Após série de atrasos, Brasil terá primeiro leilão de baterias em dezembro de 2026
A transição energética brasileira está prestes a entrar em uma nova fase. Depois de anos concentrando esforços na expansão das fontes renováveis, o país agora começa a estruturar uma peça considerada chave para sustentar esse crescimento: o armazenamento de energia.
O Ministério de Minas e Energia (MME) publicou na quarta-feira, 3, as diretrizes para o primeiro leilão de baterias da história do Brasil, confirmado para acontecer em dezembro de 2026.
O certame, aguardado pelo setor desde 2024 e adiado em mais de uma ocasião, poderá movimentar mais de R$ 10 bilhões em investimentos e contratar cerca de 2 gigawatts (GW) de capacidade de armazenamento.
O anúncio foi feito pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e ocorre em um momento em que o sistema elétrico enfrenta desafios para acomodar a rápida expansão da geração solar e eólica.
Embora o Brasil tenha se consolidado como uma potência em energias renováveis, essas fontes dependem das condições climáticas e nem sempre coincide com os horários de maior consumo.
É justamente nesse ponto que entram os sistemas de armazenamento por baterias, conhecidos internacionalmente como BESS (Battery Energy Storage Systems).
Na prática, essas estruturas funcionam como grandes reservatórios de energia. Elas armazenam a eletricidade produzida em momentos de abundância como durante horas de maior incidência solar e de vento e a devolvem à rede quando a demanda aumenta ou quando há necessidade de reforçar a estabilidade do sistema.
A tecnologia também é vista como uma solução para um problema cada vez mais frequente no setor: os cortes na geração de energia renovável determinados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e os temidos apagões.
Atualmente, parte da energia produzida por parques eólicos e solares deixa de ser aproveitada por limitações da rede de transmissão ou excesso momentâneo de oferta. Com o armazenamento, essa energia pode ser preservada para uso posterior.
Para especialistas, o leilão representa um marco semelhante ao que o país viveu em ciclos anteriores de expansão das energias renováveis. A diferença é que, desta vez, o foco não está em produzir mais eletricidade, mas em aumentar a flexibilidade e a confiabilidade do sistema.
A corrida bilionária das baterias
Segundo a portaria publicada pelo governo, os projetos vencedores receberão contratos de 15 anos com receita fixa corrigida pela inflação e deverão entrar em operação até agosto de 2028. Os sistemas serão despachados pelo ONS e terão papel estratégico para reforçar a segurança elétrica do país.
A disputa, porém, não se limita ao setor elétrico. O leilão também inaugura uma corrida industrial em um mercado hoje amplamente dominado por fabricantes chineses.
Empresas como a BYD, a CATL e a Huawei figuram entre os principais fornecedores globais de sistemas de armazenamento e devem disputar espaço no mercado brasileiro por meio de parcerias com desenvolvedores interessados em participar do certame.
Para estimular a produção nacional, o MME decidiu dividir a contratação em dois leilões. O primeiro, previsto para 2 de dezembro, será destinado a projetos que atendam critérios de conteúdo local nos equipamentos. Já o segundo, marcado para 4 de dezembro, terá competição aberta.
A medida busca equilibrar a atração de investimentos internacionais com o fortalecimento da indústria brasileira.
Entre as empresas nacionais apontadas pelo mercado como potenciais beneficiárias da expansão do setor estão a WEG e a Moura, que vêm ampliando sua atuação em soluções de armazenamento e eletrificação.
Na avaliação da consultoria Clean Energy Latin America (CELA), o desenho regulatório oferece previsibilidade aos investidores e cria as bases para o desenvolvimento acelerado do mercado.
"Para o investidor, é previsibilidade. Para o sistema, é flexibilidade. Para o setor, é o início de um mercado que vai crescer rápido", afirmou a consultoria em um post divulgado no Linkedin.
Segundo a CELA, fatores como a disponibilidade de conexão à rede elétrica, a estratégia de precificação e o cumprimento dos critérios de nacionalização exigidos para financiamento pelo BNDES devem ser determinantes para a competitividade dos projetos.
A expectativa é que o leilão atraia o interesse de geradoras, transmissoras, fabricantes de equipamentos e fundos de investimento que vêm acompanhando a evolução regulatória do armazenamento.
Para a Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (ABSAE), a publicação das diretrizes representa um avanço histórico para a modernização da matriz elétrica nacional.
"A Portaria é um passo fundamental para a segurança do sistema interligado e a redução dos custos ao consumidor. O cumprimento dos prazos afirmados pelo MME reforça a confiabilidade necessária para atrair investimentos", afirmou em nota, o diretor-executivo da entidade, Fabio Lima.
A organização destaca que o armazenamento passa a integrar de forma definitiva o planejamento da expansão do sistema elétrico brasileiro.
O avanço ocorre em meio aos alertas do próprio ONS sobre riscos crescentes de déficit de potência a partir de 2027, reforçando a percepção de que a solução deixou de ser uma aposta de futuro para se tornar uma necessidade estratégica da transição energética.
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