A leitura do governo Lula sobre as vitórias da direita na Colômbia e no Peru

Por Ivan Martínez-Vargas 27 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A leitura do governo Lula sobre as vitórias da direita na Colômbia e no Peru

Aliados próximos ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avaliam que, diante da recente eleição de líderes de extrema direita na América do Sul, como Aberlardo de la Espriella na Colômbia e de Keiko Fujimori no Peru, o diálogo e as negociações regionais multilaterais deverão se tornar ainda mais difíceis.

Reservadamente, porém, um integrante do governo afirma que a relação bilateral do Brasil com esses governos será pragmática e que há espaço para cooperação em áreas como infraestrutura, energia, prevenção de desastres e até o combate ao crime.

Se, por um lado, essa chamada "onda azul" no continente torna inviáveis consensos multilaterais no âmbito de organizações como a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e tende a paralisar esses fóruns, por outro, aliados de Lula veem como factíveis avanços bilaterais em temas de consenso.

No Palácio do Planalto, pessoas com acesso ao presidente classificam como positiva a reação inicial de de la Espriella ao cumprimento de Lula por sua vitória nesta quinta-feira. O texto do presidente brasileiro, postado em suas redes sociais, não parabenizava diretamente o político de extrema direita eleito no último domingo, o que foi uma forma de minimizar o risco de uma eventual resposta ofensiva por parte do colombiano.

No texto, o presidente brasileiro parabenizava "o povo colombiano pelo processo democrático e soberano, expresso por sua vontade nas urnas, pela escolha de seu novo presidente Abelardo de la Espriella nas eleições do último domingo". Lula também mencionou que a amizade entre o Brasil e a Colômbia "transcende ideologias" e é "fundamental para a superação de desafios comuns como a preservação da Amazônia, o enfrentamento da pobreza e o combate ao crime organizado".

Abelardo respondeu em tom cordial e pragmático, o que foi visto no Planalto como um bom sinal para a relação que possa desenvolver com Lula a partir de sua posse em agosto.

"Colômbia, com liberdade e ordem, sob o meu mandato, buscará só um objetivo: cumprir a aliança com o povo que, como eu disse na campanha, não é de ideologias e sim de extrema coerência, e isso inclui os nossos vizinhos do Brasil, encabeçados pelo seu presidente Lula", afirmou de la Espriella.

"O Brasil é nosso vizinho, e nossos povos estão unidos não apenas pelos desafios, mas também por virtudes culturais, históricas, ambientais e comerciais que, junto com as atribulações comuns de toda a América, requerem união entre os povos e os governos do continente", disse o colombiano em sua resposta a Lula.

Da peruana Keiko Fujimori, o governo Lula também espera uma relação pragmática e cordial com o Brasil. Diferentemente de Abelardo, que é visto como um outsider com maior risco de radicalização no discurso, a filha de Alberto Fujimori tem duas décadas de atuação política e o amparo de um partido com burocracia própria, apesar de sua ideologia ultraconservadora.

Um integrante do governo afirma que esses países, somados à Bolívia, ao Paraguai, ao Chile e ao Equador, tendem a se comportar de maneira mais pragmática e menos ideológica em relação ao Brasil, uma vez que buscam desenvolver relações comerciais e acessar o mercado consumidor brasileiro. A exceção a esse movimento, afirma o assessor, é o presidente argentino Javier Milei.

Apoiadores de Keiko Fujimori, no Peru: no país, 66% dos eleitores apontam a segurança, tema da campanha de Fujimori, como um dos principais problemas nacionais (Nino de Guzman/AFP/Getty Images)

Áreas de cooperação possível

A cooperação na área de infraestrutura deve prosseguir, a exemplo da Rota Bioceânica, um corredor rodoviário de 2.396 km que conectará o Atlântico ao Pacífico por meio de rodovias no Brasil, no Paraguai e no Chile.

Negócios e conversas relativas à cooperação na área de energia também devem continuar, uma vez que o Brasil é o principal comprador do gás boliviano e mantém a hidrelétrica binacional de Itaipu, por exemplo.

A prevenção de desastres naturais e catástrofes climáticas na região também tende a ser um tema de consenso. O Brasil tem atendido pedidos de ajuda e deve seguir essa política, do mesmo modo que também recebeu o apoio do Uruguai durante as enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, quando o presidente do país vizinho era o liberal Luis Lacalle Pou.

Mesmo na área de combate ao crime organizado, em que o Planalto espera um alinhamento por parte de países governados pela direita com a política dos Estados Unidos, a avaliação é de que esses governos também teriam interesse em trabalhar com o Brasil para desenvolver um modelo integrado latino-americano de cooperação contra facções, por exemplo.

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