A nova corrida espacial: por que Musk trocou Marte pela Lua?

Por Maria Eduarda Lameza 22 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A nova corrida espacial: por que Musk trocou Marte pela Lua?

Durante 20 anos, Elon Musk vendeu ao mundo o sonho de Marte. O planeta vermelho era, para ele, a salvação da humanidade. Até que, no início de fevereiro, o bilionário mudou de ideia. Ou melhor, mudou de astro.

Em uma série de publicações no X (antigo Twitter), Musk anunciou que a SpaceX vai concentrar esforços na construção de uma cidade autossustentável na Lua.

Marte não foi totalmente descartado, mas virou coadjuvante. Segundo o executivo, uma cidade na Lua leva menos de dez anos para ficar pronta. Em Marte, seriam mais de 20.

O anúncio aconteceu às vésperas do IPO mais esperado da década. A SpaceX discute uma avaliação de até US$ 1,5 trilhão e pretende captar US$ 50 bilhões na maior abertura de capital da história.

Satélite de US$ 30 trilhões

O interesse de Musk na Lua não é arbitrário — e ele não está sozinho nessa.

O solo lunar guarda recursos minerais avaliados em mais de US$ 30 trilhões, segundo estimativas do mercado. Somente as crateras concentram mais de US$ 1 trilhão em metais do grupo da platina, formados ao longo de bilhões de anos por impactos de asteroides.

O prêmio maior, porém, é o hélio-3. O isótopo raro, praticamente inexistente na Terra, pode revolucionar a fusão nuclear limpa e vale até US$ 20 milhões por quilo. Projeções indicam que apenas esse recurso poderia gerar cerca de US$ 4 trilhões nos próximos anos.

Há ainda água congelada nas crateras polares, essencial tanto para consumo quanto para produção de combustível de foguetes.

A exploração espacial deve ultrapassar US$ 150 bilhões até 2040, segundo a consultoria PwC. Empresas e governos já traçam planos para transformar a mineração da Lua em realidade até o fim da década.

A extração funcionaria por meio de escavadores robóticos capazes de processar o regolito lunar (material que fica na superfície do astro composto de poeira e rochas meteóricas) para liberar água, separar oxigênio e capturar gases raros.

Hoje, transportar material até a Lua custa até US$ 1,2 milhão por litro de carga e empresas esperam reduzir esse valor para cerca de US$ 10 mil com foguetes reutilizáveis.

Artemis II: a volta à Lua depois de meio século

Enquanto Musk recalcula a rota, a Nasa retorna às origens. A Artemis II, primeira missão tripulada com destino à Lua desde o fim do programa Apollo em 1972, deve ser lançada em 6 de março.

A data original era 8 de fevereiro, mas um vazamento de hidrogênio líquido durante testes atrasou a operação.

Quatro astronautas irão a bordo da cápsula Orion, lançada pelo SLS, o foguete mais poderoso já desenvolvido pela agência espacial americana. A viagem deve durar aproximadamente dez dias e não inclui pouso na superfície lunar em um primeiro momento, apenas um sobrevoo que testa sistemas críticos em ambiente de espaço profundo.

A tripulação é formada por Reid Wiseman, comandante; Victor Glover, piloto; Christina Hammock Koch, especialista de missão; e o canadense Jeremy Hansen, também especialista. A missão vai levar a primeira mulher, o primeiro homem negro e o primeiro não americano à Lua.

O programa Artemis prevê uma série de missões progressivas. A Artemis III, prevista para no mínimo 2027, deve marcar o retorno de astronautas à superfície lunar, com pouso na região do polo sul.

As missões seguintes incluem a construção da estação espacial Gateway, que orbitará o satélite e servirá como base para expedições de longa duração.

O objetivo declarado pela agência é estabelecer uma presença humana permanente em solo lunar e permitir que a Lua funcione como trampolim para futuras missões tripuladas a Marte.

A cidade lunar de Musk

A estratégia da SpaceX prevê usar as naves espaciais Starships pousadas como infraestrutura inicial de uma base permanente. Cada unidade possui mais de 600 metros cúbicos de volume interno pressurizado, o que permite uso como habitat. A principal área citada é a borda da cratera Shackleton, no polo sul da Lua, que recebe luz solar entre 80% e 90% do ano lunar.

Musk já afirmou que vê o espaço como ambiente estratégico para infraestrutura computacional, especialmente após a integração da xAI ao ecossistema da SpaceX. A empresa avalia a expansão de data centers espaciais em órbita.

A SpaceX trabalha com metas provisórias que incluem demonstrações técnicas em órbita em 2026, um pouso lunar não tripulado em 2027 e um pouso tripulado em 2028.

Obstáculos marcianos

Viagens a Marte só são possíveis quando os planetas se alinham, em janelas que ocorrem a cada 26 meses, com trajetos de cerca de seis meses. Missões à Lua podem ser lançadas a cada dez dias, com viagens de aproximadamente dois dias.

"Isso significa que podemos avançar mais rápido no desenvolvimento de uma cidade na Lua do que de uma cidade em Marte", escreveu Musk no X em fevereiro.

Em 2020, Musk afirmava estar confiante de que a SpaceX conseguiria pousar humanos em Marte até 2026.

Seis anos depois, o executivo diz que a construção de uma cidade marciana continua prevista, mas apenas no horizonte de cinco a sete anos. O objetivo principal, segundo ele, é "garantir o futuro da civilização".

Enquanto cidades espaciais e data centers orbitais tentam sair das telas e da ficção científica, o custo elevado e o horizonte de retorno de uma missão a Marte seguem como obstáculos difíceis de justificar para quem precisa apresentar resultados trimestrais.

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