A geração de mães exaustas: o impacto invisível da performance materna na vida e na carreira
Por Daniele Barros, mãe, psicóloga obstétrica e da parentalidade
Existe uma geração de mães cansadas demais para conseguir nomear o próprio cansaço.
Mulheres que seguem funcionando. Respondendo mensagens, liderando reuniões, organizando rotinas, sustentando relações, cuidando dos filhos, administrando demandas emocionais e tentando manter alguma aparência de equilíbrio, mesmo quando, por dentro, já estão emocionalmente no limite.
Algumas mães não estão vivendo a maternidade. Estão sobrevivendo a ela em silêncio.
Talvez nunca tenhamos tido tanto acesso à informação sobre desenvolvimento infantil, saúde emocional e parentalidade. Nunca tantas mulheres estiveram tão preparadas profissionalmente, tão qualificadas intelectualmente e tão comprometidas em construir relações mais conscientes com seus filhos.
Ainda assim, cresce silenciosamente uma geração de mulheres adoecendo enquanto tenta corresponder ao ideal impossível de dar conta de tudo.
Nos consultórios, isso aparece de forma recorrente. Mulheres altamente competentes, produtivas e funcionais, mas profundamente exaustas. Mães que não conseguem descansar sem culpa. Profissionais que vivem em estado constante de alerta. Pacientes que tentam performar até mesmo dentro da terapia, como se precisassem ser emocionalmente equilibradas, conscientes e produtivas o tempo inteiro, inclusive no próprio sofrimento.
E isso não é apenas uma percepção clínica. É um fenômeno social.
Uma pesquisa realizada pela Kiddle Pass em parceria com a B2Mamy, revelou que 9 em cada 10 mães brasileiras apresentam sinais de burnout parental, incluindo sintomas leves, moderados e graves de esgotamento emocional relacionados à parentalidade. Entre os relatos mais frequentes estavam culpa constante, sensação de sobrecarga, exaustão emocional e dificuldade de equilibrar maternidade, trabalho e vida pessoal.
O dado talvez mais simbólico da pesquisa seja outro: muitas dessas mulheres passaram a questionar a própria permanência no mercado de trabalho diante do impacto emocional acumulado pela dupla jornada.
E talvez esse seja um dos pontos mais importantes dessa discussão.
Porque a maternidade contemporânea deixou de impactar apenas a vida privada das mulheres. Ela passou a atravessar diretamente sua saúde mental, suas relações, sua produtividade, sua permanência no mercado e sua forma de existir no mundo.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han descreve a contemporaneidade como a “sociedade do desempenho”, um contexto em que os indivíduos deixam de ser pressionados apenas externamente e passam a explorar a si mesmos em busca de produtividade, validação e eficiência constantes.
Talvez poucas experiências revelem isso de maneira tão intensa quanto a maternidade atual.
Hoje, muitas mulheres não apenas cuidam. Elas precisam performar cuidado.
Precisam ser mães afetivamente presentes, profissionalmente relevantes, emocionalmente reguladas, produtivas, pacientes, disponíveis e ainda aparentar leveza enquanto sustentam tudo isso simultaneamente.
O problema é que, aos poucos, o ser vai perdendo espaço para o fazer.
As redes sociais intensificaram esse cenário. A exposição contínua de rotinas idealizadas produz uma sensação permanente de insuficiência. Há sempre alguém aparentemente mais presente, mais organizada, mais produtiva, mais equilibrada ou mais feliz. E mulheres reais passaram a comparar suas vidas inteiras com recortes editados da vida de outras pessoas.
Donald Winnicott, pediatra e psicanalista britânico, afirmava que crianças não precisam de mães perfeitas. Precisam de mães “suficientemente boas”. Mas a cultura contemporânea parece ter desaprendido completamente o significado dessa frase.
Existe hoje uma romantização perigosa da exaustão materna. Como se o esgotamento fosse prova de amor. Como se descansar fosse egoísmo. Como se uma boa mãe precisasse abrir mão de si continuamente para validar seu papel.
Mas existe um custo psíquico importante nisso.
Estudos sobre estresse crônico mostram que estados prolongados de sobrecarga impactam diretamente memória, sono, atenção, regulação emocional e capacidade de conexão afetiva. A neurocientista Lisa Mosconi alerta que o cérebro feminino responde de maneira particularmente sensível a períodos prolongados de hipervigilância e acúmulo de demandas emocionais, cognitivas e hormonais.
E isso inevitavelmente atravessa todas as esferas da vida, inclusive o trabalho.
Mães emocionalmente sobrecarregadas não deixam de ser líderes, profissionais competentes ou produtivas. Mas muitas seguem trabalhando enquanto sustentam silenciosamente uma carga mental invisível que raramente é reconhecida.
Além da maternidade em si, muitas mulheres ainda assumem aquilo que a socióloga Arlie Hochschild chamou de “segunda jornada”: o trabalho invisível do cuidado, da organização emocional da casa, do gerenciamento da rotina familiar e da sustentação afetiva das relações.
Uma carga que raramente aparece nas métricas de produtividade, mas que consome energia psíquica diariamente.
Talvez por isso a discussão sobre maternidade não possa mais ser tratada apenas como uma pauta privada ou exclusivamente feminina. Ela também é uma discussão sobre saúde mental, cultura organizacional, relações humanas e sustentabilidade emocional.
Porque empresas que ignoram a dimensão humana do cuidado continuam contribuindo silenciosamente para o adoecimento de mulheres extremamente competentes, mulheres que seguem entregando resultado enquanto emocionalmente tentam apenas sobreviver.
Talvez uma das maiores urgências da nossa geração seja permitir que mulheres possam existir para além da performance.
Porque filhos não precisam crescer observando mães que se anulam para provar amor. E mulheres não deveriam precisar adoecer para validar competência, cuidado ou valor.
Uma criança não aprende apenas com aquilo que a mãe oferece. Ela também aprende observando a forma como essa mulher existe no mundo.
Que tipo de amor, e que tipo de sociedade, estamos construindo quando mulheres precisam desaparecer de si mesmas para conseguir sustentar tudo?
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