A decisão da Bayer que economizou quase R$ 2 milhões — e aumentou as vendas no Brasil

Por Daniel Giussani 11 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A decisão da Bayer que economizou quase R$ 2 milhões — e aumentou as vendas no Brasil

Existe uma planta chamada rosa mosqueta que, no Brasil, ganhou status quase de remédio caseiro.

Há décadas o brasileiro usa o óleo extraído dela para tratar cicatriz, mancha e ressecamento, sem que ninguém precise explicar para que serve. Foi essa familiaridade, captada por um monitoramento de redes sociais, que levou a Bayer a apostar em um produto novo.

Em nove meses, prazo curto até para os padrões da indústria farmacêutica, o Bepantol Rosa Mosqueta saiu da prancheta para a prateleira. O caso virou símbolo de uma estratégia maior dentro da companhia: usar o Brasil como peça-chave da inovação em cosméticos.

A Bayer Consumer Health, divisão que fabrica marcas como Bepantol e Gino-Canesten, mantém hoje 28 estudos clínicos rodando ao mesmo tempo no país.

A operação envolve cerca de 980 voluntários e dá suporte ao desenvolvimento de produtos vendidos não só no mercado local, mas também em mercados como Argentina, França e Espanha. Só em economia direta com um tipo específico de estudo, o que comprova o claim "não comedogênico", a empresa calcula uma poupança de 300.000 euros, ou cerca de 1,9 milhão de reais.

Para os próximos anos, a projeção é de cinco novos SKUs com vendas incrementais previstas em mais de 1,5 milhão de euros, algo perto de 9 milhões de reais, até o terceiro ano.

A guinada ganha contornos estratégicos num momento em que a indústria global de saúde e beleza enfrenta pressão de custos e exigências regulatórias cada vez mais específicas em cada país.

No Brasil, a Anvisa pede que produtos sejam testados na população local, o que tornaria a duplicação de estudos feitos no exterior um gargalo. A solução foi nacionalizar de vez a etapa científica, em uma operação que custa até 1/30 do que em outros centros de pesquisa do grupo no mundo.

"Quanto mais a gente tem ciência dentro do Brasil, melhor a gente faz produtos para os brasileiros", afirma Augusto Vieira, líder médico de Consumer Health da Bayer para a América Latina.

O próximo passo da companhia é transformar o Brasil em hub de exportação científica para outras filiais. Estudos conduzidos em São Paulo e Campinas já estão sendo adaptados para sustentar lançamentos na Argentina, na França e na Espanha, com ajustes nos perfis populacionais conforme a região.

Para a Bayer, o movimento posiciona o país como peça central de eficiência operacional dentro de uma rede global que opera em dezenas de mercados.

Por que apostar no Brasil

A escolha do Brasil tem uma justificativa que vai além do preço. A pele brasileira reúne uma variedade de características que poucos países conseguem oferecer dentro de uma mesma população.

Nos testes clínicos, isso se traduz na inclusão de todos os seis fototipos existentes, do mais claro ao mais escuro, dentro de um mesmo estudo. Em mercados como o Japão, com população homogênea, ou a Noruega, esse tipo de amostragem é inviável.

"A gente tem uma observância muito importante na nossa sociedade há séculos, de uma miscigenação muito interessante", diz Vieira.

Para a empresa, esse desenho permite que um produto desenvolvido no Brasil seja, ao mesmo tempo, calibrado para o mercado local e exportável para outros países, com adaptações pontuais.

O caso do Bepantol Rosa Mosqueta ilustra a lógica. A escolha do ativo partiu de uma escuta de redes sociais. O ingrediente já era familiar ao público brasileiro, o que reduziu o risco de aceitação. Nos últimos três anos, a Bayer Consumer Health lançou oito produtos no país sob esse modelo. Para os próximos três a cinco anos, a previsão é colocar mais cinco a seis no mercado, ritmo médio de 1,3 lançamento por ano.

Como funciona o protocolo

Os testes não são feitos dentro da Bayer.

A companhia contrata empresas terceirizadas, conhecidas pela sigla CRO, abreviação em inglês para contract research operator, ou operador de pesquisa por contrato. O modelo é uma exigência ética da indústria, para evitar o chamado viés de observação, distorção que acontece quando o pesquisador, por torcer pelo resultado, acaba influenciando a análise.

Cada voluntário precisa assinar um termo de consentimento livre e esclarecido. No Brasil, ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, é proibido remunerar participantes de estudos clínicos. A adesão depende, portanto, de voluntários genuinamente interessados em ciência, o que muda a dinâmica de recrutamento.

"São pessoas que realmente querem estar em contato com a ciência", afirma Vieira.

Os desafios do modelo

A nacionalização da ciência tem limites. O Brasil produz pesquisa de qualidade reconhecida internacionalmente, mas em volume menor do que o de centros como o americano.

A escassez de infraestrutura e de profissionais capacitados em pesquisa clínica é um dos gargalos que a Bayer e outras multinacionais enfrentam ao tentar escalar operações no país.

"A gente produz ciência ótima em baixo volume", diz Vieira, ao comparar o ecossistema brasileiro com o de Massachusetts, nos Estados Unidos. A aposta da empresa é que, ao concentrar estudos no Brasil, ajude a aquecer essa cadeia produtiva e a formar mais profissionais especializados.

Outro desafio é o tempo. Mesmo com o Bepantol Rosa Mosqueta tendo sido entregue em nove meses, a média ainda gira em torno de um ano para que um produto novo passe pelo protocolo da Anvisa, complete os testes e chegue à farmácia. Para o consumidor, pode parecer demorado. Para a indústria, é um ritmo acelerado.

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