A praga do México que avança nos EUA e ameaça US$ 1,8 bi na carne bovina do Texas
Autoridades dos Estados Unidos confirmaram nesta terça-feira, 2, um novo caso da bicheira-do-novo-mundo, parasita que ameaça rebanhos bovinos e outras espécies animais.
O caso foi identificado em uma cabra de cinco anos no estado de Coahuila, no México, a menos de 40 quilômetros da fronteira com os Estados Unidos, informou a secretária de Agricultura dos EUA, Brooke Rollins.
Segundo Rollins, este é o registro mais próximo da fronteira americana desde o início do atual surto. “Não há dúvida de que esta é uma ameaça muito, muito séria para o nosso rebanho”, afirmou a secretária em teleconferência nesta terça.
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) estima que a praga possa causar prejuízos de até US$ 1,8 bilhão à economia do Texas.
Na última sexta-feira, 30 de maio, o USDA informou que uma mosca-da-bicheira foi encontrada em uma ovelha jovem no México, a menos de 50 quilômetros da fronteira com os EUA.
A descoberta aumenta a preocupação da indústria de carne bovina e dos pecuaristas americanos, que acompanham há mais de um ano o avanço da mosca-varejeira-do-novo-mundo em direção ao norte do México.
As moscas-varejeiras são parasitas cujas fêmeas depositam ovos em feridas abertas de animais. As larvas alimentam-se de tecido vivo e, se não forem tratadas, podem levar o hospedeiro à morte.
O surto atual teve origem na América Central e avançou para o norte, afetando as cadeias pecuária e de carne bovina no México e nos Estados Unidos.
Em razão da disseminação da praga, os Estados Unidos mantêm sua fronteira sul praticamente fechada à entrada de gado mexicano desde maio de 2025, medida que tem contribuído para a alta dos preços da carne no país.
Preço da carne nos EUA
O avanço da doença no México deve dificultar ainda mais os planos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de reduzir os preços da carne bovina no país.
O preço da carne moída, principal matéria-prima dos hambúrgueres, atingiu o recorde de US$ 6,90 por libra-peso em abril, o maior valor da série histórica do Bureau of Labor Statistics (BLS), órgão responsável pelas estatísticas trabalhistas dos Estados Unidos.
O patamar representa quase o dobro do registrado há dez anos e uma alta de aproximadamente 20% em relação ao mesmo período do ano passado. Os preços da carne bovina nos Estados Unidos vêm acumulando sucessivos recordes. Desde 2020, a valorização chega a 75%, segundo dados do Federal Reserve de St. Louis.
A escalada dos preços tem levado reguladores, representantes da indústria e entidades de defesa do consumidor a buscar explicações para o movimento, além de intensificar o debate sobre os fatores que pressionam os custos ao longo da cadeia pecuária.
O Departamento de Justiça dos Estados Unidos, inclusive, abriu uma investigação antitruste para apurar a atuação de grandes processadoras de carne, entre elas JBS, Cargill e Tyson Foods.
A alta nos preços é resultado de uma combinação de fatores, como as condições climáticas adversas, a redução do rebanho bovino e a tarifa de 50% imposta pelo próprio governo Trump sobre a carne brasileira em julho de 2025.
A crise enfrentada pelos pecuaristas americanos se intensificou nos últimos cinco anos. O setor atravessa uma fase de contração do ciclo pecuário, marcada pela redução do rebanho e pela menor oferta de animais para confinamento.
Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões. O rebanho total de bovinos dos Estados Unidos atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
A seca prolongada no oeste americano agravou o cenário ao elevar os custos com ração e reduzir áreas de pastagem, levando produtores a liquidar parte dos rebanhos para preservar caixa.
Em 2025, a produção americana de carne bovina recuou 4% em relação ao ano anterior, para 11,8 milhões de toneladas. Com isso, os Estados Unidos perderam para o Brasil a liderança global na produção da proteína.
A combinação entre seca, custos elevados e redução do rebanho criou um dos cenários mais desafiadores para a pecuária americana nas últimas décadas. No outono passado, o USDA lançou um plano para apoiar pecuaristas na expansão dos rebanhos, incluindo medidas para ampliar o acesso a áreas de pastagem.
Ainda assim, muitos produtores seguem optando por vender os animais para abate, em vez de mantê-los para reprodução, diante dos altos custos dos insumos e da persistência das condições climáticas adversas.
Mesmo com sinais recentes de recomposição, a recuperação do rebanho bovino americano deve ser gradual. O ciclo pecuário exige tempo: entre o nascimento do bezerro e o abate, o processo pode levar de dois a três anos.
O presidente Donald Trump avalia possíveis medidas executivas para reduzir tarifas de importação de carne bovina e flexibilizar regulações sobre os produtores. O objetivo é conter a alta dos preços da proteína no mercado interno.
Embora produtos como ovos, leite e outros itens básicos tenham registrado queda desde o início do novo mandato de Trump, em janeiro de 2025, a carne bovina continua pressionando o bolso do consumidor americano.
Segundo o USDA, os preços da proteína estão mais de 16% acima do registrado no ano anterior, tornando-se um dos principais símbolos da inflação persistente nos Estados Unidos, especialmente às vésperas da temporada de churrascos de verão.
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