A atacadista que virou solução para a gasolina cara nos EUA
Com a forte alta dos preços da gasolina nos primeiros meses de 2026, motoristas ao redor do mundo passaram a buscar alternativas mais baratas para abastecer. Nesse cenário, os preços mais baixos praticados nos postos da Costco, nos Estados Unidos, têm impulsionado o fluxo de consumidores, segundo analistas da Gordon Haskett.
De acordo com a consultoria, o movimento se intensificou nas primeiras semanas de março, após o início da guerra entre EUA e Irã e a consequente alta do petróleo. Nesse período, o tráfego nos postos da rede aumentou em relação a fevereiro, refletindo a busca por alternativas mais econômicas.
Os dados confirmam essa tendência. O fluxo nos postos da Costco já registra alta de 7,9% em março na comparação anual. Nos últimos seis meses, o crescimento havia sido positivo apenas em novembro, quando avançou 1,9%.
A estratégia da companhia tem sido manter preços competitivos, mesmo com margens menores. Segundo analistas liderados por Chuck Grom, a gasolina da Costco geralmente apresenta desconto relevante em relação aos concorrentes locais e à média estadual, o que amplia sua atratividade em momentos de pressão sobre o custo de vida.
“Nossos estudos históricos de preços desde 2014 indicam que a gasolina da Costco costuma ter um desconto de US$ 0,09 em relação aos cinco principais concorrentes locais e de US$ 0,24 em relação à média estadual — uma diferença de valor que tende a ganhar ainda mais relevância caso o atual ambiente de preços se mantenha”, escreveu Grom em relatório.
Além disso, a empresa adota uma política de repasse mais gradual, elevando os preços mais lentamente quando o combustível sobe e reduzindo-os mais rapidamente quando há queda.
Na prática, a Costco opera com margens menores durante períodos de alta nos preços da gasolina, mas compensa quando os preços recuam. Em momentos de baixa demanda, a empresa não reduz seus preços com a mesma velocidade que concorrentes, o que amplia suas margens. Esse equilíbrio permite sustentar preços mais estáveis e competitivos ao longo do tempo, aumentando o fluxo de clientes e compensando perdas anteriores.
Esse diferencial ganha ainda mais relevância em um ambiente de preços elevados de energia. Com o avanço da inflação e o impacto direto no orçamento das famílias, consumidores têm se tornado mais sensíveis aos preços, o que favorece redes com posicionamento competitivo.
A empresa também tem investido na expansão da sua operação de combustíveis, incluindo o desenvolvimento de postos independentes e melhorias operacionais para manter seus custos baixos.
Da gasolina aos supermercados
A gasolina não é o principal produto da Costco, o que permite à empresa maior flexibilidade na precificação. Como clube de compras por atacado, a companhia gera receita em diversas frentes — desde abastecimento até compras de supermercado e serviços em veículos. Esse modelo permite operar com margens menores em combustíveis, desde que isso estimule o consumo em outras categorias.
Parte relevante da estratégia também está no programa de membros, com assinaturas anuais de US$ 65 ou US$ 130, dependendo da categoria, que dão acesso aos benefícios da rede.
Estudos reforçam a competitividade da empresa. Levantamento da Consumer Reports, encomendado à Strategic Resource Group — empresa de pesquisa de mercado do setor de varejo e supermercados —, mostrou que os preços da Costco são, em média, 21% mais baixos do que os do Walmart. Isso demonstra a capacidade de competição por preços baixos dos clubes de compras contra grandes redes de supermercados.
Esse diferencial contribui para aumentar o fluxo nas lojas. “De modo geral, observamos que cerca de metade dos membros que compram no posto de gasolina também compram no depósito”, afirmou o diretor financeiro da Costco, Gary Millerchip, durante teleconferência de resultados da empresa.
À ABC News, o professor de economia Alan Gin, da Universidade de San Diego, afirmou que a estratégia agressiva de preços está diretamente ligada ao modelo de negócios da empresa. “A maior parte dos seus lucros provém das quotas de sócios”, disse.
De acordo com o economista, até 70% dos lucros da companhia vêm das assinaturas pagas pelos clientes. “Eles podem se dar ao luxo de ter alguns prejuízos com o frango e os cachorros-quentes, e agora talvez até com a gasolina, se isso fizer com que as pessoas se inscrevam nesses programas de fidelidade”, afirmou Gin.
Alta do petróleo
O cenário atual, marcado pela disparada dos preços do petróleo em meio às tensões geopolíticas, tem reforçado a busca por economia. Dados da GasBuddy mostram que o preço médio da gasolina nos Estados Unidos subiu 23,2 centavos na última semana, chegando a US$ 3,68 por galão.
“A média nacional subiu 80 centavos em relação ao mês passado e está 66,1 centavos por galão mais cara do que há um ano. O preço médio nacional do diesel subiu 34 centavos na última semana e está em US$ 4,951 por galão”, informou a GasBuddy.
Nesse ambiente de incerteza, a diferença de preços da Costco em relação aos concorrentes — que pode chegar a dezenas de centavos por galão — se torna ainda mais relevante.
“Ainda é cedo para saber qual será o impacto a longo prazo dos eventos no Oriente Médio neste momento. Mas, de modo geral, se os preços do gás começarem a subir, nossa proposta de valor tende a ter maior aceitação entre os membros, simplesmente porque, obviamente, queremos ser a autoridade em preços de gás”, afirmou Millerchip.
Com isso, a empresa se beneficia de um ambiente que pressiona outros setores do varejo: quanto mais altos os preços da energia, maior tende a ser a atratividade de sua proposta de valor.
Analistas da Gordon Haskett reiteraram a recomendação de compra para as ações da companhia e mantiveram o preço-alvo de US$ 1.200 para os próximos 12 meses, o que implica potencial de valorização de 23% em relação ao fechamento desta quinta-feira, 19. As ações operavam estáveis no pré-mercado e, desde o início da guerra no Oriente Médio, acumulam queda de 3,5%.
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