A cultura virou ativo estratégico de desenvolvimento regional e econômico no Brasil
Artistas, políticos e empresas já falaram várias vezes: investir em cultura é, também, garantir movimentação econômica. E isso não é opinião de quem trabalha no setor, mas uma realidade comprovada por dados.
Um levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV), encomendado pelo Ministério da Cultura (MinC), indica que cada R$ 1 injetado no setor cultural brasileiro tem o potencial de devolver até R$ 7,59 para a economia do país. Na prática, isso representa um retorno financeiro de 659%.
No ano passado, a chamada Economia Criativa, formada por mais de 111 mil pequenos negócios, movimentou cerca de R$ 400 bilhões – cerca de 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo o estudo Mercado de Indústrias Criativas do Brasil (MICBR).
O segmento, que vem se fortalecendo ao longo dos últimos anos, é responsável pela geração de empregos em todo o país e tem a expectativa de gerar mais de 8,4 milhões de empregos formais e informais até 2030.
Investimento em cultura movimenta a economia
O investimento em cultura, para além do cenário brasileiro, é uma tendência de aceleração global. Segundo dados da Unesco, os Setores Culturais e Criativos (SCC) já respondem por 6,1% da economia mundial e movimentam receitas anuais de aproximadamente R$ 10 trilhões.
E não para por aí. Projeções da consultoria Verified Market Reports indicam que o segmento manterá uma Taxa Composta de Crescimento Anual (CAGR) de 5,5% entre 2026 e 2033, impulsionado pela busca global por expressões de identidade local.
A correlação entre fomento e impacto territorial é endossada pelo relatório “The Culture Fix”, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que aponta a cultura como uma das ferramentas mais eficientes para a regeneração regional.
O exemplo da Estrada de Ferro
No Brasil, a tese ganha escala por meio de diversas iniciativas culturais. Duas delas, os projetos “Estação” e “Identidades”, são focadas na preservação da memória ferroviária ao longo da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM).
Os gestores culturais Preto Filho e Diego Ribeiro, à frente dos dois projetos, utilizam as artes visuais, a fotografia e o audiovisual como indutores de impacto econômico nas comunidades que margeiam a ferrovia operada pela Vale. Juntas, as iniciativas injetaram R$ 3,9 milhões na economia da cultura regional (R$ 1,8 milhão do Identidades e R$ 2,1 milhões do Estação).
O retorno estimado foi de R$ 29 milhões para os municípios atendidos, a exemplo de Vila Velha, Belo Horizonte, Rio Piracicaba, João Monlevade e Colatina.
"Tiramos o investimento do papel e o transformamos em recursos que circulam e permanecem nas próprias cidades", explica Preto Filho. "O dinheiro ativa uma rede capilarizada, que vai desde o pequeno fornecedor de merenda até o proprietário da pousada local. É um modelo de engajamento que promove a percepção do território e estabelece um contato real com as comunidades."
No projeto Estação, o aporte traduziu-se na qualificação de 80 jovens de cidades mineiras, que receberam incentivos individuais de R$ 1 mil para atuar na produção. Em um único ciclo, a iniciativa percorreu 172 quilômetros de malha ferroviária e alcançou cerca de 1 milhão de pessoas por meio de intervenções urbanas em sete municípios.
Ativos intangíveis e metas até 2028
No sentido oposto do traçado ferroviário, em direção ao Espírito Santo, o projeto Identidades concentrou esforços na sistematização do conhecimento de manifestações culturais sub-representadas.
"A cultura atua como um vetor de dinamização de mercado", afirma o gestor Diego Ribeiro. "Ao entregarmos um livro-inventário e realizarmos um festival nas comunidades, devolvemos a elas a dimensão de sua importância e, consequentemente, atraímos novos fluxos financeiros e turísticos para a região."
Além do impacto contábil, o Identidades mobilizou 175 interlocutores locais e gerou um acervo de 5 mil fotografias, salvaguardando 100 expressões culturais típicas que agora compõem um inventário afetivo inédito para o estado capixaba.
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