Esta família vendia produtos de R$ 1,99. Hoje fatura bilhões no litoral mais caro do Brasil
No litoral mais caro do Brasil, uma família de origem chinesa usa os aprendizados da época em que vendia produtos a R$ 1,99 para faturar bilhões com construção civil.
A família é dona da Construtora CK, criada há 15 anos por Charles Kan, hoje com 35 anos, e com atuação em Itajaí, Navegantes e Balneário Camboriú, no litoral norte de Santa Catarina — região que concentra alguns dos metros quadrados mais valorizados do país.
A empresa já entregou 15 empreendimentos, soma 957 unidades e cerca de 170 mil metros quadrados construídos. O VGV, valor geral de vendas, acumulado ultrapassa bilhões.
Agora, a CK prepara um novo ciclo de crescimento: tem três obras em andamento, dois lançamentos previstos para 2026 e projetos para lançar mais de 2,3 bilhões de reais nos próximos anos.
Tudo isso em um mercado pressionado por juros altos, competição crescente e a presença de aventureiros que surfam o boom imobiliário da região.
“Não existe segunda chance para quem é empreendedor. Se um empresário erra, isso fica marcado em sua trajetória. O prejuízo passa, mas o nome não”, afirma Charles Kan.
O plano para os próximos cinco anos é crescer mantendo o foco em governança, auditoria e produtos mais compactos, voltados a um novo perfil de consumidor que quer morar ou investir perto do mar, mas com tíquete mais ajustado e infraestrutura completa dentro do condomínio.
Qual é a história da família e da CK
A história começa na China, nas décadas de 60 e 70.
O pai de Charles, Carlos, deixou o país ainda jovem. Chegou ao Brasil sem falar português. Trabalhou em pastelaria, restaurante e pequenos negócios até encontrar uma virada na importação.
Nos anos 1990, o país viveu a febre das lojas de 1,99. Produtos baratos, giro rápido, margem apertada e escala. Foi ali que a família consolidou capital.
“Era outra época. Hoje, com um aparelhinho na mão, você fala direto com a fábrica do outro lado do mundo. Na época, quem tinha fornecedor e logística na mão tinha o diferencial”, diz Charles.
A empresa importava produtos para abastecer o atacarejo de 1,99 e também exportava itens brasileiros para a China, incluindo frutos do mar. Foi essa operação que levou a família a Santa Catarina. Navegantes, onde seria construído o Porto Navegantes, virou base estratégica.
A construção civil entrou quase como renda complementar.
Empresários locais buscavam investidores para prédios de pequeno porte. O mercado ainda era artesanal. Poucas construtoras, poucas imobiliárias. Ciclo lento.
“O ciclo da construção civil é longo. Do terreno até vender o último apartamento, estamos falando de cinco anos”, afirma.
O pai começou investindo em empreendimentos de terceiros. Charles, já na segunda geração, decidiu estruturar a própria operação. Fundou a CK aos 19 anos. O primeiro prédio foi em Navegantes. Pequeno porte. Depois outro. E mais um.
A disciplina do 1,99 — controle de caixa, margem apertada, eficiência logística — virou método de gestão na obra. A cultura familiar também virou diferencial.
“Quem vem do zero sabe o valor da palavra. A gente honra o que promete. Não é da nossa índole abandonar obra ou dar calote”, diz.
A empresa cresceu em cima desse discurso. Hoje emprega cerca de 250 funcionários diretos, mantém balanços auditados e estrutura canais de acompanhamento de obra para clientes. Transparência virou ativo.
Em uma região onde surgem incorporadoras a cada novo ciclo de alta, Charles faz um alerta:
“Construção civil, assim como qualquer mercado, tem aventureiros. Quando alguém promete muito fora da curva, desconfie. Não existe bilhete premiado.”
Como está o mercado no litoral de SC
Itajaí, Balneário Camboriú, Praia Brava e Itapema formam um eixo de até 30 quilômetros que se transformou em vitrine nacional do mercado imobiliário.
Em poucos anos, a região deixou de ser vista como interior e passou a concentrar empreendimentos de alto padrão e investidores de todo o país.
“A valorização aqui foi exponencial. Em ciclos de dois a três anos, vimos imóveis valorizarem mais de 50%”, afirma Charles.
Ele reconhece que haverá desaceleração em algum momento, mas aposta que a região continuará acima da média nacional, puxada por turismo, gastronomia, segurança e fluxo constante de novos compradores.
A CK já entregou cerca de mil unidades residenciais e mantém três obras em andamento, incluindo projetos na Praia Brava. Em andamento e futuros lançamentos, soma aproximadamente 180 mil metros quadrados entre estoque e pipeline.
O foco atual é adaptar produto ao comportamento do cliente. O modelo tradicional de apartamentos grandes perdeu força. Entram em cena os compactos e os condomínios com estrutura de clube, os chamados home club, empreendimentos com áreas comuns amplas e serviços compartilhados.
“O perfil do consumidor mudou. Hoje o cliente quer academia, piscina, salão de festas, espaço wellness dentro do prédio. Ele não quer sair para resolver tudo fora”, diz.
Quais são os próximos passos
Para os próximos anos, a meta é lançar mais de 2,3 bilhões de reais em novos empreendimentos.
A estratégia passa por três pilares: manter governança, controlar o ritmo de crescimento e ajustar o mix de produto.
Charles diz que não há vaidade no tipo de projeto. A empresa pode atuar do médio ao alto padrão, dependendo do sinal do mercado.
“A CK tenta se posicionar onde o mercado dá sinais. Hoje os compactos têm mais aderência. É onde estamos investindo”, afirma.
O desafio é claro. O ciclo é longo. Juros elevados pressionam financiamento. O número de concorrentes cresceu. E o consumidor está mais atento.
Ao mesmo tempo, a construção civil segue vista como porto seguro em momentos de volatilidade.
“O brasileiro aprendeu a fazer poupança em tijolo. Pode não ser o investimento mais agressivo, mas é conservador. E isso pesa”, diz.
De um negócio de giro rápido e produtos de 1,99, a família aprendeu a importância de escala, margem e controle. Na construção, aplicou paciência e reputação.
“Nosso papel é continuar entregando o que prometemos: prédios, empregos, credibilidade. O resto é consequência”, afirma.
No litoral mais caro do Brasil, a estratégia não é apostar no improviso. É repetir, obra após obra, a mesma lógica que começou no varejo popular: disciplina, controle e palavra cumprida.
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