A cearense que constrói galpões da Amazon no Brasil e fatura R$ 500 milhões

Por Daniel Giussani 2 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A cearense que constrói galpões da Amazon no Brasil e fatura R$ 500 milhões

FORTALEZA (CE) — No meio de uma região de casas baixas e terrenos baldios em Eusébio, cidade da região metropolitana de Fortaleza, no Ceará, um quarteirão inteiro destoa da paisagem.

Dentro dele, pontes rolantes mergulham peças de aço em um tanque de zinco fundido a 457°C, bobinas entram em perfiladeiras e saem como pilares prontos para parafusar, e caminhões carregam estruturas que vão virar centros de distribuição da Amazon, da Shopee e da FedEx em algum ponto do Brasil.

Ali fica a Projeart, indústria de estruturas metálicas com 33 anos de história e faturamento na casa dos 500 milhões de reais.

A empresa tem 800 funcionários diretos, três unidades fabris distribuídas em mais de 130.000 metros quadrados e capacidade para produzir até 5.000 toneladas de aço por mês.

Atende obras do Brasil inteiro — da Log, braço de condomínios logísticos do grupo MRV que aluga galpões para gigantes do e-commerce, ao Grupo Mateus, do qual constrói cerca de 70% das obras, passando pelo Atacadão da Bahia, para quem ergue agora um centro de distribuição de 93.000 m².

Recentemente, a empresa recebeu um aporte de 60 milhões de reais em uma planta de galvanização a fogo, batizada de ProZinco, que começou a operar em janeiro de 2026. O equipamento central é um tanque de quase 15 metros quadrados — o maior do gênero no Brasil, segundo a empresa.

Só de zinco dentro da cuba, são 8 milhões de reais.

A planta destrava um gargalo histórico: até então, quem queria erguer galpão logístico no Norte ou no Nordeste com estrutura protegida contra corrosão precisava embarcar a peça para São Paulo, esperar o banho de zinco e trazê-la de volta. Só o frete inviabilizava boa parte dos projetos.

"Grande parte da galvanização destinada ao Norte e Nordeste era enviada para ser finalizada em outras regiões, aumentando muito os custos de frete, de prazos e riscos logísticos. A nova planta permite redução significativa no custo por tonelada, prazos mais curtos, menor manipulação das cargas e maior previsibilidade para obras de grande porte", diz Odmar Feitosa, diretor da Projeart.

O próximo passo é transformar a Projeart em um ecossistema completo de soluções em aço. Além da galvanização, a companhia acaba de comprar uma fabricante de porta-pallet, estrutura usada em centros de distribuição para armazenamento vertical de carga, e está montando uma fábrica dedicada a torres de telecomunicação, incluindo 5G e linhas de transmissão de energia.

"É meio que um ecossistema de aço. O máximo que a gente conseguir atender com o aço, a gente vai fazer", afirma Feitosa.

Qual é a história da Projeart

A Projeart nasceu pequena, em Fortaleza, das mãos do empresário Raimundo Maia.

Antes de virar uma indústria de estrutura metálica, era uma marcenaria. A virada veio quando o antigo proprietário fez os móveis da casa de um grande empresário gaúcho, o dono da Grendene, em Farroupilha, e foi convidado a construir um hangar em estrutura metálica para o cliente. A obra abriu o caminho para um novo segmento.

Por anos, a empresa cresceu sem concorrência relevante no Nordeste. Os players de peso estavam todos em São Paulo.

Em 2020, com o falecimento do fundador, a família vendeu a operação. O principal acionista hoje é Jefferson Von Haydin, engenheiro mecânico que veio de São Paulo para o Ceará em 2001, montou uma das lavanderias industriais mais eficientes do mundo, vendeu o ativo para o grupo francês Elis e fez o OPM, programa de gestão para empresários, em Harvard.

A aquisição da Projeart foi feita em plena pandemia.

Desde então, a empresa triplicou a capacidade. A nova sede, em Eusébio, foi inaugurada em outubro de 2024 e absorveu toda a produção.

A corrida dos galpões logísticos

O que sustenta o crescimento é uma demanda represada por construção industrializada.

Em obras grandes, o pedreiro está deixando de ser opção. "A última obra grande que a gente fez para um cliente, teve que trazer pedreiro do Brasil inteiro", afirma Feitosa.

A escassez de mão de obra qualificada empurra o mercado para soluções pré-fabricadas, em que a estrutura sai da fábrica pronta e na obra só se parafusa — sem solda, sem pintura, sem retrabalho.

A Projeart se posicionou como fornecedora desse tipo de obra para os maiores grupos de centros de distribuição e atacarejo do país. Inaugurou uma fábrica para um cliente no Paraná recentemente, outra em Belo Horizonte.

No Ceará, o próprio Jefferson estruturou um fundo de investimento de cerca de 250 milhões de reais para erguer seis lojas que foram alugadas ao Grupo Mateus.

O aço chinês e o antidumping

O principal insumo da operação é a bobina de aço, e ele vem cada vez mais da China. A lógica desafia o senso comum: a CSN tem siderúrgica a 30 km da fábrica da Projeart, em Pecém, mas, segundo a empresa, é mais barato comprar a bobina, mandar transformar na China e trazer de volta para o Ceará do que adquirir o produto pronto na própria CSN.

Esse cálculo mudou nos últimos meses.

Há cerca de 60 dias, o governo brasileiro aprovou uma medida antidumping — mecanismo que cria sobretaxa para coibir importações abaixo do preço de mercado — pleiteada por CSN e Gerdau. A tarifa adicional sobre o aço chinês passou de 50%. "Mesmo assim, ainda é mais barato", diz Feitosa.

Para se proteger de fornecedores de fachada, a Projeart manda funcionários à China para homologar fábricas presencialmente. "Você recebe o folder, olha a fábrica, é uma coisa de cinema. Quando vai lá, é um escritório."

Quais são os próximos passos

A nova planta de galvanização a fogo abre uma frente de exportação.

A proximidade do Porto do Pecém e do Porto de Fortaleza coloca o Ceará em posição privilegiada para atender setores como construção, energia eólica, energia solar e telecom em outras regiões e até no exterior. "A planta foi pensada para atender padrões internacionais e se posicionar como um hub exportador de galvanização no Nordeste", diz Feitosa.

A aposta tem riscos. O setor de aço enfrenta volatilidade de preços, dependência de insumo importado e pressão sobre margens.

A demanda por galpões logísticos, que sustenta boa parte da carteira da Projeart, está atrelada ao ritmo do e-commerce e dos investimentos em centros de distribuição, variáveis sensíveis a juros e ao consumo.

Há ainda o desafio crônico de mão de obra qualificada, que a empresa tenta endereçar com uma escolinha interna de soldagem.

Por ora, o caminho aponta para cima. Em meio à industrialização da construção e à corrida por galpões logísticos no Brasil, uma indústria cearense que começou fazendo móveis para um empresário gaúcho se prepara para disputar o mercado nacional do aço galvanizado a partir de Eusébio.

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