Como se sustenta o mercado de arte no Brasil em 2026?
Viver de arte no Brasil é um desafio que quase sempre esbarra no senso comum de que a produção cultural opera em um vácuo econômico, e que ser artista é quase uma sentença de desafios econômicos. Mas a verdade, sobretudo para dentro das galerias, não é bem assim.
O setor, ainda que muito apoiado por políticas públicas, tem uma engrenagem financeira potente. Em 2023, o mercado de arte nacional registrou um crescimento de 21% e movimentou R$ 2,9 bilhões, segundo levantamento da 7ª Pesquisa Setorial do Mercado de Arte no Brasil — realizada pela Act Arte em parceria com a ABACT e a ApexBrasil.
E engana-se quem pensa que o valor foi atingido só com o mercado estrangeiro. O estudo aponta que, embora as exportações tenham crescido 24% naquele ano (US$ 268 milhões com destino a países como EUA, Suíça e Reino Unido), o mercado interno ainda é o pilar principal, e abocanha 77% das vendas — realizadas, na maioria esmagadora das vezes, pelas galerias. A grande questão é chegar até elas.
A discussão sobre a estabilidade econômica do mercado de arte foi tema do painel "Business of Art: Como Funciona o Mercado de Arte no Brasil - do Ateliê à Galeria", realizado no Rio2C, maior evento de indústria criativa da América Latina.
Para entender como essa conta fecha na prática, a Casual EXAME entrevistou Márcio Botner, artista e cofundador da galeria A Gentil Carioca, e Adriano Carneiro de Mendonça, fundador da instituição cultural Solar dos Abacaxis. Ambos foram painelistas do evento e revelaram que o segredo da sobrevivência passa por uma palavra-chave: diversificação de receitas.
"A verdade é que falta política pública para que os artistas consigam sobreviver e trabalhar mesmo quando não são vinculados a nenhuma galeria. Mas dizer que a arte só depende dela é ignorar um mercado inteiro que se desenvolve não só com as galerias, mas com os próprios artistas e empresas", disse Botner à reportagem.
A engenharia econômica do mercado de arte do Brasil
Hoje, o mercado primário, focado na venda de obras novas de artistas vivos, representa a realidade da maior parte das galerias brasileiras. De acordo com os dados da Pesquisa ArPa, realizada pela MEES, 58% das galerias faturam menos de R$ 5 milhões por ano, e as obras de até R$ 50 mil respondem por 59% das receitas do setor.
Fundada em 2003 no centro histórico do Rio de Janeiro pelos artistas Márcio Botner, Ernesto Neto e Laura Lima, A Gentil Carioca nasceu de um desejo de criar um espaço independente, mas com a consciência de que a sustentabilidade precisava ser comercial. "Sabíamos que a maneira de sobreviver seria a comercial, que não poderia depender de empresas ou de patrocínio", relembra Botner.
"Mas também fizemos muito no susto, não teve uma receita. Tateamos como vender e representar os artistas no começo, perdemos dinheiro, mas, aos poucos, aprendemos a reconhecer onde está o colecionador de arte no Brasil e fora dele. Vai muito da experiência e de entendermos onde encontrar esses artistas que hoje trabalham conosco."
Para alcançar sustentabilidade financeira, pelo menos no início, a participação em feiras nacionais e internacionais tornou-se obrigatória. Funciona um pouco assim para o mercado também: 97% das galerias brasileiras frequentam ao menos um evento nacional por ano, e 71% participam do circuito internacional.
Porta de entrada para a arte brasileira e muito favorecido pelo câmbio, na maior parte das vezes, ao menos, é fácil entender o apelo do mercado internacional para o Brasil. Mas a vitrine "gringa" cobra um preço alto. As feiras representam 25% das despesas totais de uma galeria e configuram o segundo maior custo operacional do setor, atrás apenas da folha de pagamento (23%).
"As feiras são sempre um risco muito grande, porque a galeria paga o estande, a logística toda, hotéis, alimentação. Toda essa estrutura tem que ser pensada", explica Botner. Ele recorda o impacto das crises globais no ecossistema da arte: "Em 2008, no momento da quebra do banco americano, fomos fazer a feira de Londres e não vendemos nada na hora. O dinheiro foi todo embora. Você vai lidando com essas ondas que nem sempre são previsíveis. Hoje, fazemos de 8 a 10 feiras por ano, com muito mais estratégia de mercado do que no começo."
Apesar dos custos de operação e de uma carga tributária média de 14% (podendo bater 22% em alguns casos), Botner avalia o mercado nacional atual como equilibrado em relação ao internacional.
"O mercado de arte hoje no Brasil está bastante estável. Ele tem uma concentração muito maior em São Paulo, mas tivemos momentos incríveis recentemente com a SP-Arte e a ArtRio. As galerias fazem um esforço enorme para levar o melhor material e criar um diferencial. E o colecionador nos encontra nesses eventos, principalmente, e cria uma relação conosco."
Instituições sem fins lucrativos e a cultura do mecenato
Se as galerias comerciais financiam o artista por meio da venda direta, as instituições culturais autônomas cumprem o papel fundamental de oxigenar o sistema, seja para acolher criadores em início de carreira e expressões artísticas que nem sempre encontram espaço no mercado tradicional, seja para criar vitrines abertas ao público e fomentar a formação cultural do país. É o caso do Solar dos Abacaxis, fundado em 2015 no Rio de Janeiro.
Instituição sem fins lucrativos que não comercializa obras, o Solar atua muito mais como um ponto social dentro do mercado artístico. Opera em um casarão histórico de 800m² no Centro do Rio e oferece programação, ateliês de residência e exposições 100% gratuitas. "E sobrevive muito bem, obrigado. Tivemos um crescimento de orçamento de R$ 1 milhão em 2022 para R$ 4 milhões em 2026", diz Adriano Carneiro de Mendonça, fundador da instituição.
Sem receita vinda de bilheteria ou de vendas de obras, o segredo da viabilidade financeira, conta ele, é a pulverização de fontes. "Para ser economicamente viável, precisamos ter uma diversidade de receitas. Temos patrocínios por leis de incentivo (como a Lei Rouanet), editais públicos da Secretaria Municipal de Cultura, doações de quem quer incentivar a cultura artística no Brasil e ações de fundraising", explica Adriano.
Essa engenharia de captação inclui o programa de patronos e o apoio de artistas consagrados que doam obras de alto valor de mercado para leilões beneficentes da instituição, além do suporte das próprias galerias comerciais brasileiras. Com o valor, o Solar consegue movimentar o mercado com novos artistas e a economia como um todo, levando a arte às pessoas.
"As galerias mais maduras estão começando a criar em sua carteira de compradores uma cultura de mecenato. Elas provocam os colecionadores perguntando: 'que instituição você está apoiando?'", explica Adriano. "Elas entendem que a participação do artista em exposições institucionais certifica o valor cultural daquele trabalho, o que acaba valorizando a obra no mercado. É uma engrenagem em que todos ganham."
Renda para o artista
Uma das principais frentes de atuação do Solar dos Abacaxis para garantir que o ofício da arte seja pago é a destinação de pouco mais de 40% de seu orçamento anual exclusivamente para os custos diretos de programação. Isso se traduz em contratações, bolsas de residência e o pagamento rigoroso de cachês para artistas e trabalhadores da cultura.
"Muitas instituições não pagam cachê para empréstimo de obra, por exemplo. Nós sempre procuramos pagar, porque essa é a forma como os artistas se remuneram fora do mercado das galerias", afirma Adriano.
Pelo espaço, já passaram mais de 1.000 artistas em dez anos, que serviram de vitrine inicial para nomes que hoje ocupam o topo da arte contemporânea nacional, como Maxwell Alexandre, Tadásquia e Marcela Cantuária — essa última pintou uma das telas atualmente pertencentes à coleção da Pinacoteca de São Paulo durante uma residência no Solar.
Para o diretor, o fortalecimento de editais e o desenho de políticas públicas robustas são urgentes para preencher as lacunas que o mercado privado de luxo não consegue absorver sozinho.
"Muitos países desenvolvidos entendem a profissão do artista como algo necessário para a sociedade e possuem programas de renda mínima específicos para a categoria. O mercado de galerias é restrito e não dá conta de tudo, principalmente de expressões que não são puramente vendáveis. No Brasil, pela riqueza absurda do nosso campo artístico, a articulação coletiva entre os próprios artistas e o mecenato privado tem sido a nossa grande plataforma de sustentação", conclui.
O que vem para o futuro?
No nicho de alta renda, mostram pesquisas do setor, o compasso é acelerado. O bom momento do mercado de arte brasileiro reflete diretamente a maior expansão do mercado de luxo nacional, que cresceu cerca de 12% ao ano desde 2022, segundo a Bain & Company. Em 2025, as galerias do país saltaram uma média de 21% em vendas — o melhor desempenho global registrado pelo Art Basel and UBS Global Art Market Report 2026.
Para o futuro próximo, essa sustentabilidade ganha tração com a chegada de novos compradores. A Pesquisa ArPa 2025, realizada com quase 300 agentes da América Latina, aponta que são os novos colecionadores que hoje lideram o ranking de compradores mais ativos no ecossistema.
Há também um claro aquecimento no radar externo: 88% dos profissionais entrevistados pela ArPa percebem um avanço nítido no interesse internacional por artistas latino-americanos.
Apesar das projeções otimistas, com quase 60% do mercado na mira de crescimento contínuo, o setor reconhece limites de acesso. Metade dos entrevistados ainda enxerga o mercado brasileiro como restrito e fechado. A transformação digital caminha em passos mistos e a inclusão de gênero segue como pauta urgente de amadurecimento estrutural: a média nacional aponta que 63% dos artistas com representação oficial em galerias são homens, contra 35% de mulheres e 2% de criadores não-binários.
Para os próximos passos de consolidação da indústria, o estudo da ArPa jargona os três grandes desafios que ditarão a sobrevivência financeira de artistas e marchands no Brasil.
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