NR-1: 58,9% das empresas dizem cuidar da saúde mental, mas não monitoram
Às vésperas da entrada em vigor da NR-1, um novo levantamento escancara um desalinhamento dentro das empresas brasileiras: o discurso sobre saúde mental evoluiu, mas a prática ainda está longe de acompanhar.
Dados do "Anuário de Benefícios e Práticas Corporativas", realizado pela Swile Brasil em parceria com a Leme Consultoria e Poli Júnior, mostram que 58,9% das empresas afirmam estar preparadas para lidar com a saúde mental dos funcionários.
Na prática, porém, os indicadores que sustentariam esse preparo ainda são pouco monitorados: apenas 23% acompanham o clima organizacional e só 11,7% controlam horas extras, um dos principais sinais de sobrecarga no trabalho.
Para Josiane Lima, diretora de RH da Swile Brasil, o cenário revela um descompasso claro entre percepção e realidade.
“O discurso aponta para o preparo, mas na prática muitos RHs ainda ignoram indicadores que evidenciam sobrecarga, desgaste e insatisfação no ambiente de trabalho”, afirma.
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Saúde mental vira obrigação e não mais benefício
A atualização da NR-1 marca uma mudança estrutural: saúde mental deixa de ser um tema aspiracional e passa a exigir gestão baseada em dados, monitoramento contínuo e ações práticas.
“Saúde mental deixa de ser discurso e passa realmente a ser gestão com dados. E dado precisa virar decisão”, diz Lima.
Na prática, isso significa acompanhar indicadores como:
Mesmo assim, o estudo mostra que apenas 44% das empresas monitoram turnover, um dado essencial para entender por que profissionais estão deixando a organização.
Liderança é o ponto crítico da equação
Se a NR-1 pressiona o RH, ela também reposiciona a liderança como peça central na execução. Isso porque, no dia a dia, são os gestores que determinam a experiência real do funcionário.
“No final do dia, as pessoas saem das organizações por causa do gestor”, diz Lima.
Sem líderes preparados, os dados não se transformam em ação.
“Sem liderança, os dados não viram ação. O líder é a empresa no dia a dia.”
Entre os principais fatores de risco estão:
Esses fatores, segundo Lima, somados, podem levar ao adoecimento emocional mesmo em empresas com bons benefícios.
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Horas extras: o risco silencioso que vira passivo
Um dos sinais mais claros de desalinhamento está na gestão das horas extras.
Hoje, elas já representam cerca de 40% das ações trabalhistas no Brasil, somando mais de 70 mil processos em 2024.
Ainda assim, são negligenciadas por boa parte das empresas.
“Reduzir hora extra não tem outro caminho que não acompanhar dados. Se está aumentando, algo precisa ser feito, seja reorganizar o trabalho ou preparar melhor o time”, afirma Lima.
A recomendação é integrar dados à operação por meio de times de HR Business Partners (BPs), com atuação próxima às lideranças.
Uma crise que já impacta o negócio
O avanço da regulação acompanha um cenário preocupante no país.
O Brasil registrou mais de 530 mil afastamentos por transtornos mentais em 2025, o maior número da história, segundo o Ministério da Previdência Social.
Para Lima, esse número reflete uma transformação mais ampla na relação com o trabalho.
“As pessoas passaram a enxergar o trabalho de uma forma diferente. As novas gerações querem outras coisas, e isso impacta diretamente o ambiente corporativo.”
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Os 3 riscos que as empresas estão expostas
Ignorar a saúde mental pode custar caro, e não apenas do ponto de vista regulatório.
Segundo a executiva, há três riscos principais:
Isso porque o comportamento dos trabalhadores já mudou.
Dados do estudo mostram que 85% dos profissionais deixariam empresas que não priorizam o bem-estar, um sinal de que o tema já influencia diretamente decisões de carreira.
“Os talentos vão escolher onde querem trabalhar. E se a empresa não oferecer um ambiente saudável, ela perde essas pessoas”, afirma.
Benefícios não resolvem sozinhos
Apesar do avanço na oferta de benefícios e planos de carreira, presentes em 72% das empresas, isso não garante bem-estar no dia a dia.
“Não necessariamente só um pacote de benefícios vai trazer bem-estar”, diz Lima.
A solução passa por uma abordagem mais ampla, que inclui:
“O segredo é olhar a experiência do funcionário de maneira 360,” diz.
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O recado final: o risco é não enxergar a realidade
Apesar do cenário desafiador, a orientação de Lima é começar agora a se preparar para a NR-1, mesmo sem a estrutura perfeita.
“O maior risco hoje não é não ter política. É não ter leitura da realidade”, afirma Lima.
Com a NR-1, saúde mental deixa de ser promessa e passa a ser responsabilidade concreta das empresas. E, a partir de agora, não será mais o discurso que definirá quem está preparado, mas os dados.
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