A importância estratégica da economia florestal brasileira
* Por Tiago Ricci
O fortalecimento da economia florestal brasileira é um dos caminhos mais relevantes e ainda pouco explorados para promover desenvolvimento econômico, inclusão social e proteção ambiental.
O Brasil abriga cerca de 496 milhões de hectares de áreas naturais, o equivalente a aproximadamente 58,5% do seu território, uma extensão superior à área total de países como a Índia.
Esse patrimônio inclui cerca de 60% da Floresta Amazônica e outros biomas estratégicos para a regulação do clima, a conservação da biodiversidade e a oferta de serviços ecossistêmicos essenciais.
Ao mesmo tempo, as regiões que concentram essa riqueza seguem enfrentando desafios socioeconômicos persistentes, com baixos índices de desenvolvimento humano e participação limitada na geração de renda nacional.
A ciência climática é clara quanto ao papel indispensável desses ecossistemas para a estabilidade do clima global.
Além de funcionarem como grandes sumidouros de carbono, eles regulam ciclos hidrológicos que sustentam a agricultura, a geração de energia hidrelétrica e o abastecimento urbano em grande parte do território brasileiro.
A degradação desses ambientes aumenta a imprevisibilidade climática, eleva custos de seguro agrícola, compromete a segurança alimentar e amplia riscos sistêmicos para a economia.
Segundo o Fórum Econômico Mundial, mais da metade do Produto Interno Bruto mundial depende, de forma moderada ou alta, dos serviços prestados pela natureza, o que evidencia que esses ativos não são apenas ambientais, mas financeiros.
Estimativas da Organização das Nações Unidas para o Meio Ambiente indicam que os serviços associados à conservação, restauração e uso sustentável da natureza movimentam globalmente valores da ordem de dezenas de trilhões de dólares por ano.
No Brasil, cadeias da bioeconomia ligadas a produtos da sociobiodiversidade, sistemas produtivos integrados e tecnologias baseadas em ativos ambientais já movimentam bilhões de reais e têm impacto direto na geração de renda local, especialmente na Região Norte.
Nesse contexto, ganha relevância o conjunto de atividades associadas às soluções baseadas na natureza, que incluem restauração de ecossistemas, manejo sustentável do solo, bioeconomia, biotecnologia, sistemas agroflorestais e valorização de serviços ambientais.
Relatório do World Resources Institute aponta que essas soluções podem responder por até um terço das ações necessárias para enfrentar a crise climática global até 2030, ao mesmo tempo em que geram emprego, renda e resiliência econômica.
No caso brasileiro, estudos conduzidos por universidades e centros de pesquisa internacionais indicam que ações desse tipo podem representar até 80% do esforço necessário para que o país alcance a neutralidade climática até 2050, com custos relativamente mais baixos do que alternativas puramente tecnológicas.
O mercado de carbono se insere nesse cenário como um dos instrumentos capazes de dar escala e previsibilidade econômica a essas estratégias, ao precificar a redução e a remoção de emissões associadas à conservação e à restauração de áreas naturais.
Ele não substitui outras formas de geração de valor, mas pode complementar e fortalecer iniciativas de soluções baseadas na natureza, atraindo investimentos e criando fluxos financeiros recorrentes para territórios que historicamente ficaram à margem dos mercados formais.
Experiências em estados brasileiros e iniciativas internacionais mostram que esses mecanismos podem mobilizar centenas de milhões de reais quando integrados a políticas públicas e marcos regulatórios claros.
No âmbito internacional, o Brasil assumiu metas relevantes ao se comprometer, em sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), a restaurar cerca de 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030.
Trata-se de um esforço de escala continental, com potencial de mobilizar investimentos expressivos, gerar empregos e fortalecer economias locais.
Estudo da Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica, apoiado pela The Nature Conservancy, indica que a restauração em larga escala pode criar milhões de postos de trabalho diretos e indiretos, especialmente em regiões rurais, ao mesmo tempo em que amplia a resiliência climática do país.
É nesse ponto que a economia florestal precisa ganhar centralidade no debate político. Em 2026, o Brasil terá eleições nacionais, em um momento em que crescimento, geração de empregos e estabilidade fiscal estarão no centro das discussões.
Ignorar o papel estratégico da renda baseada em ativos naturais significa abrir mão de uma das poucas agendas capazes de combinar desenvolvimento regional, competitividade internacional e redução de riscos climáticos.
Políticas públicas voltadas à conservação, restauração e uso sustentável do território não são apenas medidas ambientais, mas instrumentos econômicos essenciais.
A incorporação dessa agenda nos programas de governo é condição necessária para garantir previsibilidade regulatória, atrair investimentos e consolidar cadeias produtivas sustentáveis.
Incentivos à bioeconomia, à inovação tecnológica associada à natureza, ao mercado de carbono e aos mecanismos de pagamento por serviços ambientais podem transformar esses ativos em motores estruturantes de crescimento econômico.
Para regiões como a Amazônia, isso representa a possibilidade de construir uma trajetória de desenvolvimento alinhada à sua realidade territorial e social, sem repetir modelos baseados na degradação de recursos.
Colocar a economia florestal no centro do debate político não é uma escolha opcional, mas uma necessidade estratégica.
Trata-se de reconhecer que a sustentabilidade financeira do Brasil está diretamente ligada à integridade de seus ecossistemas e à capacidade de transformar conservação em valor, renda e oportunidades.
Em um cenário de crescente pressão climática e econômica, essa agenda deixa de ser periférica e passa a ser um dos pilares de qualquer projeto consistente de desenvolvimento nacional.
Tiago Ricci é diretor de produtos da Systemica.
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