lo.

Ele cita o exemplo de restaurantes, que frequentemente geram grandes volumes de orgânicos. Enquanto enviar esse material para o aterro pode custar cerca de 190 reais por tonelada, a compostagem pode chegar a 400 reais por tonelada.

A proposta da Carrot é justamente mudar essa realidade usando os créditos ambientais.

“A única forma que a gente encontrou de baratear e ganhar escala foi valorizar a reciclagem através do mercado de carbono", destaca Ian.

O Brasil ainda tem um longo caminho pela frente nessa área. De acordo com estimativas da Carrot, cerca de 99% dos resíduos orgânicos nacionais ainda acabam em lixões. Além disso, o número de pátios de compostagem ainda é pequeno para um país continental.

Para o fundador, isso mostra o tamanho da oportunidade. Se o modelo da startup ganhar escala, a ideia é que o sistema funcione como uma infraestrutura digital capaz de conectar e financiar toda a cadeia da reciclagem de biomassa.

“A gente não faz projetos isolados. Criamos a infraestrutura para que esse mercado exista", conclui o CEO.

1/43 lixão no Brasil reciclagem resíduos economia circular (Recyclable waste pickers at the dump)

2/43 Ponto de coleta de catadores, carroceiros em São Paulo - reciclagem - lixo - Foto: Leandro Fonseca Data: 27/06/2024 (IMG_6596)

3/43 fábrica de papel reciclado reciclagem economia circular (Workers In Recycle Plant)

4/43 Espaço Sustentável: em parceria com a Coca-Cola, o programa “Recicla, Galera” fomenta a reciclagem (DSC_5886)

5/43 Bolsas cheias de folhas e restos orgânicos empilhadas no centro de compostagem de Staten Island da Cidade de Nova York, em 4 de janeiro de 2024 (lixo NY resíduo orgânico reciclagem)

6/43 A startup brasileira Energy Source oferece soluções para reparo, reutilização e reciclagem de baterias (jlr)

7/43 ORIZON - Valorização de residuos - Fabrica da empresa em Paulinia - SP reciclar - reciclagem - lixo - aterro sanitario - Foto: Leandro Fonseca data: 13/04/2023 (IMG_7846)

8/43 ORIZON - Valorização de residuos - Fabrica da empresa em Paulinia - SP reciclar - reciclagem - lixo - aterro sanitario - Foto: Leandro Fonseca data: 13/04/2023 (IMG_7841)

9/43 ORIZON - Valorização de residuos - Fabrica da empresa em Paulinia - SP reciclar - reciclagem - lixo - aterro sanitario - Foto: Leandro Fonseca data: 13/04/2023 (Insalubridade)

10/43 ORIZON - Valorização de residuos - Fabrica da empresa em Paulinia - SP reciclar - reciclagem - lixo - aterro sanitario - Foto: Leandro Fonseca data: 13/04/2023 (IMG_7831)

11/43 ORIZON - Valorização de residuos - Fabrica da empresa em Paulinia - SP reciclar - reciclagem - lixo - aterro sanitario - Foto: Leandro Fonseca data: 13/04/2023 (IMG_7824)

12/43 ORIZON - Valorização de residuos - Fabrica da empresa em Paulinia - SP reciclar - reciclagem - lixo - aterro sanitario - Foto: Leandro Fonseca data: 13/04/2023 (IMG_7810)

13/43 ORIZON - Valorização de residuos - Fabrica da empresa em Paulinia - SP reciclar - reciclagem - lixo - aterro sanitario - Foto: Leandro Fonseca data: 13/04/2023 (IMG_7803)

14/43 ORIZON - Valorização de residuos - Fabrica da empresa em Paulinia - SP reciclar - reciclagem - lixo - aterro sanitario - gas natural - biometano Foto: Leandro Fonseca data: 13/04/2023 (IMG_7786)

15/43 ORIZON - Valorização de residuos - Fabrica da empresa em Paulinia - SP reciclar - reciclagem - lixo - aterro sanitario - gas natural - biometano Foto: Leandro Fonseca data: 13/04/2023 (IMG_7783)

16/43 ORIZON - Valorização de residuos - Fabrica da empresa em Paulinia - SP reciclar - reciclagem - lixo - aterro sanitario - Foto: Leandro Fonseca data: 13/04/2023 (IMG_7775)

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18/43 Recicla Galera - projeto de parintins AM apoiado pela Coca-cola - reciclagem - Foto: Leandro Fonseca data: 02/072023 (_MG_6783)

19/43 Reciclagem (Reciclagem)

20/43 Centro de reciclagem do vidro no Amazonas (eureciclo vidro amazonas)

21/43 Centro de coleta e processamento de resíduos pós-consumo SustentaPET: ação, que fomenta a economia circular da cadeia de reciclagem, foi criada numa parceria entre a Coca-Cola Brasil e a engarrafadora Coca-Cola FEMSA Brasil (SustentaPET_crédito Divulgação)

22/43 Entre o lançamento de cápsulas compostáveis e a reciclagem, a Nespresso quer manter o preço dos produtos inalterados (brejo-nespresso-sustentabilidade-previas-40)

23/43 "Sabemos da importância da reciclagem das cápsulas e que ainda não somos perfeitos nessa missão: reciclamos cerca de 25% do total produzido no mundo" (Nani Rodrigues / Nespresso) (nani-rodrigues-nespresso-sustentabilidade-16)

24/43 Tecidos de difícil reciclagem acabam em aterros sanitários e lixões a céu aberto (Nature in danger)

25/43 Cooperativa de reciclagem: os clientes da eureciclo pagam para a startup gerenciar a coleta seletiva (PRIMA-3)

26/43 eureciclo: mais de 200 mil toneladas de material encaminhadas para reciclagem só no ano passado (JBS 2)

27/43 Reciclagem de latas de alumínio (Reciclagem de latas de alumínio)

28/43 A men works in the recycling of plastic bags at CoopFuturo, a sorting collective which receives rubbish from the local government collection service and then sells the material to specialized recycling companies, in Rio de Janeiro, Brazil, on May 21, 2019. - Brazil is the fourth biggest producer of plastic rubbish in the world, beaten only by the United States, China and India, according to a recent report by the World Wildlife Fund (WWF). But the Latin American country recycles just 1.28 percent of the 11.4 million tonnes it generates every year, which the report said was well below the global average of nine percent. (Photo by CARL DE SOUZA / AFP) (Photo credit should read CARL DE SOUZA/AFP via Getty Images) (BRAZIL-ENVIRONMENT-PLASTIC-RECYCLING)

29/43 Gerdau adotou matriz de produção que tem a reciclagem de sucata ferrosa como principal matéria-prima (Gerdau-0823)

30/43 Centro de reciclagem da engarrafadora de bebidas Coca-Cola Femsa, em São Paulo: 700.000 garrafas PET processadas por dia (LIXO 1)

31/43 Fábrica da Basf, no interior de São Paulo: a reciclagem de resíduos no país já superou 80% — Germano Lüders (/) (Fábrica da Basf, no interior de São Paulo: a reciclagem de resíduos no país já superou 80% — Germano Lüders (/))

32/43 (Reciclagem de garrafas PET da Coca-Cola)

33/43 Reciclagem de lixo em Santana de Parnaíba (SP), parte de projetoda Unilever e do Pão de Açúcar: as empresas devem protagonizaro combate ao desperdício | Fabiano Accorsi / (IDEIAS 1)

34/43 Cooperativa Vila Lata, emSão Paulo: reciclagem de garrafas da Diageo, Pernod Ricard e Heineken | Fotos: Divulgação / (Programa Glass is Good – Trabalho da Cooperativa Vila Lata, São Paulo – SP)

35/43 Pilhas de lixo plástico comprimido em um centro de reciclagem chinês. (lixo-china)

36/43 Coleta de plástico para reciclagem em favela de Mumbai, na Índia. (India-plastico)

37/43 Reciclagem da embalagem PET do Guaraná Antarctica. (Reciclagem-de-PET2)

38/43 Garrafas de plástico se acumulam em uma fábrica de reciclagem na China. (plastico-montanha)

39/43 Exposição `Caminhos da Reciclagem´, no Distrito Federal (Wilson Dias/ABr) (size_960_16_9_reciclagem-df-abr-460-jpg.jpg)

40/43 Reciclagem (size_960_16_9_reciclagem-460-jpg.jpg)

41/43 Reciclagem (size_960_16_9_embalagem-agrotoxico-jpg.jpg)

42/43 Resíduos vendidos por empresas recicladoras terão IPI zero (size_960_16_9_reciclagem-460-jpg.jpg)

43/43 A capital paulista coletou cerca de 103 toneladas por dia em 2009, 7% do resíduos passíveis de reciclagem. (size_960_16_9_reciclagem-4602-jpg.jpg)

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