UNICEF: Mortalidade infantil global desacelera e deixa 4,9 milhões de mortes em 2024

Por Letícia Ozório 18 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
UNICEF: Mortalidade infantil global desacelera e deixa 4,9 milhões de mortes em 2024

Pelo menos 4,9 milhões de crianças não chegaram ao quinto aniversário em 2024. Desse total, 2,3 milhões morreram nos primeiros 28 dias de vida. Os números constam de levantamento divulgado ontem pelo Grupo Interagencial da ONU para Estimativas de Mortalidade Infantil (UN IGME).

No mundo, a taxa de óbitos na infância caiu pela metade desde a virada do século. Mas o ritmo dessa queda perdeu força. Entre 2015 e 2024, a velocidade da redução diminuiu mais de 60% em comparação com a década anterior.

Para a diretora-executiva do UNICEF, Catherine Russell, o cenário acende um alerta. Ela afirmou que os cortes orçamentários globais chegam num momento crítico, justamente quando o progresso já dava sinais de desaceleração.

Russell defendeu que a história já demonstrou ser possível avançar quando há vontade política e recursos garantidos, e pediu que governos não abandonem o investimento em saúde infantil.

Brasil em rota contrária

Enquanto o mundo patina, o Brasil atingiu em 2024 os melhores indicadores de sua história. Naquele ano, a cada mil crianças que nasceram, sete morreram antes de completar 28 dias. Em 1990, esse número era de 25.

A taxa de mortalidade até os cinco anos também despencou: de 63 mortes por mil nascimentos em 1990 para 14,2 por mil em 2024.

Luciana Phebo, chefe de Saúde e Nutrição do UNICEF no Brasil, lembra que a decisão de investir em atenção primária e prevenção permitiu que bebês que não sobreviveriam décadas atrás pudessem crescer e chegar à vida adulta. "E essa mudança foi possível porque o Brasil escolheu investir em políticas que funcionam, como a vacinação e o incentivo à amamentação. Agora, precisamos voltar a acelerar esses esforços, mantendo e ampliando os avanços históricos das últimas décadas e alcançando aqueles nos quais essas políticas ainda não chegam como deveriam", diz."

Os dados mostram que, de fato, o Brasil desacelerou. Entre 2000 e 2009, a mortalidade neonatal caía quase 5% ao ano. Entre 2010 e 2024, o ritmo caiu para pouco mais de 3% ao ano. A direção é a certa, mas a velocidade diminuiu.

O que mata crianças no mundo

O relatório da ONU traz, pela primeira vez, uma estimativa específica para mortes causadas diretamente pela desnutrição aguda grave. Foram mais de 100 mil crianças de um mês a quatro anos vítimas dessa condição em 2024, o equivalente a 5% do total de óbitos na faixa. O número real, porém, deve ser maior: a desnutrição raramente é registrada como causa principal, mas é ela que faz uma criança não resistir a uma pneumonia ou a um quadro de diarreia.

Entre recém-nascidos, as principais causas de morte são complicações da prematuridade (36%) e problemas durante o parto (21%). Depois do primeiro mês, doenças infecciosas como malária, pneumonia e diarreia assumem a liderança.

A mortalidade infantil continua concentrada em alguns lugares. A África Subsaariana responde por 58% de todos os óbitos de crianças pequenas. Lá, nove doenças infecciosas – entre elas pneumonia, malária e diarreia – causam mais da metade das mortes. Na Europa e América do Norte, essa proporção não chega a 10%. A diferença escancara o abismo no acesso a serviços de saúde.

O Sul da Ásia responde por mais 25% das mortes. Nessa região, o problema está concentrado no período neonatal: partos prematuros, asfixia, infecções e más formações. Tudo isso poderia ser evitado com pré-natal de qualidade e assistência qualificada no parto.

Em países em conflito ou situação de fragilidade institucional, nascer é ainda mais arriscado. Crianças nesses contextos têm três vezes mais chance de morrer antes dos cinco anos do que aquelas que vivem em países estáveis.

Adolescência e juventude

O levantamento também acompanha o que acontece depois da primeira infância. Em 2024, 2,1 milhões de pessoas entre cinco e 24 anos morreram no mundo. As causas mudam com a idade. Entre meninas de 15 a 19 anos, o suicídio é a principal causa de morte globalmente. Entre meninos da mesma faixa, são os acidentes de trânsito.

No Brasil, o padrão é outro. Quase metade dos meninos de 15 a 19 anos que morreram em 2024 foram vítimas de violência. Depois vêm as doenças não transmissíveis (18%) e os acidentes de trânsito (14%). Entre as meninas, as doenças não transmissíveis lideraram (37%), seguidas por doenças infecciosas (17%), violência (12%) e suicídio (10%).

Caminhos para retomar o avanço

O relatório da ONU elenca prioridades para governos e financiadores. A primeira é tratar a sobrevivência infantil como prioridade política e orçamentária, com os países mais afetados mobilizando recursos próprios.

A segunda é focar esforços em quem mais precisa: mães e crianças na África Subsaariana, no Sul da Ásia e em regiões de conflito. A terceira é fortalecer os sistemas de atenção primária, com agentes comunitários e assistência qualificada no parto. A quarta é garantir financiamento contínuo para coleta e monitoramento de dados.

O argumento econômico também é forte: cada dólar investido em saúde infantil pode gerar até vinte dólares em benefícios futuros, entre ganhos de produtividade e redução de gastos públicos.

Papel da UNICEF

No país, o UNICEF trabalha com governos para qualificar políticas públicas voltadas a crianças e adolescentes em territórios vulneráveis. Um dos projetos é a UAPI – Unidades Amigas da Primeira Infância, que capacita profissionais de saúde, educação e assistência social.

Em 2025, as unidades apoiadas registraram aumento de 40% na vacinação de rotina e de 22% na amamentação exclusiva até os seis meses.

Há também um trabalho específico com populações indígenas. Em 2025, quase 800 profissionais de saúde que atuam em territórios indígenas passaram por capacitações do UNICEF para prevenção de doenças comuns na infância. A organização também distribuiu mais de 69 mil unidades de suplementos alimentares para tratar desnutrição entre bebês e crianças nessas regiões.

Frank Davi, de quatro anos, é um dos que se beneficiaram. Há dois anos, ele foi encontrado por equipes de saúde apoiadas pelo UNICEF na fronteira com a Venezuela, em Roraima, em situação de desnutrição grave e com pneumonia. Depois de meses de acompanhamento, se recuperou completamente. A mãe dele, Isadora Indira, conta que “hoje ele pula, grita e brinca com os irmãos, e isso me dá paz”, afirma.

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