A nova obsessão de Trump em meio a guerras e crises: um sapato
Em meio a reuniões sobre decisões de governo e crises internacionais, Donald Trump tem aproveitado para demonstrar seu favoritismo por um sapato. Mais especificamente, um Oxford de couro da marca Florsheim, no modelo Lexington.
No começo, era só gosto pessoal. Mas, quando o presidente passou a presentear aliados e integrantes do governo com o modelo específico de sapato, o item virou quase um "código interno" da gestão e, agora, caminha para se tornar um novo símbolo entre apoiadores do movimento MAGA — sigla para Make America Great Again, slogan político associado a Trump e à sua base mais fiel. As informações são do Wall Street Journal e do Financial Times.
Por trás do apelo
Curiosamente, não se trata de um modelo de luxo. No site da marca, o sapato custa cerca de US$ 145, um valor intermediário dentro desse mercado. Para comparação, modelos parecidos de marcas tradicionais podem passar dos US$ 400, dependendo dos materiais e da forma como são feitos.
O preço ajuda a explicar parte do apelo, mas a história da marca também pesa. Fundada em 1892, em Chicago, por Sigmund Florsheim e seu filho, a empresa virou um nome tradicional nos Estados Unidos. Ao longo do século 20, abriu lojas pelo país, calçou soldados nas duas guerras mundiais e acompanhou o crescimento dos shoppings, sendo uma das principais opções para quem estava em busca do seu primeiro sapato social.
Mais do que isso, atravessou gerações. O ex-presidente Harry Truman usava seus sapatos. Décadas depois, Michael Jackson fez o moonwalk usando um modelo da marca. Mesmo com tanto sucesso, a marca passou por altos e baixos — incluindo uma falência nos anos 2000 — e hoje integra o grupo Weyco, que mantém a operação.
O sapato dos homens do presidente
Trump tem aproveitado sua posição para ir além de uma simples recomendação casual. O magnata passou a comprar os sapatos e a distribuí-los pessoalmente para subordinados. Segundo relatos, costuma até arriscar o número de cada um antes de fazer o pedido — e, em alguns casos, a caixa chega assinada ou com um bilhete.
O detalhe que mais chamou atenção veio depois. Em fotos de eventos oficiais, alguns integrantes do governo aparecem usando pares visivelmente maiores do que o ideal. Foi o caso do secretário de Estado Marco Rubio. O vice-presidente JD Vance também já foi visto com o modelo, mas aparentemente do tamanho certo.
Ainda assim, o gesto ganhou outro peso. Nos bastidores, há relatos de que muita gente evita não usar os sapatos na presença do presidente. Aos poucos, o que começou como um presente virou quase um uniforme na Casa Branca.
Paixão irônica
Com tanta gente usando o sapato — e com o próprio Trump incentivando isso o tempo todo — a leitura mais óbvia é de que ele realmente gosta da marca e faz questão de mostrar isso. No entanto, existe uma ironia nessa relação.
Apesar de ser um clássico americano, com toda essa imagem clássica ligada aos Estados Unidos, os sapatos da Florsheim não são produzidos por lá. A fabricação acontece, principalmente, na China, na Índia e no Camboja.
Esse fator esbarra diretamente no chamado tarifaço, uma das medidas mais polêmicas de Trump, que impôs taxas adicionais de, no mínimo, 10% sobre produtos importados.
No ano passado, essas medidas atingiram diversas empresas — entre elas a controladora da Florsheim, que disse ter sido impactada e chegou a repassar parte dos custos, com aumento de preços. Mais do que isso, a empresa está entre as que acionaram o governo americano na Justiça para tentar recuperar essas perdas.
Procuradas pelo WSJ, nem a Casa Branca nem a própria empresa detalharam a relação. Oficialmente, o governo não confirma a escolha da marca pelo presidente. Já Thomas Florsheim Jr., executivo da quinta geração da família e CEO do grupo que controla a empresa, disse não ter conhecimento sobre as encomendas e evitou comentar o assunto.
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