A maior desigualdade da China: os aposentados que trabalham no campo

Por Matheus Gonçalves 16 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A maior desigualdade da China: os aposentados que trabalham no campo

Idosos chineses com mais de 60 anos, já aposentados, continuam a arar seus campos, plantando e colhendo à mão hortaliças e frutas para a venda em centros metropolitanos a horas de distância de suas fazendas. Se não o fizerem, a vasta maioria desses idosos não terá dinheiro para sobreviver ao mês.

A pensão básica para aposentados sem emprego formal — categoria que inclui quase todos os agricultores — é de 163 yuans (cerca de 119 reais) por mês. Enquanto isso, a pensão média mensal para aposentados de empresas urbanas é de 3.500 yuans (R$ 2563) e, para ex-funcionários públicos, de quase 7.000 yuans (R$ 5.124).

As pensões para fazendeiros são, efetivamente, um programa fiscal de apoio do governo, cuja cifra é decidida e regulada exclusivamente pelo Estado. Para aposentados com cargos urbanos, todavia, aspectos como as contribuições individuais e os impostos sobre o salário afetam o tamanho do pagamento. Além disso, trabalhadores rurais pagavam um imposto adicional até 2006, que foi abolido sem compensação em seus benefícios.

O resultado é uma diferença significativa nos padrões de vida nas cidades e nos campos na China, um país que se orgulha por ter erradicado a pobreza extrema – caracterizada por pessoas vivendo com menos de US$ 2.10 por dia – dentro de seu território em 2020. Apesar da vitória, apuração da revista britânica The Economist indica que mais de 80% dos residentes rurais chineses aptos para o trabalho, com idades entre 60 e 80 anos, ainda exercem trabalho braçal nos campos.

Por que a situação é tão precária para a população rural?

Parte do motivo é uma resistência por parte do governo contra a criação de um estado de bem-estar social universal. Dobrar a pequena cifra para todos os fazendeiros aposentados consumiria 3% do orçamento nacional, segundo a The Economist, interrompendo os vastos projetos de infraestrutura que a China valoriza, tanto em seu território quanto pelo mundo, como a Iniciativa Cinturão e Rota.

Apoiadores das mudanças descrevem o problema como uma questão mais de justiça e reparação histórica do que de economia. Milhões de residentes rurais passaram suas juventudes como trabalhadores migrantes, trabalhando por todo o país, construindo parte essencial da infraestrutura da China moderna. Outros acreditam que um interior mais rico estimularia o mercado interno – parte fundamental do atual plano quinquenal da China – ao aumentar o consumo rural.

A pauta parece estar ganhando tração parlamentar, tornando-se um ponto quente nas discussões do Parlamento no mês passado. Ao menos 34 representantes fizeram propostas separadas, que obtiveram um pequeno aumento de 20 yuans (cerca de 14 reais) por mês. Mesmo assim, o assunto segue tenso, e acadêmicos chineses que apresentam ensaios expondo as dificuldades e argumentam por condições melhores são ridicularizados e altamente criticados.

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