75% dos fundadores de empresas de IA 'pura' nos EUA são imigrantes, revela estudo

Por Clara Assunção 2 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
75% dos fundadores de empresas de IA 'pura' nos EUA são imigrantes, revela estudo

Três em cada quatro fundadores das principais empresas de inteligência artificial dos Estados Unidos são imigrantes, segundo levantamento inédito da JumpStart compartilhado com exclusividade à EXAME.

O estudo "Os imigrantes que construíram a IA americana", na tradução livre, mapeou 24 fundadores de algumas das empresas de inteligência artificial mais valiosas dos EUA. Desse total, 75% nasceram fora do país e representam 12 nacionalidades diferentes.

Em um recorte mais restrito, que considera apenas empresas de "IA pura", aquelas cujo produto principal é inteligência artificial, o levantamento identificou que 100% das companhias analisadas possuem ao menos um fundador imigrante ou filho de imigrantes. Juntas, essas empresas somam cerca de US$ 90 bilhões em valuation verificado.

Entre os destaques estão a Cursor (Anysphere), avaliada em US$ 29,3 bilhões na última rodada confirmada considerada pelo levantamento. A companhia é seguida pela Scale AI, com valuation de US$ 29 bilhões e a Perplexity AI, avaliada entre US$ 20 bilhões e US$ 21 bilhões. Assim como a ElevenLabs, com US$ 11 bilhões.

Os fundadores identificados nesse grupo incluem Aman Sanger e Sualeh Asif, da Cursor, ambos nascidos na Índia; Aravind Srinivas, fundador da Perplexity AI, também nascido na Índia; e os poloneses Mati Staniszewski e Piotr Dąbkowski, cofundadores da ElevenLabs.

A Scale AI aparece no levantamento por meio de seu fundador, Alexandr Wang, filho de imigrantes chineses. O caso ajuda a explicar uma das conclusões do estudo, de que embora 100% das empresas de IA pura analisadas tenham origem imigrante entre seus fundadores, nem todos os empreendedores nasceram fora dos Estados Unidos.

Na Cursor, os quatro cofundadores mapeados pelo estudo, Aman Sanger, Arvid Lunnemark, Michael Truell e Sualeh Asif,  aparecem entre os empreendedores que passaram por universidades de elite americanas.

O levantamento mostra ainda que a formação acadêmica e profissional desses empreendedores segue um padrão relativamente concentrado. Todos os cofundadores da Cursor passaram pela universidade de Massachusetts Institute of Technology (MIT), enquanto mais da metade dos fundadores analisados têm passagens por instituições como Stanford, Berkeley, Harvard e NYU.

Bilionários imigrantes concentram US$ 1,3 trilhão

Os dados da inteligência artificial aparecem dentro de um contexto mais amplo de influência econômica dos imigrantes nos Estados Unidos.

Segundo o levantamento, os EUA abrigam atualmente 125 bilionários nascidos no exterior, número recorde que representa cerca de 14% dos aproximadamente 900 bilionários americanos identificados pela Forbes. Juntos, eles concentram US$ 1,3 trilhão em patrimônio, equivalente a 18% de toda a riqueza bilionária do país.

A Índia lidera pela primeira vez o ranking de origem, com 12 bilionários, seguida por Israel e Taiwan, ambos com 11 representantes. Entre os principais nomes estão Elon Musk, nascido na África do Sul; Sergey Brin, da Rússia; Jensen Huang, de Taiwan; Thomas Peterffy, da Hungria; e Peter Thiel, da Alemanha.

Segundo a JumpStart, 93% dos bilionários imigrantes são classificados como self-made, percentual superior aos cerca de 75% observados entre bilionários americanos natos.

A tecnologia é o principal motor dessa geração de riqueza. Dos 125 bilionários imigrantes identificados, 53 construíram suas fortunas no setor, que sozinho concentra cerca de 42% do grupo. Outros 28 atuam em finanças, elevando a participação combinada dos dois segmentos para aproximadamente 64% do total.

O paradoxo do visto

Segundo a JumpStart, pelo menos 42% dos empreendedores seguiram um mesmo percurso com entrada nos Estados Unidos por meio do visto de estudante F-1, autorização temporária de trabalho após a graduação, contratação por grandes empresas de tecnologia e, posteriormente, a fundação de startups próprias.

O dado chama atenção porque nenhum dos 24 fundadores analisados utilizou inicialmente o visto O-1A, categoria criada para atrair profissionais de habilidades extraordinárias. O programa permite trabalho independente desde o primeiro dia, não possui limite anual de concessões nem sistema de sorteio.

O estudo aponta que esse padrão expõe uma desconexão entre a forma como o sistema migratório foi desenhado e o caminho efetivamente percorrido pelos empreendedores que ajudaram a construir parte da indústria de IA americana.

Mas o contraste se torna ainda mais evidente diante das mudanças regulatórias implementadas em 2025, segundo a startup. No visto H-1B, principal mecanismo de contratação de profissionais estrangeiros qualificados, o governo passou a adotar critérios que priorizam salários mais elevados e ocupações consideradas especializadas.

Os dados compilados pela JumpStart mostram que a uma nova taxa de US$ 100 mil por petição externa levou a uma queda de 87% nos pedidos externos, enquanto a seleção baseada em faixa salarial reduziu em 48% as chances de trabalhadores em início de carreira.

Já o visto F-1, tradicional porta de entrada para estudantes estrangeiros e um dos principais canais de formação dos futuros fundadores de startups, registrou retração de 36% nas emissões em 2025. Entre estudantes indianos, a queda chegou a 60%.

Enquanto isso, o O-1A apresentou taxa de aprovação de 92,7% no terceiro trimestre do ano fiscal de 2025, segundo dados do USCIS citados pela pesquisa. Apesar disso, o visto segue pouco utilizado na trajetória dos fundadores analisados.

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