A Copa do Mundo virou um campeonato de memes para a Geração Z
A Copa do Mundo deixou de ser, para a geração Z, apenas uma competição de futebol. Virou um fenômeno cultural vivido em várias telas ao mesmo tempo, em que o jogo é só uma parte da experiência — e os memes são a principal porta de entrada.
É o que mostra um conjunto de pesquisas recentes, conduzidas no Brasil e em outros países por institutos e empresas de dados, sobre como os mais jovens se relacionam com o Mundial de 2026.
No Brasil, o retrato é visível. Para 82% da geração Z, são os memes e o humor — não os lances ou as análises táticas — o tipo de conteúdo que mais representa essa geração durante a Copa.
O dado é de uma pesquisa do InstitutoZ, núcleo de estudos da consultoria Trope-se, e ajuda a explicar por que o maior fenômeno brasileiro do torneio até agora nasceu fora das quatro linhas.
O humor como linguagem de entrada
A pesquisa do InstitutoZ revela uma inversão na forma como os jovens consomem o futebol. Assistir ao jogo continua sendo um momento social, com amigos e família, mas acontece em paralelo a uma interação digital constante: a geração Z comenta em tempo real, compartilha conteúdo e cria narrativas próprias.
O futebol, para essa geração, não precisa ser técnico para ser consumido.
Depois dos memes e do humor, apontados por 82%, vêm as críticas e debates (45%), o conteúdo tático ou esportivo (42%), as reações e bastidores (37%), a moda e estética dos jogadores (13%) e as campanhas de marca (11%).
O Instagram lidera as plataformas usadas durante a Copa, com 79%, seguido por WhatsApp e Telegram (49%), YouTube (46%), TikTok (43%) e X (41%).
A Endrickmania como prova viva
Nenhum episódio ilustra melhor essa lógica do que a chamada Endrickmania.
Mesmo quase sem jogar, o atacante de 19 anos virou o nome mais comentado do Mundial entre os brasileiros, a partir de uma enxurrada de memes sobre a suposta implicância do técnico Carlo Ancelotti com o jovem, que começou quando ele ficou no banco na estreia contra o Marrocos.
Os números dão a dimensão do fenômeno.
Após o primeiro jogo, Endrick foi o atleta da seleção mais mencionado nas redes, com 31.480 citações — à frente de Vini Jr., autor do gol, com 28.600. Em 14 dias, o atacante ganhou 2 milhões de novos seguidores no Instagram, e chegou a somar quase 600 mil em apenas 24 horas após o desabafo no banco, segundo levantamento.
Quando o meme atravessa fronteiras
O fenômeno não ficou restrito ao Brasil. O jornal The New York Times classificou os memes envolvendo Endrick e Ancelotti como uma das principais sensações virais da Copa, em texto que descreveu a criatividade dos torcedores brasileiros como um "memepocalipse".
O diário espanhol Marca também repercutiu a Endrickmania, e até clubes europeus, como o Málaga, entraram na brincadeira.
As marcas seguiram o movimento. Netflix, Domino's e Duolingo participaram das piadas nas redes; a Neosaldina, de quem Endrick é embaixador, chegou a exibir um telão na Times Square; e o humor chegou a misturar a seleção com animes como Naruto, em que o atacante foi apelidado de "Jinchūriki do Pelé".
O segundo screen virou parte do jogo
O comportamento brasileiro reflete uma tendência global.
Um estudo da Snap, dona do Snapchat, mostrou que, para a geração Z, a chamada segunda tela deixou de ser secundária. Durante as pausas para hidratação, previstas para o 22º minuto de cada tempo, 74% dos jovens pegam o celular para checar mensagens ou redes sociais, criando uma nova janela de atenção.
A pesquisa da Snap também mostra que 62% dos jovens dizem que aplicativos de mensagem os fazem se sentir mais conectados aos outros torcedores durante as partidas, e 72% mandam mensagem a amigos imediatamente após um gol.
Para essa geração, a emoção do jogo se desenrola tanto no campo quanto nos grupos.
Engajados, mas seletivos
Globalmente, os dados confirmam que a geração Z é o público mais engajado do torneio. Um levantamento da The Trade Desk com a Appinio, que ouviu cerca de 40 mil consumidores em oito países, apontou que 83% dos jovens dessa geração planejavam acompanhar o Mundial, com interesse especialmente alto na Europa e no Canadá.
Outro estudo, da Nexxen, indicou que 93% deles pretendem continuar assistindo mesmo que a seleção que torcem seja eliminada.
Nos Estados Unidos, onde o futebol disputa espaço com outros esportes, a geração Z também lidera o interesse: 40% pretendem assistir, segundo a Numerator, contra 24% dos baby boomers.
E 37% planejam acompanhar a Copa por redes sociais como TikTok e Instagram, ante 23% da média geral — confirmando que, para os mais jovens, seguir o Mundial é, cada vez mais, uma experiência de tela pequena.
O retrato que emerge das pesquisas é o de uma geração que não é menos fã, mas fã de outro jeito: vive a Copa como um ecossistema de conteúdo que começa antes do apito inicial e continua muito depois do fim do jogo — e em que rir, compartilhar e comentar valem tanto quanto assistir.
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