A nova aposta de uma marca de salgadinhos que desafia gigantes e fatura R$ 130 milhões
O mercado brasileiro de salgadinhos ainda tem muito espaço para crescer. O consumo per capita no país é de 1,8 quilo por ano — cerca de 3 pacotes por mês —, enquanto no México chega a 4,5 quilos e a média global ultrapassa 5 quilos, segundo a Abre, a Associação Brasileira de Embalagem.
É nesse intervalo que empresas nacionais tentam ganhar terreno contra multinacionais.
A Milho de Ouro, fabricante da marca Lobits e empresa familiar fundada em 1992 em Embu das Artes, na Grande São Paulo, é uma delas.
Com 230 funcionários e duas fábricas, a companhia produz mais de 700 toneladas de salgadinhos por mês e fechou 2025 com 130 milhões de reais em faturamento — crescimento de 30% sobre o ano anterior.
Neste ano, para crescer, a aposta é vender pacotes cada vez maiores.
A embalagem de 200 gramas, o formato família da Lobits, representa entre 18% e 20% do faturamento total. Agora, a empresa acaba de lançar novos sabores para fazer com que esse produto represente 30% até o fim de 2026.
"Nosso foco é oferecer salgadinhos de qualidade a um preço mais acessível. Muitas vezes o consumidor quer ter opções, mas encontra barreiras de preço. Atuamos para ampliar o acesso, oferecendo alternativas de qualidade com valor justo", diz Pedro Rodrigues, diretor comercial da Milho de Ouro e membro da segunda geração da família fundadora.
O plano é crescer sem mudar o que funcionou.
A Lobits já ocupa a segunda posição em salgadinhos de milho nas embalagens menores da Grande São Paulo, segundo a Scanntech, empresa de inteligência de dados para o varejo.
A taxa de crescimento da marca nas regiões Sul e Sudeste é de 16,7% ao ano — mais que o dobro da média de mercado, de 7,8%.
A aposta na embalagem de 200 gramas é, em parte, uma tentativa de replicar esse ritmo em um formato com ticket mais alto e maior penetração nos lares.
Como tudo começou
Nunca esteve nos planos da família Rodrigues entrar no mercado de salgadinhos.
Darlene Rodrigues era assistente social e tinha uma confecção em Amparo, interior de São Paulo.
Quando o negócio fechou, em 1992, ela e o marido Spencer começaram a buscar outra saída. Um amigo da família deu o conselho que mudaria a trajetória dos dois: "invista em alimentação, as pessoas nunca vão parar de comer."
Com a indicação do mesmo amigo, o casal visitou uma fábrica de salgadinhos em Ribeirão Preto e decidiu comprar uma máquina.
A capacidade inicial era de 80 quilos por hora. Por 12 anos, a empresa terceirizou a produção para outras companhias. Em 2009, com o fim da parceria, lançou a Lobits — e foi o ponto de virada para a profissionalização do negócio.
Família no comando, gestão corporativa
Hoje, Darlene segue como CEO. Os filhos Pedro, Isabela e Ricardo respondem pelas operações.
Nos últimos anos, a empresa implantou o sistema SAP, de gestão empresarial, o CRM Salesforce, ferramenta de gestão de relacionamento com clientes, e conquistou certificações internacionais de qualidade.
"O crescimento da empresa depende da profissionalização. Estamos construindo bases sólidas para dobrar de tamanho com a estrutura atual", afirma Pedro.
A empresa está presente em mais de 20.000 pontos de venda, com forte concentração em São Paulo e expansão em curso para o Rio de Janeiro e outras regiões do Sudeste.
Quais são os desafios do setor
Crescer no mercado de salgadinhos no Brasil significa competir com multinacionais como PepsiCo e Mondelēz, que dominam as gôndolas e têm músculo para investir em marketing e distribuição.
Para a Milho de Ouro, o diferencial declarado é o preço. Mas há outro obstáculo no caminho: os selos de advertência nutricional, as tarjas pretas obrigatórias que indicam excesso de sódio, gordura saturada ou açúcar nos produtos.
"Estamos diminuindo o teor de sódio e óleo em várias linhas para evitar os selos de alerta", diz Pedro.
A empresa também já terceiriza produção para marcas do segmento saudável, como a Mãe Terra, e planeja lançar nos próximos anos uma linha própria de snacks com óleo de girassol e milho orgânico — uma tentativa de surfar na pauta de alimentação mais natural sem abrir mão do posicionamento de preço acessível.
O que vem pela frente
A meta para 2026 é fechar entre 180 milhões e 200 milhões de reais em faturamento.
Para chegar lá, a empresa aposta nos novos sabores da embalagem de 200 gramas, em ações promocionais ligadas à Copa do Mundo de 2026 e na expansão da presença no varejo fora de São Paulo.
"A Lobits é uma marca 100% brasileira, com produção local e fornecedores próximos. Isso reduz custos e nos permite responder rápido às mudanças do varejo", afirma Pedro.
A capacidade produtiva atual, de 700 toneladas por mês, pode dobrar para 1.400 toneladas sem novas obras — as duas fábricas em Embu das Artes têm espaço para isso.
O desafio é converter capacidade ociosa em demanda real, em um mercado onde o espaço nas gôndolas é disputado centímetro a centímetro.
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