24% menos CO2: o que a JSL aprendeu sobre descarbonizar sem sair da estrada
Este conteúdo faz parte de uma série de reportagens sobre a descarbonização no transporte pesado. Você pode ler a reportagem publicada anteriormente aqui.
O transporte pesado por rodovias é, de longe, o maior emissor de gases de efeito estufa no setor de transportes no Brasil. O modal rodoviário concentra 93% das emissões do setor, segundo estimativas do Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa.
Apenas a carga rodoviária responde por quase metade de todas as emissões do transporte no país, algo na casa de 110 a 120 milhões de toneladas de CO₂ equivalente ao ano, uma vez que o transporte como um todo representa cerca de 11% das emissões totais de CO₂ do Brasil.
O principal desafio é que o caminhão não tem uma alternativa óbvia de baixo carbono para rotas longas e cargas pesadas, comuns ao setor.
O transporte segue como favorito porque é o único que acessa locais de difícil acesso, conectando regiões remotas de todo o Brasil com vasta flexibilidade.
É nesse contexto — de um modal essencial, mas carbonizado por natureza — que a JSL, operadora logística rodoviária líder no Brasil, tenta construir um caminho para emitir menos. O gerente fde sustentabilidade da companhia, Gustavo Brito, conversou com a EXAME e contou mais sobre a sua estratégia para reduzir o impacto ambiental diário.
Eficiência operacional como primeiro passo
A JSL opera em todos os estados brasileiros e em mais seis países, atendendo cerca de 20 setores da economia. Com essa escala, qualquer ganho de eficiência — por menor que pareça individualmente — se multiplica ao longo de milhares de rotas e veículos. É por isso que a principal alavanca de descarbonização da empresa não é tecnológica, mas justamente operacional.
"Iniciativas que reduzem o consumo de combustível, o número de viagens e a quantidade de veículos em circulação têm impacto direto na sustentabilidade e na redução de emissões", diz Gustavo Brito, gerente de Sustentabilidade da JSL, que conversou com exclusividade com a EXAME. "A descarbonização na JSL está diretamente ligada a uma operação mais eficiente, inteligente e bem gerida."
Um dos pilares dessa estratégia é a juventude da frota. A idade média dos veículos da JSL é de 3,5 anos, contra mais de 13 anos da média do mercado. Frotas mais novas consomem menos combustível, reduzem a quantidade de poluentes e geram menos resíduos operacionais — como pneus, óleos e peças mecânicas que precisam de descarte adequado.
A isso se soma um uso intensivo de telemetria: sensores inteligentes monitoram em tempo real o comportamento de cada motorista. Isso permite que se identifique freadas bruscas, acelerações desnecessárias e qualquer padrão que eleve o consumo de combustível.
No ano passado, a JSL ainda estruturou um projeto específico de redução de diesel, combinando análises individuais, treinamentos personalizados e bonificações para quem bate metas de consumo.
Mais carga por viagem — e combustíveis alternativos
Nos últimos anos, a empresa avançou em iniciativas mais concretas de inovação. Uma delas é praticamente uma mudança de geometria: a adoção do hexatrem — maior caminhão em operação no Brasil — no transporte de madeira, substituindo o bitrem convencional.
O novo modelo conta com 52 metros de comprimento e permite transportar até 250 toneladas de material. Com mais volume por viagem, a companhia atinge uma diferença que evita cerca de 8 mil toneladas de CO₂ equivalente por ano, só por reduzir o número de veículos em circulação.
O raciocínio é o mesmo que move a estratégia de uma ferrovia: menos viagens, com mais carga cada uma, significa menos emissões absolutas. No rodoviário, onde cada caminhão tem limites físicos e regulatórios muito mais rígidos do que um trem, encontrar margem para aumentar a carga por viagem é um desafio considerável.
Outro avanço recente foi o projeto pioneiro com caminhões movidos a biometano no Rio de Janeiro, operando com frota dedicada abastecida na maior usina de biometano da América Latina.
"Também ampliamos o uso de veículos a gás natural e elétricos, especialmente em rotas curtas e operações urbanas, onde essas tecnologias já apresentam maior viabilidade", explica Brito.
Mais padrões também têm ajudado a garantir maior alcance de metas: a JSL implementou o uso de veículos com a tecnologia Euro 6, padrão europeu de emissões que reduz de forma relevante os poluentes atmosféricos. O sistema usa tecnologias como SCR (Redução Catalítica Seletiva), DPF (Diesel Particulate Filter) e recirculação de gases para tornar o ar mais limpo, filtrando óxidos de nitrogênio (NOx) e material particulado.
JSL passou a usar hexatrem, caminhão com 52 metros de comprimento e que permite transportar até 250 toneladas de material (Alexandre Battibugli/Divulgação)
Cinco anos seguidos de redução
Os resultados começam a aparecer nos números. Em 2024, a JSL registrou a quinta redução consecutiva na intensidade de emissões de gases de efeito estufa, com queda de 6,2% em relação a 2023 e um acumulado de 24,5% nos últimos quatro anos — considerando emissões dos Escopos 1, 2 e de categorias relevantes do Escopo 3 em relação à receita líquida.
Brito explica que a trajetória está alinhada à meta da SIMPAR, controladora da JSL, de reduzir em 15% a intensidade das emissões até 2030. "Esse compromisso é atrelado a um Sustainability-Linked Bond [instrumento financeiro em que a taxa de juros pode subir caso as metas não sejam cumpridas], o que reforça a seriedade e a governança do processo", conta. Em outras palavras: a sustentabilidade entra no balanço.
O gargalo que não é tecnológico — é estrutural
Apesar dos avanços, Brito é direto sobre os limites da transição. "O principal gargalo ainda é estrutural. O transporte pesado no Brasil depende majoritariamente do diesel, e as alternativas de menor emissão ainda apresentam custo elevado, disponibilidade limitada e infraestrutura incipiente para abastecimento e manutenção em larga escala", afirma.
Há também um problema contratual: em muitas operações dedicadas de longo prazo, a adoção de tecnologias mais limpas exige investimentos adicionais que precisam ser compartilhados com os clientes.
Sem essa divisão de custos, a viabilidade econômica simplesmente não fecha — e nenhuma empresa escala o que não é viável.
Para avançar, Brito aponta três frentes essenciais:
"Parcerias estratégicas entre operadores logísticos, clientes e fornecedores também são essenciais para viabilizar projetos-piloto, contratos de longo prazo e modelos que permitam dividir riscos e investimentos de forma equilibrada", completa.
Competitividade e sustentabilidade: o mesmo caminho
Para Brito, descarbonizar não é só uma obrigação ambiental, mas também é uma demanda crescente dos próprios clientes. Essa transformação, reconhece, não depende só de vontade ou de inovação. Depende de infraestrutura, de política pública, de contratos e de tempo.
"Cada vez mais, somos parceiros estratégicos na busca por metas e ambições ESG, contribuindo ativamente com soluções logísticas mais eficientes, de menor impacto ambiental e alinhadas às estratégias socioambientais de cada operação", diz.
O argumento é o mesmo a outros modais: operações mais eficientes reduzem custos e emissões ao mesmo tempo. No rodoviário, porém, o caminho é mais longo, que exige transformar a própria base tecnológica.
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