A população do Japão encolheu — e deixou esse banco quase sem clientes

Por Caroline Oliveira 29 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A população do Japão encolheu — e deixou esse banco quase sem clientes

A redução da população em áreas rurais do Japão já começa a afetar diretamente a sustentabilidade de instituições financeiras locais. No extremo norte do país, o Wakkanai Shinkin Bank enfrenta uma escassez de tomadores de crédito, reflexo do encolhimento demográfico e da retração do número de empresas na região.

Localizado na cidade de Wakkanai, em Hokkaido, o banco viu a demanda por empréstimos cair significativamente após a população local reduzir aproximadamente pela metade desde o pico registrado em 1964. A instituição passou então a direcionar recursos para títulos do governo japonês como forma de sustentar a rentabilidade.

Segundo o presidente do banco, Masatoshi Masuda, o futuro da instituição está diretamente ligado à trajetória demográfica da região. "Nenhum negócio pode sobreviver sem pessoas", afirmou Masuda à Bloomberg.

Apesar de conceder quase metade dos empréstimos na sua área de atuação, o volume total de crédito representa apenas 16% dos depósitos da instituição, bem abaixo da média nacional de cerca de 50% entre as cooperativas de crédito japonesas conhecidas como “shinkin”.

O restante dos recursos foi majoritariamente alocado em títulos públicos japoneses. De acordo com seu último relatório anual, em março do ano passado, o banco detinha cerca de ¥290 bilhões (US$ 1,8 bilhão) nesses papéis, com perdas não realizadas estimadas em aproximadamente ¥47 bilhões (US$ 290 milhões), excluindo ativos classificados como mantidos até o vencimento.

Masuda, que trabalha no Wakkanai há quase 50 anos e atua como presidente nos últimos 20, vê a dívida nacional como uma proposta relativamente segura. Para ele, as perdas são consideradas administráveis porque os títulos devem ser mantidos até o vencimento e são vistos como ativos sem risco de inadimplência. “Estamos assumindo muito risco de crédito em empréstimos”, disse ele. “Portanto, não queremos assumir mais risco de crédito em nossa carteira de títulos.”

Ainda assim, as perdas não realizadas em títulos se tornariam um problema se os detentores fossem forçados a se desfazer deles antes do resgate para financiar saques de depósitos e outras necessidades de caixa, como o Silicon Valley Bank e outros fizeram nos Estados Unidos em 2023.

Mesmo com essas perdas contábeis na carteira, Masuda afirmou que a situação do banco difere da enfrentada pelo falido Silicon Valley Bank. Segundo ele, a instituição possui liquidez suficiente, reservas em outras instituições financeiras e base de depósitos formada por pequenas economias de moradores locais, consideradas estáveis mesmo com remuneração inferior à de concorrentes.

O desafio enfrentado pelo Wakkanai é compartilhado por muitas outras instituições financeiras rurais no Japão. Anos de custos de empréstimo extremamente baixos não conseguiram tirar as economias locais de sua crescente estagnação. Agora, mesmo com o Banco do Japão aumentando as taxas de juros, a demanda por crédito está muito fraca para sustentar os lucros.

A aposta nos títulos públicos, porém, ocorre em um momento de pressão sobre o mercado de dívida japonesa, diante da expectativa de novas altas de juros pelo Banco do Japão e de possíveis aumentos nos gastos públicos.

Ao mesmo tempo, a Agência de Serviços Financeiros do Japão tem intensificado a supervisão sobre a sustentabilidade de longo prazo das cooperativas financeiras regionais, incluindo a capacidade de absorver perdas relacionadas a títulos.

Para Masuda, entretanto, o principal desafio estrutural permanece fora do balanço: a redução contínua da população e do número de empresas na região atendida pelo banco.

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