Mulheres assumem o controle do patrimônio e inspiram pós em finanças da Belas Artes

Por Juliana Colombo 20 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Mulheres assumem o controle do patrimônio e inspiram pós em finanças da Belas Artes

Durante anos, Daniella Marques ouviu a mesma frase de mulheres de diferentes perfis sociais: “Banco não é lugar para mim”. A percepção se repetia mesmo entre clientes que movimentavam renda, sustentavam famílias e tomavam decisões centrais dentro de casa.

Foi a partir dessa constatação, amadurecida durante sua passagem pela presidência da Caixa Econômica Federal, entre 2022 e 2023, que nasceu a ideia de criar uma pós-graduação voltada exclusivamente para autonomia financeira feminina.

O projeto, lançado pelo grupo praElas em parceria com o Centro Universitário Belas Artes, mistura educação financeira, comportamento, liderança e construção patrimonial em uma tentativa de responder a uma transformação silenciosa da economia global: o avanço das mulheres como protagonistas das decisões de riqueza.

O curso foi apresentado na Brazilian Week, em Nova York, no último dia 12, em um almoço para empresários, investidores e executivos brasileiros no University Club, em Manhattan. Agora, ganha um segundo capítulo em São Paulo, com um evento imersivo nesta terça-feira, 19, que pretende traduzir, em experiências sensoriais, os pilares da formação.

“O cerne da questão é comportamental. E comportamental de raízes históricas”, afirma Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e hoje presidente do conselho e CEO da Legend Capital, onde atua na gestão de um patrimônio de R$ 35 bilhões. “A Caixa tinha 76 milhões de clientes mulheres, e elas achavam que não podiam entrar em banco. Foi aí que a Belas Artes trouxe a base científica e acadêmica para o que eu via.”

A percepção de Marques encontra respaldo nos números. Estudo da McKinsey estima que cerca de US$ 30 trilhões em patrimônio devem migrar para as mãos de mulheres nos Estados Unidos até 2030, uma das maiores transferências de riqueza da história recente. Entre 2018 e 2023, os recursos sob controle feminino cresceram 51%.

No Brasil, o movimento também já aparece de forma clara. Segundo o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (RASEAM), do Ministério das Mulheres, elas chefiam hoje 51,7% dos lares brasileiros, o equivalente a 40,2 milhões de domicílios.

Um curso criado a partir da escuta

Educação financeira: Caixa e Goldman Sachs lançam curso cuja mensalidade começam em 541 reais (Juliana Colombo/Divulgação)

A proposta da pós-graduação surgiu da união entre executivas do mercado financeiro e a área acadêmica da Belas Artes. O objetivo era construir um curso que não falasse apenas sobre investimentos ou patrimônio, mas também sobre os bloqueios culturais e emocionais que afastam mulheres das decisões financeiras.

“Metade do curso fala sobre comportamento feminino e a outra metade, sobre letramento financeiro”, diz Patricia Cardim, CEO da Belas Artes. “Percebemos que esse fenômeno é uma realidade no Brasil e no mundo: as mulheres estão assumindo mais protagonismo na alocação de capital e nas decisões sobre patrimônio.”

Além de Marques, o projeto também reúne Carolina Ragazzi, ex-vice-presidente de varejo do Goldman Sachs e sócia-fundadora da plataforma praElas. Para ela, a exclusão feminina do debate financeiro tem impacto direto no crescimento econômico do país.

“O Brasil jamais atingirá seu pleno potencial econômico enquanto metade da população mantiver uma relação distante, limitada e pouco letrada com o dinheiro”, afirma. “As mulheres precisam ser tratadas como um vetor estratégico de crescimento da indústria financeira”, diz.

A executiva afirma que a ambição do projeto vai além da sala de aula. Segundo ela, a ideia é criar parcerias capazes de ampliar o acesso ao conhecimento financeiro para mulheres de diferentes contextos sociais e faixas de renda.

De perfume autoral a diamante esculpido: a aposta em experiências imersivas

O evento desta terça-feira, 19, tomou lugar no Shopping Cidade Jardim, onde fica a Belas Artes, em São Paulo, e foi desenhado para funcionar quase como uma tradução física da jornada proposta pelo curso. Em vez de painéis tradicionais ou ativações corporativas convencionais, os organizadores apostaram em experiências sensoriais e simbólicas para discutir identidade, liderança, equilíbrio e autonomia.

Logo na entrada, uma instalação convida os participantes a observarem a própria íris por meio de tecnologia de captura ocular de alta definição. A imagem se transforma em uma composição artística personalizada, em uma metáfora sobre identidade e autoconhecimento.

“Acreditamos que esta jornada começa pela forma como a mulher se vê”, diz Patricia Cardim.

“Teremos uma curadoria sensorial para recriar simbolicamente a essência das convidadas em uma fragrância única, feita por elas mesmas.”

Na experiência olfativa, cada participante constrói seu próprio perfume a partir de memórias, escolhas e combinações aromáticas. A proposta é discutir identidade por meio do sensorial.

Outro espaço transforma liderança em instalação artística. Em uma obra conduzida pela estilista Patricia Vieira, convidadas escrevem palavras e valores que marcaram suas trajetórias em fragmentos de tecido que serão costurados em uma peça coletiva ao longo da noite. A construção do manequim simboliza a ideia de patrimônio e liderança formados “fio a fio, decisão por decisão”.

O equilíbrio entre vida pessoal, carreira e construção patrimonial também aparece em uma instalação gastronômica performática: chefs cozinham ao vivo enquanto ingredientes são pesados em balanças cenográficas, numa referência visual à sobrecarga e à sustentação exercida por mulheres em diferentes dimensões da vida.

Há ainda espaços dedicados a bem-estar, gravações de relatos em formato de podcast e uma experiência inspirada na lapidação de diamantes. No ápice do evento, um escultor esculpe ao vivo um grande diamante de gelo com serra elétrica, metáfora para pressão, transformação e construção de valor ao longo do tempo.

A narrativa visual da noite tenta aproximar temas tradicionalmente áridos do universo financeiro de experiências mais emocionais e cotidianas.

Formação começa em agosto

A pós-graduação terá 360 horas de duração ao longo de 15 meses e será oferecida em dois formatos: ensino à distância e modalidade semipresencial no campus Cidade Jardim da Belas Artes, em São Paulo.

As mensalidades variam entre R$ 541, no modelo EaD, e R$ 1.958, no formato semipresencial. Para as fundadoras, o curso nasce em um momento em que discutir dinheiro deixou de ser apenas uma pauta econômica e passou a integrar temas como autonomia, relações familiares e construção de futuro.

“Quando uma mulher não participa das decisões financeiras, perde-se equilíbrio dentro de casa, nas relações e na sociedade”, afirma Ragazzi. “O dinheiro precisa deixar de ser território de medo ou dependência para se tornar instrumento de consciência, escolha e construção de futuro.”

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