A academia mais cara do Brasil vai treinar adolescentes para faturar R$ 18 milhões
O mercado fitness brasileiro tem 32 mil academias disputando clientes com promoções, planos mensais e aplicativos de desconto.
No meio desse barulho, uma academia nos Jardins, bairro nobre de São Paulo, foi na direção oposta: cobra 3.500 reais por mês, não faz desconto e não quer crescer a qualquer custo.
A Les Cinq Gym é a academia mais cara do Brasil. Ocupa quatro andares e 2.500 metros quadrados em uma única unidade, funciona como um clube fechado e oferece desde toalhas de algodão egípcio nos vestiários até uma DJ contratada para criar playlists com BPM, batidas por minuto, calibrado para cada horário do dia. Em 2025, faturou 14 milhões de reais.
A novidade de 2026 é uma aposta diferente: a academia lança o QGEN, programa de treinamento voltado exclusivamente para adolescentes de 12 a 17 anos. O movimento revela uma virada. Depois de anos focada no cliente adulto de alta renda, a Les Cinq começa a olhar para quem ainda está formando seus hábitos.
"A gente viu uma oportunidade muito grande porque a gente estava pesquisando muito, estudando essa nova geração", diz Rodrigo Sangion, fundador e CEO da Les Cinq. "De acordo com a Organização Mundial da Saúde, 80% dos adolescentes não praticam atividade física. O que a gente pode fazer para contribuir?"
O programa é a principal aposta de crescimento da empresa neste ano, junto com uma meta de expandir o faturamento em 30% sobre 2025. Para uma academia que deliberadamente limita sua base de alunos para preservar a exclusividade, o desafio é crescer sem se contradizer.
Como vai ser o programa para adolescentes
O programa funciona em horário restrito — das 13h às 17h, de segunda a sexta — com professores especializados e jornada estruturada por dia: musculação orientada, coordenação motora, fortalecimento postural e jiu-jitsu, arte marcial de origem brasileira.
A lógica é diferente do treino adulto. O objetivo não é hipertrofia nem emagrecimento, mas desenvolver habilidades motoras, melhorar a postura e criar disciplina.
Os planos são de 6 ou 12 meses, bem diferentes da lógica mensal ou trimestral da academia convencional. A justificativa é que habilidades motoras e posturais não se desenvolvem em ciclos curtos.
As vagas são limitadas: 20 no lançamento, com previsão de chegar a 50 ao longo de 2026. O preço é diferente do plano adulto, mas Sangion confirma que é um modelo próprio, com professor dedicado e horário exclusivo.
A aposta no público jovem não é óbvia para uma academia posicionada no topo do mercado. Mas Sangion enxerga uma coerência: a Les Cinq sempre se apresentou como um centro de bem-estar de longo prazo, não uma academia de resultado rápido.
"Nosso posicionamento hoje é voltado ao wellness e ao bem-estar pensando no longo prazo", afirma. "A ideia foi reforçar a necessidade de colocar uma iniciativa para incentivar hábitos saudáveis nesses adolescentes."
O argumento de mercado existe. Segundo a OMS, 80% dos adolescentes entre 11 e 17 anos no mundo não atingem o nível mínimo recomendado de atividade física semanal. No Brasil, o problema se agrava com a redução das aulas de educação física em muitas escolas particulares.
Programas estruturados para esse público são raros, e os poucos que existem raramente têm a abordagem técnica que a Les Cinq diz oferecer.
O risco, porém, é real. Adolescentes exigem uma comunicação diferente, uma dinâmica de engajamento diferente e, acima de tudo, a adesão dos pais. Vender um plano de 12 meses para um público de 14 anos, que pode perder o interesse em três meses, é uma equação mais difícil do que parece.
Como a Les Cinq chegou até aqui
Rodrigo Sangion cresceu em uma família simples no interior de São Paulo. Veio para a capital com 700 reais no bolso, cursou educação física e passou por redes como Runner, Bio Ritmo e Companhia Athletica antes de entender o que queria construir.
Durante anos, treinou clientes mesmo ainda lutando com o próprio peso. "Um dia ouvi que o aluno estava com o shape melhor que o personal — que era eu. Aquilo me marcou", diz. A virada veio com o fisiculturismo: em 2018, venceu o título de corpo mais bonito do mundo pela WBFF, federação americana de fisiculturismo, aos 40 anos.
O reconhecimento abriu portas para treinar nomes como Alok, Claudia Raia e Izabel Goulart. Depois surgiu o Método Sangion — treinos de curta duração e alta intensidade para um público com pouco tempo e alta exigência. Em 2014, no meio de uma crise econômica, ele abriu a Les Cinq nos Jardins com um sócio investidor.
A lógica era simples e arriscada: o setor já tinha as academias low cost, de baixo custo, e as grandes redes. Faltava algo realmente premium. "Não me interessava o quanto uma mudança ia me retornar. Me interessava o quanto eu ia deixar de perder se não fizesse", afirma.
A Les Cinq tem hoje mais de 600 alunos ativos, taxa de fidelização acima de 70% e uma estrutura que foi projetada para não parecer academia. Os equipamentos são da italiana Technogym, referência global do setor. As aulas têm no máximo três alunos por professor. Nos vestiários: sauna, piso de pedra natural, cosméticos premium e toalhas geladas. No térreo, o Yon Health, café boutique que serve shakes proteicos e refeições funcionais e opera como negócio separado da academia.
"Mais de 60% dos novos alunos chegam por indicação. Não fazemos marketing agressivo, não falamos de preço. O foco é a experiência", diz Sangion.
O modelo consciente de não escalar é tanto uma escolha estética quanto financeira. "Se eu escalo a experiência, corro o risco de perder a exclusividade. E meu negócio é a experiência."
Em 2025, a academia registrou faturamento de 14 milhões de reais, crescimento de cerca de 17% sobre os 12 milhões de 2024. A meta para 2026 é crescer 30%, chegando a cerca de 18 milhões de reais.
Quais são os próximos passos
Além do QGEN, Sangion vê a Les Cinq como um laboratório para tendências que chegam antes ao mercado de luxo.
Em 2024, a academia foi uma das primeiras no Brasil a desenvolver um protocolo de treino específico para usuários de canetas emagrecedoras, como o Ozempic, medicamento à base de semaglutida usado para controle de peso. "Quem usa essas canetas come menos, então precisa de uma intensidade diferente de treino", diz.
A expansão física, por enquanto, não é prioridade, mas não está descartada. Sangion menciona a possibilidade de abrir até 2 novas unidades no Brasil, com o Rio de Janeiro como candidato natural. "Não é um plano com data, mas é um plano para atender pessoas que não têm algo diferenciado como a Les Cinq no mercado."
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: