2026: o próximo ciclo do sistema financeiro na América Latina

Por Da Redação 22 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
2026: o próximo ciclo do sistema financeiro na América Latina

Por Daniel Vogel*

Durante a última década, o ecossistema cripto evoluiu de maneira acelerada, passando de uma inovação emergente para uma camada tecnológica cada vez mais integrada aos sistemas financeiros tradicionais. Hoje, o debate já não gira em torno de sua legitimidade, mas de sua utilidade e de como pode fortalecer a eficiência, o acesso e a resiliência do sistema financeiro.

Nesse contexto, 2026 se desenha como um ano-chave, marcado pela consolidação de tendências em curso que começam a redefinir a forma como o dinheiro circula, é guardado e investido, especialmente na América Latina.

A região tem sido uma das que apresentam maior crescimento do mercado cripto em todo o mundo. De acordo com a Chainalysis, entre 2023 e 2025, a adoção na América Latina cresceu a taxas superiores a 60% ao ano, impulsionada principalmente pelo uso de stablecoins, pagamentos internacionais e pela necessidade de proteger o valor do dinheiro contra a inflação.

Essa mudança em escala e nos padrões de uso antecipa uma nova etapa para o ecossistema, na qual várias tendências começam a convergir e a definir a trajetória do sistema financeiro rumo a 2026.

A evolução das stablecoins reflete bem essa transição, uma vez que deixaram de ser ferramentas de nicho para atuar como um amortecedor macroeconômico vital diante da inflação em países emergentes. Em nações como Brasil, Argentina ou Colômbia, essa mudança já se reflete em novos comportamentos, com o uso crescente de stablecoins como meio eficiente e de baixo custo para pagamentos e liquidações, além de sua função como reserva de valor.

Essa evolução ajuda a explicar por que o debate regulatório na região vem migrando do questionamento sobre sua existência para a busca de uma integração ordenada ao sistema financeiro tradicional, permitindo uma adoção ampla por bancos e cartões, eliminando fricções para o usuário final.

O segundo grande pilar dessa maturação é o avanço da tokenização de ativos do mundo real (RWA). Títulos, fundos de mercado monetário e outros instrumentos financeiros começam a operar de forma nativa sobre blockchain como parte de uma evolução gradual da infraestrutura financeira.

Projeções que indicam que o mercado global de ativos tokenizados pode superar os 16 trilhões de dólares até o final da década refletem a magnitude dessa transformação, impulsionada por maior eficiência operacional, ampliação do acesso e modelos de liquidez contínua.

Para a América Latina, essa tendência abre uma oportunidade concreta para modernizar mercados de financiamento, particularmente em dívida privada e produtos de baixo risco.

A isso soma-se uma convergência ainda mais profunda: cripto e inteligência artificial aplicada a serviços financeiros. O desenvolvimento de agentes on-chain — sistemas capazes de operar sob regras predefinidas por meio de contratos inteligentes — está abrindo portas para ferramentas financeiras mais personalizadas e eficientes, desde gestão automática de portfólios até soluções de liquidez com limites claros para o usuário.

Estimativas da McKinsey indicam que a automação financeira impulsionada por IA poderia reduzir em até 30% os custos operacionais do setor, reforçando o papel da blockchain como infraestrutura capaz de operar em tempo real, com maior rastreabilidade.

O processo de amadurecimento também se reflete em uma maior integração dos criptoativos ao sistema financeiro institucional. A chegada de produtos regulados e o crescente interesse de investidores institucionais elevaram os padrões de custódia, transparência e gestão de riscos.

Em paralelo, bancos e reguladores começam a incorporar esses ativos dentro de marcos formais. Em centros financeiros como São Paulo, Cidade do México, Buenos Aires e Bogotá, esse avanço já se traduz em conversas regulatórias mais sofisticadas e em uma adoção institucional estruturada.

Este avanço converge para um sistema financeiro onde instrumentos e serviços cripto já fazem parte da estrutura operacional. Pagamentos, poupança, investimento e gestão de riscos incorporam essas ferramentas de maneira progressiva, muitas vezes de forma invisível para o usuário final.

Neste contexto, o Brasil tem uma oportunidade concreta de se consolidar como uma das principais referências financeiras da região, sustentado pela profundidade de seu mercado, pela robustez de seu sistema de pagamentos (com tecnologias de vanguarda como o Pix), e por uma agenda regulatória cada vez mais sofisticada. O ecossistema, o talento e a escala já estão presentes.

O próximo passo exige uma visão compartilhada entre os setores público e privado, marcos regulatórios alinhados ao ritmo da inovação e uma implementação orientada a resultados. Uma vez consolidado como infraestrutura financeira, cripto pode contribuir para a construção de um sistema mais inclusivo, eficiente e resiliente e reforçar a liderança regional do Brasil.

*Daniel Vogel é CEO e cofundador da Bitso.

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