A fabricante do Mounjaro agora tem um comprimido para engordar seus resultados

Por Caroline Oliveira 11 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A fabricante do Mounjaro agora tem um comprimido para engordar seus resultados

A farmacêutica norte-americana Eli Lilly — responsável também pela fabricação do Mounjaro —, iniciou a comercialização nos Estados Unidos da Foundayo, sua nova pílula oral diária para tratamento da obesidade. O lançamento marca mais um capítulo na disputa com a dinamarquesa Novo Nordisk — fabricante do Ozempic — pela liderança de um dos mercados mais promissores da indústria farmacêutica global — e, na visão de analistas, pode funcionar como um catalisador relevante para as ações da companhia no curto prazo.

O medicamento já está disponível em farmácias e plataformas de telemedicina, incluindo GoodRx, Amazon Pharmacy, Weight Watchers e o LillyDirect, canal direto ao consumidor da própria empresa. Para o BofA Securities, a estreia ocorre em um momento estratégico, às vésperas da divulgação do próximo resultado trimestral da farmacêutica.

A Foundayo é a versão comercial do princípio ativo orforglipron e integra a classe dos medicamentos baseados em GLP-1, que imitam um hormônio intestinal que reduz o apetite e regula o açúcar no sangue. Segundo o jornal The New York Times, nos ensaios clínicos, pacientes com obesidade perderam, em média, cerca de 12% do peso corporal após 72 semanas com a dose mais alta.

A aprovação pela agência reguladora norte-americana (FDA) foi concedida no início do mês. Trata-se da segunda pílula diária para perda de peso liberada nos EUA — a primeira foi a versão oral do Wegovy, da Novo Nordisk, autorizada em dezembro de 2025. O medicamento da dinamarquesa teve vendas expressivas nos primeiros meses de comercialização, o que pode mudar agora que o Foundayo também está disponível. Segundo especialistas ouvidos pelo jornal The New York Times, os dois medicamentos apresentam resultados semelhantes na redução de peso.

Destaca-se que a aprovação ocorre em um momento de expansão inédita das alternativas terapêuticas para perda de peso, o que amplia o espaço para decisões mais individualizadas entre pacientes e médicos. Segundo a médica Kristina Henderson Lewis, integrante do conselho do American Board of Obesity Medicine, em entrevista ao jornal The New York Times, o aumento das opções permite que fatores como conveniência, perfil de efeitos colaterais e custo passem a ter peso maior na escolha do tratamento.

“As pessoas podem realmente começar a ter boas conversas com seus médicos, não apenas sobre qual é o medicamento mais novo, mas qual é o medicamento certo para mim?”, afirmou ao NYT.

Mercado cresce e disputa se intensifica

Desde o lançamento do Wegovy oral, em janeiro, o mercado norte-americano de obesidade cresceu cerca de 13% trimestre contra trimestre, segundo analistas da BofA Securities. A chegada da Foundayo adiciona uma nova variável à competição entre as duas líderes globais do segmento.

Agora, o foco dos investidores deve se concentrar na capacidade da Lilly de expandir rapidamente a adoção da nova pílula sem “canibalizar” o desempenho do Zepbound, seu principal injetável para perda de peso. O medicamento já responde por 70% das novas prescrições no mercado de obesidade de marcas, segundo a própria empresa anunciou em teleconferência do quarto trimestre.

Mesmo tendo chegado depois da concorrente ao segmento oral, a Lilly é hoje vista por Wall Street como líder do mercado de obesidade nos Estados Unidos. O Zepbound superou o Wegovy em receita no ano passado e foi o principal motor do crescimento recente da companhia.

A experiência anterior explica a estratégia atual. “Wegovy foi o primeiro ao mercado, e levamos um tempo para conquistar a liderança”, afirmou o CFO da empresa, Lucas Montarce, na mesma reunião. A expectativa agora é evitar repetir esse atraso na nova fase da disputa, marcada pela chegada dos comprimidos baseados em GLP-1.

No mercado financeiro, o impacto do anúncio da aprovação foi imediato: as ações da Lilly subiram 6%, enquanto os papéis da Novo negociados nos EUA registraram leve queda no fechamento de 1º de abril.

Praticidade como diferencial competitivo

Embora apresente eficácia semelhante à de outros medicamentos da mesma classe, a principal aposta da Foundayo está na conveniência de uso. O comprimido pode ser ingerido a qualquer hora do dia, com ou sem alimentos — ao contrário da versão oral concorrente, que exige ingestão em jejum e em horário específico.

Esse fator pode influenciar diretamente a adesão ao tratamento. Segundo Montarce, há um contingente relevante de pacientes que não aceita terapias injetáveis e aguarda alternativas em comprimidos.

A dose inicial será comercializada por US$ 149 por mês (cerca de R$ 768) para pacientes que pagam do próprio bolso, valor alinhado ao da pílula concorrente. O sistema público Medicare deve cobrir o medicamento para parte dos pacientes, com uma coparticipação de US$ 50 por mês, e a expectativa é que planos privados também passem a incluí-lo.

A ampliação do acesso ocorre em um contexto regulatório favorável: como parte de acordos de preços firmados com o governo Trump no outono passado, a Eli Lilly e a Novo Nordisk receberam vouchers que garantiram análise acelerada de seus medicamentos pela FDA. O programa permitiu que tanto o Wegovy oral quanto o Foundayo chegassem ao mercado meses antes do que ocorreria pelo trâmite tradicional.

Além do tratamento da obesidade, a Lilly pretende solicitar ao FDA ainda neste ano a aprovação da medicação para diabetes tipo 2, segundo o NYT. Em estudos com esses pacientes, a dose mais alta do medicamento reduziu em média 2,2 pontos percentuais da hemoglobina A1C, indicador de controle glicêmico.

Em relação aos efeitos colaterais observados, eles são semelhantes aos de outras terapias para emagrecimento, causando principalmente problemas gastrointestinais, como náusea e diarreia.

Nova frente de expansão para o setor

A chegada das versões orais amplia o alcance potencial das terapias contra obesidade. Segundo Jamey Millar, executivo de operações da Novo Nordisk nos EUA, informou à Reuters a maioria dos pacientes que utilizam comprimidos de GLP-1 está tendo o primeiro contato com esse tipo de tratamento — sinal de que o formato pode atrair um público diferente daquele que já utiliza injetáveis.

Ainda de acordo com a agência, analistas não esperam que os comprimidos substituam completamente as aplicações injetáveis, que tendem a apresentar maior perda de peso. Mesmo assim, a projeção é que os medicamentos orais representem cerca de 20% do mercado até 2030.

Nesse contexto, a Foundayo surge menos como uma mudança em potência terapêutica e mais como um avanço em conveniência e escala. Para investidores, o lançamento reforça a estratégia da Lilly de consolidar sua liderança em medicamentos para obesidade justamente no momento em que a disputa com a Novo Nordisk entra em uma nova fase — agora também no formato comprimido.

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