A aposta de US$ 725 bilhões das big techs na inteligência artificial

Por Tamires Vitorio 9 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A aposta de US$ 725 bilhões das big techs na inteligência artificial

Amazon, Alphabet, Meta e Microsoft vão gastar juntas US$ 725 bilhões em infraestrutura de inteligência artificial (IA) em 2026 — alta de 77% sobre o recorde de US$ 410 bilhões registrado no ano anterior, segundo balanços do primeiro trimestre compilados pelo Financial Times.

O número cresceu tanto que virou o principal termômetro que Wall Street acompanha nas teleconferências de resultados das big techs. Mais do que o lucro e mais do que a receita, o capex passou a ser lido como indicador de compromisso com a corrida da IA.

Segundo a Statista, nos últimos meses foi esse número que manteve os mercados de ações estáveis diante de um cenário macroeconômico deteriorado, marcado por tensões geopolíticas, alta no petróleo e risco crescente de estagflação.

Os planos individuais revelam a escala do que está sendo construído.

A Amazon lidera os gastos com US$ 200 bilhões projetados para 2026. A Alphabet vem logo atrás, com entre US$ 175 bilhões e US$ 185 bilhões.

A Meta planeja gastar entre US$ 115 bilhões e US$ 135 bilhões. A Microsoft, pelo menos US$ 120 bilhões — número que a própria empresa revisou para cima durante a divulgação de resultados. O capex da Microsoft para o ano inteiro vai chegar a US$ 190 bilhões, impulsionado pela alta nos preços de memória, segundo a CNBC.

Incluindo a Oracle, os cinco maiores provedores de infraestrutura de nuvem e IA dos Estados Unidos comprometeram entre US$ 660 bilhões e US$ 690 bilhões em 2026, valor que quase dobra os níveis de 2025, segundo a Futurum Research.

O Goldman Sachs olha mais à frente e suas projeções apontam para cerca de US$ 7,6 trilhões em investimentos acumulados entre 2026 e 2031, considerando apenas computação, data centers e energia.

O que cada empresa está construindo

As apostas das empresas não são as mesmas e, assim, o capital voltado para elas também não é unânime. Cada uma das big techs está construindo sua própria iniciativa de IA, o que justifica, ao menos para os executivos, os altos volumes de investimento.

A Microsoft tem a parceria mais cara do setor com bilhões investidos na OpenAI, criadora do ChatGPT, e os modelos da empresa liderada por Sam Altman alimentam boa parte dos produtos da companhia.

IA: gastos subiram em 2026, mas o retorno ainda não (Imagem gerada por IA)

O Copilot, assistente de IA integrado ao pacote Microsoft 365 — que inclui os aplicativos Word, Excel, Outlook e Teams —, já ultrapassou 20 milhões de assentos pagos em clientes corporativos, segundo a GeekWire.

A receita anualizada de IA da Microsoft chegou a US$ 37 bilhões, alta de 123% em relação ao ano anterior, segundo a CNBC — incluindo clientes que usam serviços de IA no Azure e receita dos produtos próprios.

O Azure, por sua vez, cresceu 40% no trimestre mais recente, com receita de nuvem total atingindo US$ 54,5 bilhões, segundo a GeekWire.

Já o Google concentra suas apostas no Gemini — família de modelos de linguagem desenvolvida pelo DeepMind, braço de pesquisa da Alphabet.

O Gemini é integrado nativamente ao Google Search, ao Gmail, ao Google Workspace e ao Android, funcionando como uma camada de IA sobre produtos que já alcançam bilhões de usuários.

O resultado já é mensurável. No primeiro trimestre, a Alphabet registrou crescimento de 63% no segmento de nuvem e alta de 81% no lucro líquido. Ao menos para o Google, as evidências apontam que a IA está gerando receita, e não só custo.

A Meta trilha um caminho diferente. Sem um braço de nuvem para monetizar diretamente a infraestrutura que constrói, a empresa aposta no Llama, família de modelos de linguagem de código aberto que qualquer desenvolvedor pode baixar e adaptar.

Em março de 2025, o Llama ultrapassou 1 bilhão de downloads, sendo usado por desenvolvedores, empresas e governos em áreas como segurança nacional, exploração espacial, ciência, agricultura e saúde, segundo a Meta.

A versão mais recente, o Llama 4, lançada em abril de 2025, traz três modelos — Scout, Maverick e Behemoth — todos treinados em grandes volumes de dados de texto, imagem e vídeo para oferecer compreensão visual ampla, segundo o TechCrunch.

O modelo está integrado ao WhatsApp, Instagram, Facebook e Messenger. A estratégia da Meta é construir um ecossistema de empresas que dependam do Llama — e, por consequência, da infraestrutura da própria companhia.

A Amazon, que lidera o ranking de capex, concentra os investimentos no Amazon Web Services (AWS), seu braço de computação em nuvem. O AWS cresceu 24% no quarto trimestre de 2025, atingindo receita anualizada de aproximadamente US$ 142 bilhões, à medida que clientes expandem cargas de trabalho de IA na plataforma.

A empresa também desenvolve seus próprios chips: a linha Trainium, com 1,4 milhão de chips do Trainium2 já instalados, sustenta a maior parte das inferências do Amazon Bedrock; o Trainium3 está em expansão com compromissos de fornecimento previstos para 2026 inteiro, segundo a Futurum Research.

O que ficou mais caro

Cerca de 75% do capex agregado dos hyperscalers em 2026 vai para infraestrutura diretamente ligada à IA — aproximadamente US$ 450 bilhões em chips, servidores, redes e data centers, segundo a CreditSights.

O problema é que esses insumos encareciram em ritmo acelerado. A Microsoft atribuiu US$ 25 bilhões do seu orçamento à alta nos preços de chips de memória.

A Meta também citou custos crescentes ao adicionar US$ 10 bilhões à sua previsão, segundo o Financial Times. Zuckerberg apontou diretamente os preços de memória como principal razão para a revisão.

Os contratos de memória NAND devem subir entre 70% e 75% no segundo trimestre de 2026, com toda a produção do ano já comprometida com pedidos anteriores, segundo o CEO da fabricante Phison.

O caixa que encolhe

O fluxo de caixa livre das empresas está no menor nível em mais de uma década.

A Pivotal Research projeta que o free cash flow do Alphabet vai cair quase 90% em 2026, chegando a US$ 8,2 bilhões, ante US$ 73,3 bilhões em 2025, segundo a CNBC.

Para cobrir a diferença entre o que geram e o que precisam gastar, as empresas foram ao mercado de dívida.

As big techs emitiram US$ 100 bilhões em títulos de dívida só em 2026, e investidores passaram a exigir proteção recorde contra inadimplência via Credit Default Swaps — instrumentos que funcionam como seguros contra calote de bonds corporativos.

A proporção de capex sobre receita atingiu entre 45% e 57% para os principais hyperscalers (patamar que analistas comparam a empresas industriais e utilities, não a companhias de tecnologia, segundo a CreditSights).

Segundo o Bank of America, os gastos de capital das cinco maiores big techs crescem em ritmo mais acelerado do que os próprios fluxos de caixa operacional, e o capex consensual deve alcançar 94% do caixa operacional em 2025 e 2026, ante 76% em 2024, descontados dividendos e recompras.

O retorno ainda não chegou

Nenhum dos hyperscalers ainda demonstrou retorno positivo sobre seus investimentos em infraestrutura de IA em escala.

A Meta segue sendo a mais cobrada pelos investidores. Analistas do Jefferies a descrevem como empresa que ainda está "na lista de espera" por evidências mais claras de retorno sobre o capex.

A companhia gastou US$ 72 bilhões em 2025 e planeja praticamente dobrar esse valor em 2026, para entre US$ 125 bilhões e US$ 145 bilhões.

A Microsoft vive uma contradição parecida, mas em escala menor.

O Azure cresce com força, mas o Copilot  ainda patina na adoção. Apenas 3,3% da base comercial do Microsoft 365 havia convertido para assentos pagos do Copilot até início de 2026, e a participação da empresa no mercado americano de assinantes pagos de IA caiu 39% em seis meses, segundo a Tech Insider.

A Alphabet foi, por ora, quem chegou mais perto de uma resposta convincente ao mercado.

A empresa registrou crescimento de 63% no segmento de nuvem e alta de 81% no lucro líquido no primeiro trimestre de 2026, entregando evidência concreta de que a IA está movendo receita — não apenas custo.

Mesmo assim, o ciclo não desacelera. Analistas de Wall Street já estimam que o capex total de IA pode superar US$ 1 trilhão em 2027, segundo a CNBC.

O capex combinado das cinco maiores empresas do setor saiu de US$ 162,3 bilhões em 2022 para US$ 448,3 bilhões em 2025, segundo a Epoch AI — e nenhuma delas parece disposta a ser a primeira a frear.

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