A marca esportiva chinesa que quer disputar espaço com Nike e Adidas no Brasil

Por Juliana Pio 11 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A marca esportiva chinesa que quer disputar espaço com Nike e Adidas no Brasil

A marca chinesa de artigos esportivos 361° quer ampliar presença no Brasil sem repetir o modelo das gigantes globais do setor. Em vez de iniciar com uma operação de grande escala, avança de forma gradual, testa canais, estrutura a rede comercial e aposta em um posicionamento que combina performance, preços competitivos e proximidade com o varejo.

Qualquer semelhança com o movimento de montadoras chinesas no mercado automotivo brasileiro não é mera coincidência. A ambição também é grande: disputar espaço com nomes como Nike e Adidas e, até 2035, figurar entre as cinco maiores marcas esportivas do mundo.

“Hoje, a 361° está na 13ª posição global em faturamento”, diz Sergio Baccaro, general manager da empresa para o mercado Latam. A meta regional é fazer com que a América Latina responda por pelo menos 10% da receita global até 2030. No meio desse plano, o Brasil aparece como peça central.

“O país deve se tornar em breve o maior mercado”, afirma o executivo. Segundo ele, a operação local cresce, em média, 40% ao ano, enquanto os distribuidores da marca na região avançam em torno de 50% ao ano.

A 361° nasceu oficialmente em 2003, em Xiamen, na China, mas sua origem está na indústria. Antes disso, a empresa operava como fabricante para grandes marcas globais. “Não vou citar nomes, mas é possível imaginar”, brinca Baccaro. A decisão de lançar uma marca própria veio a partir desse know-how técnico.

Três anos depois, em 2006, a companhia abriu capital na Bolsa de Hong Kong, acelerando sua expansão no mercado asiático. Durante esse período, consolidou presença na China e em outros países da Ásia, com foco em escala produtiva e desenvolvimento tecnológico.

A entrada fora do continente asiático ocorreu de forma planejada. Antes de ganhar visibilidade global, a 361° já havia iniciado sua estruturação no Ocidente, com presença nos Estados Unidos, Europa e América Latina. Em 2016, a marca ampliou essa exposição ao patrocinar os Jogos Olímpicos do Rio, que funcionaram como vitrine internacional.

Expansão na América Latina

Na América Latina, a 361° avançou primeiro por mercados como Paraguai, México, Argentina e Colômbia, com operações conduzidas por distribuidores locais. “Em alguns casos, são os mesmos que já trabalhavam com gigantes globais como a Nike”, diz Bacaro.

O Brasil ficou para uma etapa posterior. “Foi um dos últimos mercados em que a gente entrou, em 2014, porque foi necessário desenvolver estratégias para viabilizar a venda e manter o produto acessível. O calçado chinês paga US$ 10,22 por par em antidumping, o que impacta a operação. Além disso, o varejo brasileiro tinha suas complexidades”, afirma.

Naquele momento, a operação dependia integralmente da produção na China, o que pressionava preços no país. Em paralelo, a companhia passou a adaptar produtos ao consumidor ocidental e a diversificar a produção para fora do país asiático, inicialmente no Vietnã e, mais recentemente, também na Indonésia, como forma de atender a América Latina e reduzir o impacto do antidumping. “Hoje, nossos produtos têm preços muito similares aos das grandes marcas, mas ainda estamos sujeitos a essa regra”, diz o executivo.

A operação brasileira foi interrompida no fim de 2019, durante uma reorganização global, enquanto a empresa priorizava outros mercados da região. Após alguns anos sem presença estruturada no país, a 361° retomou a atuação em 2024, inicialmente com foco em e-commerce próprio e marketplaces. Em 2025, começou a avançar para o varejo físico. Agora, inicia uma nova etapa, com a formação de uma equipe comercial dedicada.

Tênis da 361°: empresa amplia operação no Brasil e mira crescimento no varejo esportivo (Divulgação)

Preço e tecnologia na disputa pelo consumidor

A 361° soma mais de 10 mil lojas no mundo, cerca de 8.500 delas na China, e presença em mais de 60 países. “Se você olhar a Bolsa de Hong Kong, o crescimento das ações da 361° nos últimos quatro ou cinco anos supera 400%. Estamos entre as três maiores marcas esportivas chinesas, ao lado de Anta Sports (que comprou 29% da Puma) e Li-Ning”, diz o general manager.

A aposta da companhia combina expansão global com ciclos mais rápidos de inovação. Segundo o executivo, a concorrência no mercado chinês pressiona as marcas locais a lançar novas coleções a cada três meses, com mudanças tecnológicas efetivas, e não apenas alterações de cor ou design. “Marcas ocidentais costumam manter a mesma tecnologia por quatro, cinco, às vezes dez anos”, afirma.

Um dos diferenciais da 361° está na tecnologia aplicada à entressola dos calçados. A empresa utiliza a espuma CQT EXTREM3, desenvolvida para combinar absorção de impacto, retorno de energia e estabilidade, com promessa de recuperação rápida após a compressão e maior durabilidade do amortecimento.

No Brasil, o modelo de running mais premium custa R$ 1.699, e a empresa prepara o lançamento de um produto a R$ 1.999. Mesmo nessa faixa, Baccaro afirma que a diferença para concorrentes pode variar entre R$ 600 e R$ 700 em itens comparáveis.

O novo modelo topo de linha terá cerca de 130 gramas e durabilidade estimada entre oito e dez maratonas. “Oferecemos um produto com mais tecnologia por um preço, no mínimo, 20% mais baixo”, diz. A comparação também chega aos modelos de entrada. Ele cita a linha Corre, da Olympikus, como referência no mercado brasileiro, e afirma que a 361° oferece um concorrente por R$ 100 a menos.

Distribuição e presença no varejo

Globalmente, o portfólio inclui linhas casuais, produtos para montanha, natação e acessórios esportivos. Na China, a categoria infantil representa cerca de 15% das vendas. No Brasil, a operação segue concentrada em running e basquete, com desdobramentos em trilha e lifestyle. Hoje, os produtos são vendidos no site oficial, na Netshoes e em redes físicas como Centauro, NBA Store e Velocità.

Em março, a 361º intensificou a expansão no país com a contratação de representantes comerciais em estados como São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro e Espírito Santo. A missão da equipe é ampliar a presença no varejo esportivo e fechar parcerias com redes multimarcas e pontos de venda especializados. Ainda não há planos para abertura de lojas próprias.

Segundo Baccaro, varejistas passaram a procurar a marca após identificarem demanda online, especialmente por produtos de basquete ligados ao jogador Nikola Jokic, patrocinado pela empresa. “Precisamos segurar a ansiedade desses parceiros até estruturar a operação. Agora, começamos a atender o mercado”, diz.

Desafio de marca

Se a distribuição começa a ganhar escala, o principal desafio da 361° ainda é ampliar o reconhecimento da marca no Brasil. O investimento em marketing cresceu entre 35% e 40% no último ano e deve avançar mais 25% a 30% em 2026, afirma Camila Pinheiro, gerente de marketing para a América Latina.

A estratégia combina construção de marca na região, geração de demanda, experiência e comunidade. “Tudo o que a gente vem fazendo é para ganhar awareness, alcance e apresentar a marca. Estamos falando do consumidor latino-americano, que possui suas peculiaridades, a depender do país”, diz.

Fora do Brasil, a 361° aposta em ativações em corridas, presença em maratonas internacionais, como Berlim, Tóquio e Nova York, além de patrocínios esportivos. Na América Latina, fechou recentemente um acordo com o Comitê Olímpico do Uruguai.

No mercado brasileiro, o foco está em eventos proprietários. Em janeiro, a marca realizou em São Paulo o “Made in China”, criado para apresentar a linha Flame. A iniciativa reuniu treinão de corrida e experiências inspiradas no Ano Novo Chinês, com música, gastronomia e elementos culturais.

A ação integra o esforço de transformar a origem da marca em ativo em um mercado que passou a valorizar mais percepção técnica. “A gente tem orgulho de ser made in China”, afirma Pinheiro. A estratégia de comunicação prioriza corredores, assessorias esportivas e atletas, em vez de influenciadores mais generalistas.

Enquanto concorrentes concentram investimentos em campanhas ligadas à Copa do Mundo de 2026, a 361° quer falar de reforçar atributos de performance e produto. Segundo a executiva, o próprio nome da marca remete à ideia de ir “um grau além”, usando o círculo como símbolo de evolução contínua. “O importante é incentivar as pessoas a evoluírem dentro do próprio ritmo”, diz.

Outro eixo da estratégia é ampliar a experimentação física dos produtos, principalmente em categorias de tíquete mais alto, em que o contato direto ainda pesa na decisão de compra. A empresa também tenta reduzir barreiras de entrada com atendimento local. A estrutura montada em São Paulo atende a operação latino-americana e concentra suporte via SAC, Instagram e TikTok, com foco em esclarecer dúvidas técnicas sobre os produtos.

Brasil vira peça-chave para expansão

No primeiro semestre de 2025, a 361° registrou receita global de RMB 5,70 bilhões (US$ 818,6 milhões), alta de 11% em relação ao mesmo período do ano anterior. O lucro atribuível aos acionistas cresceu 9%, para RMB 858 milhões (US$ 123,2 milhões).

O desempenho foi impulsionado pelo avanço de 45% do e-commerce, que alcançou RMB 1,82 bilhão (US$ 261,4 milhões), e pela divisão 361° Kids, com receita de RMB 1,26 bilhão (US$ 180,9 milhões). Em 2024, considerando o ano completo, a companhia encerrou o período com receita total de RMB 10,07 bilhões (US$ 1,45 bilhão).

A operação regional, diz Baccaro, acompanha o ritmo global de crescimento, com o Brasil visto como um dos principais mercados pelo tamanho da base consumidora e pelo potencial da categoria esportiva. México, Argentina e Colômbia também aparecem entre os mercados mais relevantes da região.

A empresa já opera em quase toda a América Latina, com exceção de Venezuela e Bolívia. No Paraguai, a participação proporcional supera a do México. “Muitos distribuidores já entenderam que uma grande parte do futuro desse mercado vai pertencer às marcas asiáticas”, afirma Baccaro.

A operação brasileira ainda é enxuta. O escritório na capital paulista reúne seis pessoas, enquanto produção e logística seguem concentradas na China. A estratégia é concentrar investimentos em presença comercial e relacionamento com distribuidores e varejistas.

A companhia também avalia iniciar produção no Brasil. O projeto está em fase avançada de estudo e envolve o desafio de estruturar uma cadeia local capaz de sustentar a fabricação de calçados esportivos de performance. Ainda assim, a empresa afirma já manter conversas com parceiros brasileiros para viabilizar a operação.

“Há dez anos, vender um calçado chinês era mais difícil e ainda exigia superar barreiras de percepção”, afirma Baccaro. A expectativa, diz ele, é ganhar escala à medida que a distribuição avança e a marca amplia reconhecimento no país.

Os planos incluem expansão para novas categorias, como confecção de performance e linhas mais acessíveis. A aposta da 361° é que a combinação de tecnologia, velocidade de desenvolvimento, preços competitivos e proximidade com varejo e consumidor ajude a repetir no mercado esportivo o avanço já observado de marcas chinesas em setores como eletrônicos e automóveis.

“Se eu te dissesse há dez ou quinze anos que uma marca chinesa poderia vender mais do que Ford, Chevrolet ou Volkswagen, provavelmente ninguém acreditaria. Hoje, quando digo que uma marca esportiva chinesa pode disputar espaço com Nike e Adidas, ainda soa estranho, mas é um movimento que não tem mais volta”, finaliza.

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