A Philips tem 135 anos e está se reinventando de novo. Esta é a aposta da empresa para o Brasil
Por décadas, ter uma Philips dentro de casa foi quase inevitável no Brasil. Era a marca da lâmpada que iluminava a sala, do barbeador elétrico em cima da pia, do televisor que mostrava a Copa, da mamadeira do bebê, da máquina de fazer café da cozinha.
Fundada há 135 anos, a Philips começou como uma fábrica de lâmpadas na cidade de Eindhoven, na Holanda. Atravessou duas guerras mundiais, virou conglomerado global e construiu uma marca que poucas companhias do mundo carregam: reconhecida em quase 100 países, presente em quase tudo o que envolve eletricidade na vida cotidiana.
Hoje, a empresa registrada na bolsa de Nova York e em Amsterdã empregava cerca de 64.800 pessoas no fim de 2025 e teve receita de 18 bilhões de euros no ano. Mas o foco foi redesenhado. Hoje, a Philips está com os olhos totalmente direcionados para a área da saúde. E em três pilares específicos: diagnóstico por imagem, terapia guiada e cuidados intensivos.
Tanto é que acaba de vender a Tasy, software de gestão hospitalar e prontuário eletrônico desenvolvido em Santa Catarina, para a brasileira Bionexo, em uma operação de 940 milhões de reais. A transação foi aprovada pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e o contrato foi assinado em abril.
"No final, a gente avalia os portfólios globais e regionais, busca sinergia. Vemos muita necessidade de continuar inovando, ainda mais com inteligência artificial. Principalmente em diagnósticos integrados, em outras disciplinas e modalidades clínicas. Isso requer muito investimento", afirma Felipe Basso, presidente da Philips na América Latina. "Quando temos diferentes unidades de negócios, a alocação de capital acaba se dividindo também. Focando, conseguimos investir melhor."
De lâmpada a hospital, em 135 anos
A reinvenção da Philips não é nova. É um movimento contínuo, que se acelerou em momentos específicos da história da empresa.
A primeira virada veio cedo: ainda no fim do século 19, a tecnologia do filamento da lâmpada — peça que produz luz quando aquecida pela corrente elétrica — abriu caminho para um produto inesperado. O mesmo princípio era a base do tubo de raio-x, equipamento que fotografa o interior do corpo humano.
Foi por aí que a Philips entrou na medicina, ainda nos primeiros anos da empresa.
Por décadas, no entanto, a saúde era apenas um pedaço pequeno do conglomerado. O grosso do faturamento vinha de eletrônicos de consumo: televisores, equipamentos de áudio, iluminação, eletrodomésticos. Era essa Philips que o brasileiro conhecia.
A virada estratégica veio em 2012. A diretoria global da Philips tomou uma decisão que parecia contraintuitiva: vender exatamente o que tornava a marca famosa. A divisão de televisores foi licenciada. A operação de iluminação, batizada de Signify, virou empresa independente em 2018. A linha de eletrodomésticos foi vendida em 2021 para a chinesa Hillhouse Capital.
"A Philips se tornou um grande conglomerado e, claramente, a marca foi conhecida por seu braço de consumo. Muitas pessoas identificam a Philips com televisão, com iluminação", diz Basso. "Em 2012, a Philips tomou a decisão estratégica de fazer desinvestimento na área de consumo. Mas saúde já existia. Sempre teve negócio de saúde".
A partir dali, a empresa deixou de ser um conglomerado para virar uma especialista. Hoje, a saúde responde por praticamente toda a operação. O que sobrou de consumo é uma linha estreita de cuidado pessoal, com produtos como escova elétrica, barbeador e mamadeira. Que de alguma forma, ainda é saúde.
Por que vender o Tasy fazia sentido
Dentro do guarda-chuva de saúde, a Philips precisou fazer mais uma escolha: o que continuar e o que vender.
O software entrou no portfólio da Philips quando a empresa comprou a brasileira Wheb Sistemas, dona do produto. O Tasy é um sistema de gestão hospitalar. Ele organiza a rotina administrativa e clínica do hospital, do agendamento da consulta ao prontuário do paciente, passando por estoque de medicamentos, faturamento e contabilidade. É um produto de software, vendido por assinatura, que compete em um mercado cheio de concorrentes brasileiros e estrangeiros.
A Philips, no entanto, é uma empresa de equipamento médico antes de qualquer coisa. Suas linhas mais fortes são máquinas que pesam toneladas, custam milhões e ficam dentro de hospitais por décadas: ressonância magnética, tomografia computadorizada, ultrassom, equipamento para cateterismo.
Manter o software exigia investimento contínuo em desenvolvimento, em integração com plataformas de terceiros, em equipe de engenharia. Manter os equipamentos médicos competitivos no mundo da inteligência artificial exigia ainda mais investimento. A escolha foi clara.
"Garantimos a manutenção dos nossos clientes, sendo muito transparentes com eles. E também com os funcionários, para que tenham uma transição", diz Basso.
Para onde a Philips está olhando
Com o Tasy fora, o que define a Philips hoje cabe em três blocos.
O primeiro é o diagnóstico por imagem. É a área das máquinas que produzem as imagens internas do corpo humano — ressonância magnética, tomografia, ultrassom, raio-x. A Philips se posiciona como uma das líderes globais nessa frente. No Brasil, mantém uma fábrica em Varginha, em Minas Gerais, e um centro de desenvolvimento dedicado à linha de monitores de pacientes.
O segundo pilar é a terapia guiada por imagem, nome técnico para um tipo de tratamento que combina equipamento de imagem com instrumentos cirúrgicos. É a área que inclui o cateterismo, procedimento em que o médico introduz um tubo fino por uma artéria do paciente para tratar problemas no coração sem precisar abrir o peito.
O terceiro pilar é o monitoramento de pacientes críticos, o equipamento que fica ao lado do leito em uma UTI registrando batimento cardíaco, pressão, oxigenação e dezenas de outros sinais vitais. A aposta da Philips para essa frente é usar inteligência artificial para antecipar deterioração clínica antes que ela aconteça. "Pacientes em cuidados críticos geram muitos dados. Podemos antecipar o que pode acontecer numa situação delicada", diz Basso.
Por baixo dos três pilares está uma estratégia que a Philips chama de Integrated Diagnostics — diagnóstico integrado, em tradução livre. A ideia é fazer com que essas frentes deixem de operar como ilhas e passem a conversar entre si. Que a imagem da ressonância chegue ao médico já cruzada com o histórico do paciente, com o resultado da última biópsia, com o sinal vital monitorado na UTI.
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