‘Bico’ virou ‘freela’: ele vai faturar R$ 15 milhões indicando pessoas para trabalhos temporários
Agora, no Brasil, quem faz “bico” é "freelancer". Na boca de novas gerações, a palavra em inglês foi encurtada e o cargo passou a ser chamado de "freela" - termos mais descolado e menos pejorativo para falar de trabalho temporário.
Criada em 2021, a startup HUG Conecta, de Santo André (SP), conecta profissionais independentes — pessoas jurídicas (PJs) — a empresas que precisam reforçar equipes em projetos específicos ou por períodos determinados. O modelo, chamado pelo setor de open talent ou talent-as-a-service, permite que companhias contratem especialistas sob demanda sem aumentar estruturas internas.
A empresa fechou 2025 com faturamento de R$ 10 milhões e projeta alcançar R$ 15 milhões em 2026. Atualmente, possui uma base com mais de 13 mil profissionais cadastrados e atende empresas como Grupo Boticário, McCain e Kwai. Segundo a startup, os contratos intermediados mantêm taxa de retenção de 96%.
A ideia nasceu quase por acaso. Gustavo Loureiro Gomes, fundador e CEO da HUG, passou mais de 15 anos no mercado de publicidade e comunicação e enxergava problemas recorrentes na forma como profissionais eram contratados.
"Comecei a perceber que existia uma oportunidade de desenhar relações de trabalho mais equilibradas. As empresas já contratavam freelancers e PJs, então a pergunta passou a ser: por que não fazer isso de uma forma mais estruturada e transparente?", diz.
Como a HUG surgiu
Em 2021, ainda como sócio de uma agência, Gomes indicou um redator para um cliente que precisava de alguém na função por poucos meses. Dias depois, o cliente pediu ajuda para operacionalizar o contrato porque a companhia não conseguia contratar o profissional rapidamente.
O episódio se repetiu outras vezes. Cinco profissionais viraram 20. Depois, 35. Aos poucos, o fundador percebeu que havia uma demanda crescente por especialistas que entrassem rapidamente em projetos sem necessariamente fazer parte de um quadro fixo.
Hoje, a HUG atua somente com profissionais de comunicação e marketing — áreas que vão de design e redação até mídia, programação, BI e análise de dados.
Mas o modelo vai além da simples conexão entre empresa e profissional. A startup acompanha contratos, pagamentos e o relacionamento durante a execução do projeto.
"Nossa preocupação não é apenas encontrar alguém para preencher uma vaga. O que a gente faz é desenhar a relação de trabalho para ela funcionar", afirma Gomes.
Como a empresa cresceu
O avanço projetado para este ano não aconteceu por aumento de equipe ou aporte externo. Segundo Gomes, o crescimento veio da maior demanda das próprias empresas por contratações flexíveis.
Um dos movimentos mais fortes foi o aumento dos trabalhos de curta duração. O volume mensal de vagas pontuais dobrou, passando de cerca de 20 para 40 oportunidades por mês.
Para lidar com essa velocidade, a empresa criou uma ferramenta baseada em inteligência artificial chamada Job Match. Funciona como um agente conversacional no WhatsApp: o cliente informa o perfil procurado, detalha necessidades do projeto e o sistema cruza as informações com a base de talentos cadastrados.
Depois de verificar disponibilidade e interesse dos profissionais, a plataforma retorna candidatos compatíveis em até 24 horas.
A HUG faz a intermediação financeira do processo: a empresa paga à startup, que garante o pagamento aos profissionais mesmo quando clientes trabalham com prazos mais longos.
A HUG não está sozinha nesta corrida. O avanço do trabalho sob demanda abriu espaço para empresas que funcionam como intermediárias entre talentos independentes e companhias em busca de especialistas.
No exterior, plataformas como Toptal e Andela conectam empresas a profissionais pré-selecionados para projetos específicos ou contratos de longo prazo. Na América Latina, modelos semelhantes também ganharam espaço com empresas como Revelo, focada em conectar empresas a profissionais da região.
A diferença da HUG está no foco inicial em comunicação e marketing e na proposta de acompanhar a relação entre contratante e profissional além do processo de recrutamento.
Debate vai além de CLT contra PJ
Embora o crescimento esteja apoiado em trabalhadores independentes, Gomes evita tratar o tema como uma disputa entre regimes de contratação. Na visão dele, a discussão costuma ser simplificada demais.
"Enquanto a conversa continuar sendo CLT versus PJ, a gente não vai avançar. Os dois formatos são necessários, mas o mercado precisa discutir novas formas de trabalho", afirma.
Para ele, a mudança está ligada a transformações sociais mais amplas. O empresário cita uma geração acostumada a escolher conteúdos sob demanda, trabalhar remotamente e buscar maior flexibilidade profissional.
Na prática, diz ele, empresas que insistem em modelos rígidos podem enfrentar mais dificuldades para atrair determinados perfis.
"Não é que exista um apagão de talentos. Muitas vezes existe um apagão de modelos de trabalho", diz.
O 'freela' ficou mais sofisticado
A palavra "freelancer" pode remeter a alguém trabalhando sozinho em projetos esporádicos. Mas a proposta da HUG é transformar esse formato em algo mais previsível para empresas e profissionais.
Hoje, a startup opera com uma equipe interna de 11 pessoas e cerca de 90 profissionais alocados em contratos ativos.
A expectativa é ampliar o alcance para outros setores no futuro, como jurídico e engenharia, áreas que também trabalham por projetos e demandam especialistas específicos.
Para Gomes, o movimento já começou.
"Open talent está deixando de ser uma solução pontual para virar estratégia."
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