A influência da arquitetura no sucesso dos restaurantes

Por Júlia Storch 22 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A influência da arquitetura no sucesso dos restaurantes

O catalão Oscar Bosch tem se mostrado mestre na arte de encontrar bons pontos e fazer deles os lugares mais disputados da cidade. Saída do forno há pouco mais de seis meses, a Botega Pepito — que conquistou a fama de lugar imperdível que vale o longo tempo de fila — ainda seria a novidade do chef, não fosse o anúncio do projeto que promete sair ainda neste mês, o Marmotta Pasta Bar, criado em parceria com os sócios Pedro Siqueira e Pedro Oliveira. Para colocar de pé o pequeno espaço, o trio de chefs contratou a dupla João Duayer e Thiago Tavares, da Tadu Arquitetura, que já assinou mais de 190 bares e restaurantes, atendendo à demanda por arquitetura especializada em hospitalidade e gastronomia.

Quem vê a logomarca do pasta bar, uma marmota com ares de fofura, já entende que descontração é um dos pilares do projeto. A casa, que já deu spoilers de apostar nas comidinhas indulgentes com massas e pizzas, apostou no vermelho como identidade da casa, e não apenas nos detalhes. “Já tínhamos feito outro projeto do Pedro Siqueira, no Rio de Janeiro. Ele e os sócios estavam em busca de algo novo, em São Paulo, que dialogasse com a ideia de um Pasta Bar vibrante, que fizesse sentido”, explica João. Ele conta que, desde o início, era fundamental explorar as cores da marca e a ligação entre interior e exterior para que fosse possível que comensais e passantes pudessem se ver de dentro e fora do restaurante.

Os arquitetos afirmam que o risco é criar um espaço bonito no papel, mas pouco funcional na prática, sem entender antes as necessidades do negócio.“Entender o funcionamento de um restaurante é a chave para que o lugar prospere. Um projeto sob medida ajuda a transformar a operação comercial em um lugar que o comensal deseja voltar”, afirma Thiago.

O arquiteto também explica que foi preciso considerar os poucos metros quadrados para acomodar salão, cozinha, estoque seco e refrigerado, circulação de equipe, retirada de pedidos, retorno de louça — áreas que o cliente muitas vezes sequer imagina que existem —, ao mesmo tempo em que é preservado o bem-estar de quem está jantando no salão.

Essa habilidade aparece com clareza em alguns outros trabalhos da dupla. Dentro de uma antiga oficina mecânica, o desafio foi criar o De Segunda — restaurante presente no Guia Michelin comandado pelo casal Gabriel Coelho e Júlia Tricate —, com o desafio de um layout que respeita a estrutura original do edifício, com piso cimentado e azulejos básicos combinados de maneira gráfica.

De Segunda: desafio de um layout que respeita a estrutura original do edifício (Fran Parente/Divulgação)

Atualmente, o restaurante tem uma atmosfera criativa e divertida, e esse projeto deixa clara a importância de traduzir o humor do ambiente, explicam os arquitetos. “Tivemos um longo bate-papo com eles para captar a energia dos chefs e materializá-la em cores e letreiros mais soltos, quase como uma extensão do comportamento da casa”, diz Thiago.

Já no Eleninha, um dos bares mais lotados no Rio de Janeiro, instalado em um casarão antigo, o desafio era outro. Os arquitetos se depararam com um espaço com valor histórico, com paredes de pedra, além de um tamanho limitado para a operação planejada no briefing. A dupla conta que elaborou um estudo preciso para fazer com que cozinha, bar e salão fossem dimensionados para caber onde precisam caber.

Em relação ao mobiliário, decidiram por algo solto para simplificar a ocupação. “Um item que todos reparam é o sofá de veludo verde, que traz um ar de sofisticação e muita identidade para o local”. A dupla conta que elementos marcantes como uma fachada toda vermelha, o tal do sofá de veludo verde e letreiros luminosos são muito fundamentais para trazer identidade e fazer com que a casa seja lembrada, desde que façam sentido com a proposta da casa.

Em vez de esconder a cozinha industrial, o estrelado Oseille resolveu exibi-la como parte do salão, aproximando o comensal dos fogões e bancadas. Lá, senta-se direto no balcão, com vista para a cozinha, e é notável o contraste entre o conforto da cadeira acolchoada e o frio do inox, material predominante da cozinha. “Para trazer ainda mais personalidade, os azulejos que utilizamos são do arsenal pessoal do chef e trazem a sua história para dentro do restaurante”, diz João.

Oseille: jantar frente a frente com a cozinha (João Duayer/Divulgação)

João e Thiago não parecem interessados em fazer restaurantes “instagramáveis” no sentido mais raso do termo, nem em fazer réplicas de um projeto acertado que ficará desinteressante com o tempo. A missão deles está em entender o que cada negócio tem de particular e transformar isso em espaço. “O nosso mantra é: fazemos dentro do orçamento disponível, não apesar dele”, diz João. É uma arquitetura menos interessada em impressionar no render e mais empenhada em fazer sentido às oito da noite de uma sexta-feira lotada”, diz Thiago.

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