A Nasa quer Plutão de volta. Mas, para a ciência, não é tão fácil assim
Há 96 anos, um astrônomo americano chamado Clyde Tombaugh apontou seu telescópio para um ponto escuro do céu e descobriu o que o mundo logo chamaria de nono planeta do Sistema Solar.
Em 2006, uma votação de astrônomos reunidos em Praga desfez isso. Foi naquele momento, então, que Plutão deixou de ser planeta.
Agora, quase duas décadas depois, o chefe da Nasa quer reabrir o caso.
"Sou totalmente do time Make Pluto a Planet Again ['faça Plutão um planeta novamente', na tradução literal]", disse Jared Isaacman, administrador da Nasa, durante audiência no Senado americano na terça-feira, 28.
Isaacman afirmou que a agência produz estudos formais para "escalar essa discussão para a comunidade científica" e "garantir que Clyde Tombaugh receba o crédito que um dia teve e merece voltar a ter".
A declaração gerou reações imediatas, de apoio nostálgico a críticas de astrônomos que consideram o debate encerrado. A questão de fundo segue aberta, já que a ciência nunca chegou a um consenso completo.
Como Plutão perdeu o título
A história começa com a descoberta de Eris, em 2005. Mike Brown, astrônomo do Caltech, identificou um objeto no Cinturão de Kuiper tão grande quanto Plutão.
Brown anunciou ter encontrado o "décimo planeta". A União Astronômica Internacional (IAU, na sigla em inglês), viu-se obrigada a responder.
Se Eris fosse planeta, dezenas de outros objetos similares também poderiam entrar na mesma categoria.
Em agosto de 2006, durante congresso em Praga, a entidade adotou uma nova definição com três critérios: orbitar o Sol, ter forma esférica própria e "limpar a vizinhança" de sua órbita de outros corpos.
O terceiro critério foi decisivo para Plutão. O corpo celeste compartilha o espaço do Cinturão de Kuiper com outros planetas anões, o que o desqualificou.
A reação foi imediata. Três estados americanos protestaram formalmente contra a decisão da IAU. O Novo México declarou um "Dia do Planeta Plutão".
O dicionário de gírias americano ganhou um novo verbo: ser "plutonizado", ou seja, rebaixado de forma humilhante.
O problema com a definição
A decisão da IAU foi contestada desde o início dentro da própria comunidade científica.
Alan Stern, cientista-chefe da missão New Horizons, chamou o rebaixamento de "enormemente prejudicial".
Em 2018, Philip Metzger, físico planetário da Universidade da Flórida Central, e colegas publicaram um artigo no periódico Icarus.
O estudo analisou mais de dois séculos de literatura astronômica e concluiu que o critério de "limpar a órbita" quase não aparece na pesquisa real de ciência planetária.
Metzger descreveu Plutão no trabalho como um mundo "mais dinâmico e vivo do que Marte".
O argumento central dos críticos da IAU é técnico: a entidade não especificou o que significa "limpar a vizinhança".
Se o critério for tomado literalmente, nenhum planeta do Sistema Solar eliminou completamente outros objetos de sua órbita, nem a Terra, nem Júpiter.
Em 2021, Metzger liderou outro estudo no Icarus, em coautoria com Alan Stern e outros pesquisadores.
O grupo analisou 400 anos de definições de planeta desde Galileu. A conclusão foi que a definição geofísica, baseada nas propriedades internas do corpo celeste, foi a mais usada na literatura científica.
Sob essa definição, o Sistema Solar teria provavelmente mais de 150 planetas, incluindo Plutão, luas grandes como Titã e Europa, e corpos similares.
O que a New Horizons revelou
O debate ganhou nova camada em julho de 2015, quando a sonda New Horizons fez o primeiro sobrevoo histórico de Plutão após nove anos de viagem.
A missão revelou um mundo geologicamente ativo, com montanhas geladas, planícies de nitrogênio e indícios de atividade geológica contínua.
A atmosfera de Plutão, composta por nitrogênio, metano e monóxido de carbono, apresentou camadas sobrepostas de névoa e fenômenos climáticos antes desconhecidos.
Uma das descobertas mais conhecidas foi uma formação em formato de coração na superfície, batizada de Tombaugh Regio em homenagem ao descobridor.
Dados da missão sugerem que um oceano subterrâneo de água líquida pode existir sob a crosta de Plutão.
A maior lua de Plutão, Caronte, também revelou história geológica complexa, com fendas gigantes e sinais de antigos oceanos subterrâneos.
Para Stern e outros defensores de Plutão, um mundo com atmosfera em camadas, geologia ativa, cinco luas, possível oceano interno e compostos orgânicos merece outra classificação.
A reação ao discurso de Isaacman
Nem todos receberam bem o anúncio do chefe da Nasa.
Mike Brown, o astrônomo do Caltech que descobriu Eris, disse ao jornal The Independent que cientistas da área continuarão a classificar objetos do Sistema Solar da forma que ajude a entender o mundo.
Bill McKinnon, diretor do Centro McDonnell de Ciências do Espaço da Universidade de Washington em St. Louis, classificou o debate como "uma perda de tempo".
McKinnon admitiu que Plutão é um planeta, mas "um planeta anão, uma subespécie de planeta".
O orçamento que Isaacman defendia no Senado no mesmo dia proporia cortes de quase metade do orçamento científico da Nasa. A redução poderia atingir a própria missão New Horizons.
A decisão final não cabe à Nasa. Cabe à IAU, que não deu sinais de que pretende reabrir a questão.
Com o chefe da maior agência espacial do mundo publicamente no time de Plutão e estudos revisados em periódicos científicos questionando os critérios de 2006, o debate segue aberto.
Clyde Tombaugh descobriu Plutão aos 24 anos, em um observatório no Arizona. Ele morreu em 1997, nove anos antes do rebaixamento.
Parte de suas cinzas viaja a bordo da New Horizons, rumo às fronteiras do Sistema Solar.
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