A maior estreia da A24: Como 'Backrooms' saiu da internet para arrecadar US$ 118 mi nos cinemas?
Antes de despertar o interesse da indústria cinematográfica, os "Backrooms" já eram um fenômeno consolidado na internet.
A origem desse universo ligado ao chamado terror liminar — termo associado à sensação desconfortável de estar em um espaço de transição — remonta a uma única fotografia. A imagem mostrava corredores vazios, com paredes amareladas e iluminação típica de escritórios. Publicada em 2019 no fórum 4chan, ela veio acompanhada de uma legenda que ajudou a impulsionar o conceito.
A publicação deu origem a uma das creepypastas mais conhecidas da internet. Esse tipo de narrativa colaborativa funciona como uma lenda urbana digital, na qual histórias são compartilhadas, reinterpretadas e ampliadas por usuários ao longo do tempo. Dentro da mitologia dos "Backrooms", pessoas ficam presas em uma sequência aparentemente infinita de corredores e ambientes industriais sem saída.
Com o passar dos anos, o conceito ultrapassou os limites dos fóruns de discussão e alcançou diferentes formatos de entretenimento. A influência chegou até produções como a série "Ruptura", da Apple TV. O universo criado pelos fãs passou a reunir jogos, produtos licenciados e inúmeras interpretações produzidas por usuários ao redor do mundo, cada uma acrescentando novos perigos, regras e criaturas.
Agora, os "Backrooms" servem de base para uma produção de grande alcance em Hollywood. O filme "Backrooms - Um Não-Lugar", produzido pela A24 e estrelado por dois atores indicados ao Oscar, teve orçamento estimado em US$ 10 milhões. O avanço da franquia para o cinema, mas, gerou questionamentos entre parte da comunidade que ajudou a construir a história.
As dúvidas vão além da adaptação para um longa-metragem. Entre os fãs, uma das principais discussões envolve a propriedade intelectual do universo criado coletivamente na internet.
Do ponto de vista jurídico, especialistas apontam que ninguém pode reivindicar a posse exclusiva da ideia central dos "Backrooms". As leis de direitos autorais protegem obras e expressões criativas específicas, não conceitos abstratos. Esse entendimento permitiu que a mitologia fosse ampliada por diferentes autores ao longo dos anos.
“Se você compartilha suas ideias abertamente em público, qualquer pessoa pode usá-las”, afirma Rebecca Tushnet, professora de Direito da Primeira Emenda na Faculdade de Direito de Harvard, em entrevista à Bloomberg. Segundo ela, criadores podem registrar elementos originais desenvolvidos a partir dessas ideias.
A transformação de um projeto coletivo em uma propriedade explorada comercialmente costuma gerar reações ambíguas. Ao mesmo tempo em que existe reconhecimento pelo sucesso alcançado, surgem questionamentos quando grandes empresas passam a representar uma criação que antes era vista como pertencente à comunidade.
Embora centenas de vídeos sobre os "Backrooms" tenham sido produzidos por usuários anônimos, Kane Parsons ganhou destaque em 2022 ao apresentar sua própria interpretação do conceito. Na época com 16 anos, ele lançou uma série de vídeos que ultrapassou 224 milhões de visualizações distribuídas em 22 publicações. O sucesso chamou a atenção de Hollywood e levou a A24 a escolhê-lo para dirigir a adaptação cinematográfica. O filme chegará aos cinemas poucas semanas antes de Parsons completar 21 anos.
Ao adaptar a história para um longa com personagens próprios, como Clark, interpretado por Chiwetel Ejiofor, proprietário de uma loja de móveis em dificuldades financeiras, e a terapeuta Dra. Mary Kline, vivida por Renate Reinsve, o estúdio passa a deter os direitos sobre essa versão específica da narrativa. A avaliação é de Kristelia García, professora de Direito da Universidade de Georgetown.
Ela ressalta, contudo, que essa situação pode gerar dúvidas sobre os limites do uso da mitologia pelos fãs no futuro. "Pode ter um efeito inibidor tão grande que arruine o espírito com o qual os Backrooms foram originalmente concebidos e criados."
A preocupação é compartilhada por membros antigos da comunidade.
"Imagine ter uma ideia incrível, que você vem teorizando na sua cabeça por anos, e então a publica online. Aí, alguns anos depois, algumas grandes empresas compram os direitos e fazem um filme baseado nela", disse um fã no subreddit de Backrooms. "Os Backrooms não surgiram do nada; surgiram da cabeça de alguém."
Em outros casos semelhantes, como o personagem Slender Man, adaptações cinematográficas dependeram da autorização de seus criadores. Na indústria musical, processos de licenciamento também costumam ser necessários para o uso de remixes e samples, já que a propriedade intelectual pode estar associada a artistas, composições e letras específicas.
O caso dos Backrooms reacende debates sobre autoria e criatividade em comunidades digitais. Parte da discussão envolve determinar se a interpretação desenvolvida por Parsons é suficientemente distinta para transformá-lo na principal referência pública do universo.
"Eu apoiaria que outra pessoa seguisse o caminho de criar sua própria série e interpretação de Backrooms, e que essa pessoa ganhasse um filme", afirmou Parsons durante participação no podcast Reel Talk With Ben O'Shea. Segundo ele, a proposta sempre foi manter a mitologia aberta a novas contribuições. O diretor também descreveu o filme, escrito ao lado de Will Soodik, como uma continuação natural da crescente presença da cultura da internet na indústria do entretenimento.
"Backrooms toca num ponto sensível: a mitologia sempre teve a intenção de permanecer aberta, e seu filme, escrito em parceria com Will Soodik, é apenas uma extensão natural da crescente influência da cultura da internet no entretenimento convencional."
Scott Manson, diretor executivo da North Road, empresa que compartilha os direitos cinematográficos da obra com a A24, argumenta que a propriedade intelectual associada ao projeto possui características diferentes das de obras tradicionais.
“Os fãs podem realmente se sentir donos deste momento, desta interpretação e desta jornada.”
“Porque eles realmente fizeram parte disso”, afirma. “Grande parte disso se deve ao fato de Kane estar completamente em sintonia com esse mundo, com essa comunidade, e saber como honrar a propriedade intelectual enquanto a elevava.”
Hollywood já havia explorado conteúdos surgidos na internet em outras ocasiões. A série Channel Zero, lançada em 2016, utilizou creepypastas e lendas urbanas como base para suas quatro temporadas. Depois vieram produções ligadas ao universo de Slender Man e, agora, Backrooms.
Enquanto isso, a comunidade segue dividida sobre os efeitos da adaptação.
“Estou muito animado com essas adaptações e adoro que mais pessoas sejam apresentadas à história, mas não podemos deixar um estúdio nos tirar o poder de criar nossas próprias histórias dentro do Backrooms”, escreveu um usuário do Reddit após o anúncio do filme. Outro comentou: “Acho bom, mas isso também destrói o Backrooms para qualquer outra pessoa, porque agora pertence a alguém.”
O debate extrapola a questão jurídica e alcança discussões sobre o futuro da criatividade colaborativa na internet. Quando conceitos desenvolvidos fora dos canais tradicionais de entretenimento ganham espaço na indústria, permanece a dúvida sobre o impacto disso na participação dos fãs e na produção de novas interpretações.
Manson avalia que a tendência pode ganhar força em um cenário marcado pela expansão das ferramentas de inteligência artificial generativa.
"Acho que o que é tão empolgante e inegável neste momento", diz ele, além de um talentoso jovem de 20 anos dirigindo um grande sucesso de bilheteria, é "aproveitar a tecnologia, o fandom e a comunidade de forma colaborativa".
"Não estamos focados em questões legais", continua ele. E, no entanto, os produtores também não estão "convidando o mundo a se apropriar desses personagens específicos neste filme".
Maior arrecadação para um filme de terror
"Backrooms - Um Não-Lugar" alcançou US$ 118 milhões em arrecadação global durante o fim de semana de estreia e estabeleceu um novo recorde para produções originais de terror.
Nos Estados Unidos, o filme somou US$ 81 milhões, resultado superior à projeção inicial, que apontava para um máximo de US$ 65 milhões. Produzido com orçamento de US$ 10 milhões, o longa superou as expectativas do mercado.
A produção também registrou a maior estreia da história da A24. O desempenho consolidou Kane Parsons, responsável pelo lançamento do filme aos 20 anos, como o diretor mais jovem a comandar um longa que alcançou a liderança das bilheterias. Entre as marcas atingidas, o título garantiu ainda a quarta maior abertura já registrada por um filme de terror, considerando inclusive continuações de franquias do gênero.
Outro destaque nas salas de cinema foi "Obsessão". Em sua terceira semana em cartaz, o longa voltou a registrar crescimento na venda de ingressos, movimento incomum no mercado exibidor. Dirigido por Curry Barker e produzido com cerca de US$ 750 mil, o filme ampliou sua presença nos cinemas, conquistou novas sessões e já arrecadou quase US$ 150 milhões mundialmente, valor que representa mais de 125 vezes o custo de produção.
Com "Backrooms" e "Obsessão" ocupando a primeira e a segunda posições das bilheterias, respectivamente, ambos sob direção de criadores de conteúdo do YouTube, o novo capítulo da franquia Star Wars perdeu espaço no ranking. Lançado na semana anterior, o filme recuou para o terceiro lugar após registrar queda de 70% na arrecadação.
Chegando aos cinemas sete anos depois de "A Ascensão Skywalker", que era o lançamento mais recente da saga até então, "O Mandaloriano e Grogu" estreou com US$ 82 milhões. O resultado representa a menor abertura da história da franquia Star Wars.
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