3 milhões de toneladas e 45 mil pessoas: o agronegócio de R$ 16 bi da Ceagesp
O movimento começa antes do amanhecer. Caminhões carregados de frutas, legumes e verduras cruzam as marginais de São Paulo e formam filas que se estendem por quilômetros. Dentro dos pavilhões, caixas são descarregadas em ritmo acelerado, enquanto compradores disputam os melhores produtos do dia. A Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) funciona como uma engrenagem invisível que conecta o campo à mesa de milhões de brasileiros — e que, em dias de pico, reúne mais gente do que muitas cidades do país.
No centro dessa operação está um negócio bilionário. Só no entreposto da capital paulista, a movimentação financeira chega a cerca de R$ 16 bilhões por ano, com média mensal de R$ 1,2 bilhão.
“A gente calcula o volume com base na quantidade de produto que entra vezes o preço médio praticado”, diz Thiago de Oliveira, chefe da Seção de Economia e Desenvolvimento da Ceagesp. O valor, segundo ele, supera o PIB de muitos municípios brasileiros.
Mais do que números, o entreposto revela a dimensão real da cadeia de alimentos no Brasil.
Diariamente, cerca de 10 mil toneladas de produtos passam pela Ceagesp. Em datas específicas, como Natal e grandes feriados, esse volume aumenta — e o fluxo de pessoas também. Ao todo, cerca de 45 mil pessoas circulam pelo espaço todos os dias, podendo chegar a 60 mil em períodos de maior demanda.
São carregadores, atacadistas, feirantes, motoristas e comerciantes que transformam o entreposto em uma verdadeira cidade. “Se você pegar a população que circula aqui, é maior do que a de muitos municípios do estado de São Paulo”, afirma Oliveira.
Ao longo de um ano, a Ceagesp movimenta cerca de 3 milhões de toneladas de alimentos, um volume que ajuda a dimensionar o tamanho da engrenagem que abastece o país.
São frutas, legumes, verduras, pescados e flores que chegam diariamente de diferentes regiões do Brasil — e até do exterior — e rapidamente seguem para feiras, mercados e restaurantes. Na prática, isso significa que bilhões de quilos de alimentos passam por um único entreposto, conectando o ritmo do campo ao consumo nas grandes cidades.
Boa parte dessa movimentação tem como destino a Grande São Paulo, que concentra mais de 22 milhões de consumidores. São mercadorias de todos os estados brasileiros e de cerca de 27 países, especialmente quando se trata de frutas fora de época, como cerejas, pêssegos e maçãs.
A Ceagesp surgiu em maio de 1969, a partir da fusão de duas empresas mantidas pelo governo do estado de São Paulo: o Centro Estadual de Abastecimento (Ceasa) e a Companhia de Armazéns Gerais do Estado de São Paulo (Cagesp).
O entreposto é uma empresa pública federal, atualmente vinculada ao Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar. Em 2024, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) excluiu a Ceagesp do Programa Nacional de Desestatização (PND) e também retirou sua qualificação no âmbito do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI).
A ideia de privatizar a Ceagesp ganhou força no governo do então presidente Jair Bolsonaro (PL), em 2019, mas não avançou.
Antes disso, o então governador de São Paulo, João Doria (PSDB), chegou a propor a mudança de endereço do entreposto e também defendeu a privatização da companhia.
O clima e os alimentos
A dinâmica da Ceagesp revela a velocidade — e a fragilidade — da cadeia agrícola. Hortaliças folhosas, por exemplo, são colhidas e vendidas no mesmo dia. Já legumes chegam à noite para serem comercializados na madrugada seguinte.
Esse ciclo rápido mostra como o abastecimento urbano depende diretamente do ritmo do campo.
“Tem produto que é colhido de manhã, chega aqui ao meio-dia e já está sendo vendido no mesmo dia”, diz Oliveira. Em outros casos, como frutas, a logística envolve diferentes regiões do país para garantir oferta constante e preços mais equilibrados.
Essa diversidade também funciona como proteção contra o clima — considerado o principal fator de risco do setor. Chuvas excessivas, calor fora de época ou falta de frio podem impactar diretamente a produção e os preços.
Por trás das bancas cheias, existe uma realidade pouco percebida pelo consumidor: a do produtor rural. Grande parte dos alimentos comercializados vem da agricultura familiar, que opera sob alto risco.
“Esse produtor fica 60, 70, às vezes até 90 dias sem receber nada”, afirma Oliveira. “Ele planta, investe e só vai ter retorno quando vender o produto — isso se o preço compensar.”
Na prática, cada alimento carrega uma aposta: clima, demanda e preço precisam coincidir.
Se houver excesso de oferta ou mudança brusca no consumo, o produtor pode vender abaixo do custo. Ainda assim, continua plantando — porque parar significa sair do mercado.
Ao mesmo tempo, tendências urbanas começam a influenciar diretamente o campo. A busca por alimentação saudável, intensificada após a pandemia, impulsionou produtos como abacate, batata-doce e hortaliças diferenciadas. O resultado aparece nas estatísticas e nas bancas da Ceagesp, onde novos hábitos moldam a produção agrícola.
No fim do dia, o entreposto resume um sistema complexo: milhares de decisões diárias, tomadas entre lavouras e centros urbanos, que garantem que alimentos cheguem frescos à mesa. Um fluxo contínuo que movimenta bilhões — e que, apesar de essencial, segue quase invisível para quem está do outro lado da cadeia.
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