A crise das bonecas: queda na venda de brinquedos virou coisa de gente grande

Por Tamires Vitorio 21 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A crise das bonecas: queda na venda de brinquedos virou coisa de gente grande

A Estrela, fabricante da boneca Susi, entrou com pedido de recuperação judicial nesta quarta-feira, 20, em um momento em que o mercado brasileiro de brinquedos nunca movimentou tanto dinheiro — mas ao mesmo tempo em que marcas tradicionais perdem espaço para importados, plataformas digitais e novas categorias de consumo.

O pedido foi protocolado na Comarca de Três Pontas, em Minas Gerais, onde fica a principal unidade fabril do grupo, e envolve outras sete sociedades.

A empresa acumulou prejuízo de R$ 24,3 milhões em 2024 e não conseguiu superar o peso de seu passivo, mesmo após um acordo com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional que reduziu R$ 747,9 milhões em débitos tributários para R$ 72,4 milhões, parcelados em até dez anos.

No fato relevante assinado por Carlos Antonio Tilkian, diretor de relações com investidores, a Estrela atribuiu o pedido ao aumento do custo de capital e à restrição de crédito, à mudança no comportamento de consumo com o avanço de alternativas digitais e ao efeito desses fatores sobre a estrutura financeira do grupo.

O mercado cresce, mas não para todos

O paradoxo está nos números. O mercado brasileiro de brinquedos encerrou 2025 com faturamento de R$ 10,39 bilhões, alta de 1,86% em relação ao ano anterior, segundo dados do Anuário da Abrinq 2026.

O crescimento acumulado desde 2020 chega a 36%. O setor emprega 43.946 trabalhadores diretos e projeta 1.740 lançamentos em 2026.

Os segmentos que mais cresceram em 2025 foram jogos de tabuleiro e cartas, com alta de 16%, e blocos de construção, com avanço de 17%, segundo a Abrinq.

O e-commerce já responde por 38% das vendas. O fenômeno dos kidults, adultos que compram brinquedos para si mesmos, impulsiona colecionáveis e licenciamentos.

O problema é que esse crescimento não chega igualmente a todos. Os grandes beneficiados são importados, plataformas digitais e novas categorias, como colecionáveis, educativos e licenciados.

A pressão chinesa sobre as fabricantes nacionais

A concorrência chinesa não é nova. Há cerca de 30 anos, a invasão de produtos importados da China provocou o fechamento de 636 fábricas de brinquedos no Brasil e a demissão de 45 mil trabalhadores no setor, segundo Synésio Costa, presidente da Abrinq, em declaração na Abrin de 2025.

O setor se recuperou parcialmente — hoje opera com 400 fábricas e cerca de 70 mil empregados —, mas a pressão nunca cessou.

As importações de origem majoritariamente chinesa somaram 75,8% do total de brinquedos comercializados no Brasil em 2025, segundo a Abrinq.

Marcas nacionais tradicionais, que dependem de fábricas físicas, produção em escala e margens pressionadas pela concorrência chinesa, ficam progressivamente de fora do crescimento do mercado.

A Estrela e o peso da própria história

Fundada em 1937, em São Paulo, por Siegfried Adler e sócios, a Estrela foi por décadas uma das maiores fabricantes de brinquedos do país.

Banco Imobiliário, Genius, Susi, Falcon, Autorama, Detetive e Pega Vareta fizeram parte da infância de gerações de brasileiros.

A empresa já havia passado por processos semelhantes à recuperação judicial em 2004 e em 2008.

Em 2021, perdeu disputa judicial com a Hasbro sobre royalties de jogos como Super Massa, Genius e Detetive. Foi condenada a retirar os produtos das prateleiras e destruir o estoque. A dívida ultrapassava R$ 64 milhões.

A companhia continua listada na B3 com as ações ESTR3 e ESTR4, com baixa liquidez. O valor de mercado neste mês estava em torno de R$ 42,7 milhões, menos de um décimo do passivo tributário renegociado antes dos descontos.

O Natal que não salvou o ano

Um dos principais problemas operacionais recentes foi a dificuldade de montar um terceiro turno de produção antes do Natal, período que concentra 65% das vendas anuais do setor: 35% no Dia das Crianças e 30% no Natal, segundo dados da Abrinq.

A impossibilidade de escalar a produção no momento mais importante do ano comprometeu diretamente o resultado de 2024.

A Estrela não é a primeira fabricante histórica brasileira a chegar a esse ponto.

A Gulliver, fundada em 1969 em São Caetano do Sul pelos filhos do espanhol Mariano Lavin Ortiz, está em recuperação judicial desde 2017.

Seus dois galpões industriais no ABC Paulista, de onde saíram brinquedos como Forte Apache e bonecos de Hulk e Homem-Aranha, foram colocados a leilão com lance inicial de R$ 74,7 milhões para garantir o pagamento de credores, segundo o Leilão Judicial Eletrônico.

A Barbie também sente a crise

A crise dos fabricantes de brinquedos não é exclusivamente brasileira.

A Mattel, dona da Barbie, dos Hot Wheels e do UNO, suspendeu suas previsões de crescimento para 2025 em maio daquele ano, citando tarifas impostas pelo governo Trump sobre brinquedos importados da China, que chegaram a 145%.

A empresa importa cerca de 20% de seus produtos para os Estados Unidos a partir da China e estimou impacto incremental de US$ 270 milhões nos custos do ano, segundo Anthony DiSilvestro, diretor financeiro da Mattel, em teleconferência com investidores.

Para compensar, a Mattel aumentou sua meta de economia de custos de US$ 60 milhões para US$ 80 milhões, anunciou reajustes de preços em alguns produtos e afirmou que pretende reduzir as importações da China para menos de 15% até 2026 e menos de 10% até 2027.

Os resultados financeiros de 2025, publicados pela Mattel na SEC, mostram que o grupo encerrou o ano com faturamento estável em relação a 2024. Veículos cresceram. Bonecas e produtos infantis recuaram.

O programa de corte de custos gerou economias acumuladas de US$ 172 milhões desde 2024, e a meta foi ampliada de US$ 200 milhões para US$ 225 milhões.

Brinquedo virou assunto de adulto

A mudança no mercado de brinquedos passa menos pela queda do consumo e mais pela mudança de quem captura esse consumo.

São Paulo concentra 34,9% do consumo nacional e 85,58% das unidades industriais. Santa Catarina lidera as importações, com 50,12% do total desembarcado no país, segundo a Abrinq.

Enquanto o setor cresce em faturamento, fabricantes nacionais enfrentam custos mais altos, crédito restrito, concorrência importada e uma mudança no perfil de consumo.

A Estrela fez parte da infância de consumidores que hoje têm entre 30 e 70 anos e seus principais produtos ainda existem.

O pedido de recuperação judicial coloca uma questão para o setor: o mercado que mais vende brinquedos da história vai precisar das marcas que o fundaram para continuar crescendo?

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